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Geografia das amizades, por Gonçalo Cadilhe [24]

Geografia das Amizades

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Um naco de pão e pouco mais

A frase saiu-me assim por inspiração óbvia enquanto esperava o meu visto para entrar no Afeganistão. Andava a passear pelas vielas de Peshawar, a última cidade do Paquistão antes da fronteira.



Aí, em Peshawar, há um consulado afegão e se tu responderes de uma forma vaga e inconclusiva às perguntas vagas e inconclusivas do cônsul sobre as razões que apresentas para querer entrar no Afeganistão e se lhe deslizares uma nota de 10 dólares junto com o formulário então ele declara solene que podes regressar no dia seguinte para retirar o teu visto e passaporte.



A frase resumia toda uma convicção que eu vinha assumindo desde há vários meses, nessa viagem que depois de atravessar a América desde Nova Iorque até ao Chile, prosseguindo a bordo de um cargueiro para a Oceânia e a bordo de um outro para a China, descendo então pelo Sudeste Asiático e subcontinente Indiano se encontrava nesse momento na cordilheira do Hindu Kush, formidável linha de fronteira entre dois não-países. Do lado oriental, o Paquistão; e do lado ocidental, o Afeganistão.



Antes de enunciar a minha frase deixa-me só explicar porque eu considero o Paquistão e o Afeganistão exemplos de não-países. Olha bem no mapa para o que está à volta do Afeganistão: a norte estendem-se as estepes da Ásia Central que serviram de limite à expansão da China; a oeste, os planaltos da Pérsia, que hoje chamamos de Irão; a leste, ficam as planícies generosas da Índia.

Todas estas civilizações, que são as mais antigas da Humanidade, se desinteressaram quando chegaram ao Afeganistão. Voltaram para trás. Essa cordilheira era intransponível e sobretudo era intransigente: não oferecia nada. O Afeganistão é o que sobrou da expansão dos impérios. "Cada vale habitado olha para fora das montanhas, cada estrada ou carreiro conduz para lá da fronteira", escrevo no Planisfério Pessoal. "Cada tribo identifica-se com uma etnia, uma língua e uma cultura extranacional: os Uzbeks e os Tajiks com as ex-repúblicas soviéticas, os Hazara com os Xiitas iranianos, os Pashtun com eles próprios. Este território estilhaçado é a negação da ideia de pátria (.)"

Já no caso do Paquistão, a coisa é mais recente: é uma criação artificial da descolonização. Quando os ingleses abandonaram a Índia, em 1947, os muçulmanos indianos decidiram exigir um país só para eles e para a sua religião. O resultado foi caótico: no dia em que as fronteiras entre o Paquistão e a Índia foram anunciadas, milhões de hindus apanharam o comboio para abandonar a cidade em que viviam no Paquistão e foram procurar uma nova cidade na Índia; e milhões de muçulmanos fizeram o percurso inverso. A razão de existir do Paquistão não está dentro das suas fronteiras: está fora. O Paquistão existe porque existe a Índia. A sua razão de ser é ser o oposto religioso do país ao lado.



Regresso agora a mim, e à frase. Foi por causa de um padeiro de Peshawar, e do seu sentido de humor. Eu andava a passear com turbante, shalwar kameez, barba comprida e pele bronzeada.



Seria difícil, imaginava eu, alguém perceber que eu era um ocidental. E geralmente passava mesmo despercebido. Mas o padeiro, Shah Abdel, percebeu.



Talvez pelo olhar ávido que deitei ao pão na montra não era bem pão, era semelhante, afinal estávamos longe do Mediterrâneo, que é a geografia a que ele pertence. Mas eu andava há muitos meses e muitos países longe de casa. Pão é o que me faz mais falta quando estou fora. A montra captou a minha saudade. Da porta da sua "bakery", escrita em inglês, Shah Abdel perguntou a minha nacionalidade.



Quando lhe disse, os seus olhos brilharam e chamou-me para dentro. Em tom conspiratório revelou-me uma sua convicção bastante herética para os dias que correm nesse fim de mundo que é Peshawar. Shah Abdel acreditava sinceramente que a Virgem Maria tinha escolhido aparecer em Fátima para unir cristãos e muçulmanos.



"Repara, Gonçalo, é tão óbvio: Fátima, a filha do Profeta, a mulher do imã Ali, o sucessor de Maomé, deu o nome em Portugal à localidade onde Maria, a mãe de Jesus, decidiu aparecer aos homens." Conversámos um pouco sobre o seu sonho de um dia ir em peregrinação a Fátima. Imaginei que seria detido no aeroporto por suspeita de terrorismo, e mesmo que conseguisse passar essa barreira de desconfiança e alarmismo, provavelmente não lhe seria autorizado rezar a Fátima, filha de Maomé, no santuário católico de Fátima tal como não é autorizado rezar a Maomé na mesquita cristianizada de Córdova.



A minha frase veio com outro tema. Tem a ver com muitas coisas, mas essencialmente tem a ver com o sentido de humor.



Expliquei ao Shah Abdel o que era a minha vida: viajar e escrever, ser pago para isso, um trabalho, uma carreira. Tal como tinha explicado ao taxista Salvatierra nas ruas de Trujillo, no Peru; ao marinheiro Mynt Oo no cargueiro da travessia do Pacífico; ao barman Guo Hua durante o jogo de ábaco em Yunnan; e ao estudante de jornalismo Tapas em Bombaim. Todos comentaram a minha profissão com uma gracinha, aliás, com a mesma gracinha: "E não precisas de um assistente?" Tinha chegado a Peshawar depois de muitos meses e muitos países longe do meu. A frase era uma convicção sobre os homens: "São mais as semelhanças que nos unem do que as diferenças que nos separam."

Precisamente uma reação tolerante e bem-humorada para com um estrangeiro com uma existência muito mais privilegiada que a nossa. Outras semelhanças: a curiosidade pelo que fica depois do horizonte, que é a razão de viajar; uma necessidade de identificação com uma cultura, um sistema de valores, que geralmente é a definição de pátria, mas nem sempre; uma religião que permita uma aspiração mais longa do que a escassa medida de tempo a que chamamos "vida" e que dê sentido à morte; uma família, uma continuidade, uma direção para os sentimentos de amor e pertença que existem em todos nós; paz, por fim, e um naco de pão ou semelhante, como aquele que estava exposto na montra de Shah Abdel em Peshawar.