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Leva-me Levante [2]

Leva-me Levante...

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Praga e Auschwitz

Foi depois de inúmeras horas de viagem e várias paragens, atravessando a França e Alemanha, que cheguei a Praga, na República Checa. Pela primeira vez na viagem fui abordado pela polícia num dos comboios. Ao que parece os comboios de travessia destes países de leste são um pouco mal frequentados e então é regular haver revistas da polícia Checa e Alemã.

Depois do " Senhor Guarda" me ter desarrumado a mala toda e ter dito inúmeras coisas que eu não percebi - ele não entendia uma palavra de inglês - pediu-me a identificação. Lá tirei a carteira, entreguei-lha com toda a simpatia do mundo e ele começa a olhar para a foto do meu Cartão de Cidadão. De seguida olha para mim com ar desconfiado. Até que me apercebi que no cartão eu tinha cabelo e, agora, não... tinha-o rapado em Barcelona...

O que é que eu havia de ter feito! Depois de inúmeros telefonemas dele, para confirmar números de tudo e mais alguma coisa, lá me devolveu os documentos e foi-se embora. Que alívio.

Em Praga liguei a um amigo português que estuda medicina. Pude tomar um banho quente e dormir relaxadamente. Que bem que me soube.

No dia seguinte fui visitar Praga: inúmeros monumentos históricos, estatuas, praças. Nem mesmo a chuva me travou a curiosidade, por entre a simpatia dos checos e as fáceis trajetórias entre ruas, lá andei com o meu amigo, que me guiou o dia inteiro e me falou de vários significados, lendas e histórias.

Na catedral, encontrei uma arquitetura igual à que vi em Barcelona, Influências dos reis. Estava a adorar tudo o que via, mas continuava sempre com o bichinho e perguntava constantemente:

- Quando é que vamos à "Jonh Lennon Wall"?

E foi lá que perdi cerca de uma hora a ler tudo o que estava escrito, a maior parte, letras do grande Jonh Lennon. Que inspiração enorme foi aquele momento... Alguns metros à frente descobria desejos perdidos e fechados em cadeados, numa das pontes da cidade de Praga (existe este ritual por toda a Europa).

Foram dois magníficos dias.

A caminho de Auschwitz, no comboio das 22h45, conheço o Ben, nova-iorquino que andava a fazer um interrail pela Europa. Cada terra de que eu falasse ele tinha uma palavra a dizer sobre o sítio. Esta era a sua quinta viagem pela Europa, com apenas 25 anos. Falámos do 11 de Setembro, da cultura americana, e ficou o convite para por lá me perder, um dia destes.

Às 05h00 da manhã, após uma hora de atraso, cheguei a Auschwitz, para visitar o campo de concentração nazi.

A estação, deserta, no meio do nada, fez-me pensar. Tenho fome e um café cairia mesmo bem. Primeiro problema: arranjar zlótis, a moeda polaca. às cinco e tal da manhã vi uma senhora a abrir uma espécie de quiosque, onde perguntei, falando por gestos, como poderia trocar euros ou coroas por zlótis. Ela respondeu-me: 1€ = 2 zlóti.

Virei costas, pois sabia que estava a ser enganado em mais de metade do valor do meu euro. Após andar sensivelmente dois quilómetros com a mochilona que carregava, encontrei finalmente uma caixa multibanco, numas bombas de gasolina. Foi a minha salvação. As latas de atum tinham acabado e eu precisava de comprar mais.

Apanhei um autocarro para o museu de Auschwitz, que me custou 1zl e 20, ou seja, cerca de 22 cêntimos (país extremamente barato). Quando cheguei eram sete da manhã e a entrada do museu estava completamente deserta, dada a hora. Eram vários os placares pretos, fora do museu, onde podíamos ler talvez o pedaço mais negro da nossa história mundial.

Dezenas de corvos agravavam o sentimento de luto que todas aquelas palavras cruéis me faziam sentir. Pelas oito da manhã, assim que o museu abriu, fui o primeiro e a única pessoa a entrar no famoso portão "Arbeit macht frei" em português: "O trabalho liberta".

É inexplicável o sentimento de repúdio à medida que ia avançando naqueles corredores de morte. Todos os pormenores agravavam o meu sentimento. Ficava-me constantemente a remoer a cabeça uma mistura de pena e solidariedade com uma simples pergunta "Como é alguém capaz de tamanha atrocidade?". Foi de rastos, empurrado pelo vento, que abandonei aquele local, novamente em direção à estação de comboios, para seguir diretamente para Cracóvia.

Não queria continuar mais tempo ali.