Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Entre a guerra e a paz. Da Palestina às Américas: crónica de apresentação

  • 333

A Pipa solta amarras já no próximo dia 5 de novembro. Acompanham-na?

Olá sonhadores, olá aventureiros, olá intelectuais, olá cidadãos do mundo

Vou contar-vos tudo, tim-tim por tim-tim.

Pois bem, sou a Pipa, tenho 20 anos, e daqui a duas semanas vou dar início a um ano muito especial: vou viajar 8 meses, só por minha conta. Congelei a matrícula da faculdade com dois dos três anos de Ciência Política e Relações Internacionais concluídos e há 6 meses que sou empregada de mesa num restaurante e bar à beira-mar, de maneira a poder ajuntar os 6000€ (1000€ para a Palestina - com o voo incluído - 5000€ para as Américas) necessários para este retiro.

Passarei os dois primeiros meses, de 5 Novembro a 23 de Dezembro, nos campos de refugiados palestinianos de Hebron, via Organizações Não Governamentais (ONG's) pacíficas de ativismo político e solidário. Vou ser voluntária, isto é, pau para toda a obra! Planeio dar umas voltas de bicicleta pela Bíblia, mas a percentagem considerável de tempo vai ser gasta em trabalho de campo. Estou um bocado ansiosa, porque não sei o que esperar. Não sei se aligeire a situação ou se a torne mais dramática. A maior parte do tempo sinto-me apenas confiante. Quero muito perceber um conflito sobre o qual quanto mais leio, menos percebo. Como é que um escândalo assim é exequível num sistema internacional de Estados de Direito?! Tanques contra paus e pedras, civis contra militares e uma nação destroçada e sem identidade, com os seus dias bem contados ao fim de mais de 50 anos de conflito armado... Vai correr tudo bem. Espero aprender muito!

Depois, de Janeiro a Junho, vem aquela viagem de puro prazer... Farei os 25 000 quilómetros que ligam Nova Iorque ao Rio de Janeiro. De mota até São Francisco - o lendário percurso que liga a costa atlântica à do pacífico - e, a partir daí, só Deus sabe. "Um bocadinho a pé, um bocadinho andando, como dizia o Zé Nando". Atravessar o México, toda a natureza verdejante e a politicamente instável América Central, depois Colômbia, Venezuela e, enfim, Brasil - Amazónia e caipirinhas até ao Rio.

Não é a primeira vez que me meto numa destas. Com 18 anos acabadinhos de fazer, acabei o 12° ano, peguei nas perninhas e fui trabalhar. Depois, fiz meia-dúzia de viagens mais pequenas e fui para o Quénia. Vivi com os Masai, tentei ensinar Ciências e Matemáticas nas suas escolas ao ar livre, recebi bebés órfãos num orfanato nos arredores de Nairobi e fiz pesquisa em favelas do norte do país. Viajei muito sozinha, descobri selvas, matos e civilizações, vi toda a suposta pobreza que tinha que ver e vivi-a como melhor soube. Respeitei-a e dei-lhe valor. A intensidade do lugar fez-me ter tempo para pensar e cimentar as minhas crenças e princípios. A partir daí, nunca mais parei de torrar os meus tostões em viagens, sempre que pude.

Para ajudar à festa, não tenho orçamento para alojamento e não sou lá muito boa da cabeça. Ir bater às portas e montar tendas vai com certeza ser um cenário constante nas Américas, uma vez que não há muitas alternativas low cost! Fazer umas loucuras na natureza e um bocado de tudo o que me apetece, é o que me faz ser feliz e viver em harmonia com a espiritualidade que me rodeia. Haja consciência e moderação, haja aventura em segurança. O que é importante haver também é leveza! Viajo com uma mochila de 40 litros (aquelas enormes de campismo têm 60/70) e carrego no máximo 13 quilos. Se não cabe lá dentro, é porque não é assim tão importante. O corpo é que paga!

Apesar de viver num estado de extrema consciência do mundo e de ter a noção de que um ato de cada vez faz a diferença, ainda me derreto com pouco e são estes dois fatores juntos que me fazem ter tanta vontade de valorizar e arrojar o meu plano de vida. Qualquer chá me fascina e qualquer tradição me convence. Sou democrata (por não existir ainda nada melhor) mas, sobretudo, socialista. Continuo a preferir comprar o jornal e embora ainda não saiba exatamente o que quero para a minha vida (tantas são as possibilidades), sei que um dia quero morar num terreno e plantar batatas, e assim ter tempo para ler todos os livros do mundo e criar bebés.

Parece então que nos vamos divertir, não é verdade?

Mais coisinhas em www.semcostumes.blogspot.pt!

Até dia 5!