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Geografia das amizades, por Gonçalo Cadilhe [23]

Geografia das Amizades

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A Libéria vista do mar

Em termos objetivos, o Hilário é um dos homens mais solitários do mundo. Um homem só e silencioso envolto na mais profunda e imensa solidão que este planeta permite, que é a navegação do Oceano Pacífico.



Conheci o Hilário a bordo do cargueiro Tasman Adventurer que navegava entre a Austrália e a China, passando pela Nova Zelândia, o Japão e a Coreia. Para trás e para a frente, o Tasman Adventurer demorava cerca de três meses a voltar ao ponto de partida. O contrato do Hilário, quando o conheci, era de nove meses, portanto ao longo do seu tempo ele tinha a possibilidade de regressar ao mesmo lugar umas três vezes e, eventualmente, na terceira vez socializar com uma pequena amizade que tivesse construído nas duas vezes anteriores.



A bordo do cargueiro, era ainda mais complicada a situação das relações humanas. A companhia contratava os seus trabalhadores em diferentes países, com diferentes idiomas e por vezes antagónicos hábitos alimentares, culturais e religiosos. A bordo, a desconfiança, se não mesmo o desprezo e a incomunicabilidade, eram o denominador comum de cada olhar trocado. Creio, aliás, que era essa a razão para a política contratual da companhia: sendo os embarcados tão diferentes entre si, nunca se organizariam num grupo coeso se algum dia quisessem reivindicar alguma coisa.



O inglês de cada tripulante era mínimo e limitado ao jargão marítimo e mecânico, pois um cargueiro não é mais que uma fábrica ambulante que já não embarca marinheiros mas sim emprega operários. Qualquer conversa que ambicionasse ultrapassar as meras indicações laborais era um exercício de frustrações e malentendidos.



Para completar este quadro de vazio de comunicabilidade, falta acrescentar que nesta fábrica flutuante cujo meio de produção é o mar e cujo produto final é a ancoragem e descarga dos contentores o número de trabalhadores está reduzido ao mínimo eficiente e indispensável, e que só há duas opções possíveis neste regime de ciclos de laboração: estar de turno no posto de trabalho, individual, claro; ou estar a dormir no camarote, também ele individual, claro.



O Hilário terá crescido a falar um dos dialetos que constituem o idioma de facto da população da Libéria, o seu país de origem. Falava inglês a bordo e português com a namorada brasileira.



Eu perguntava-me em que idioma pensaria o Hilário; e que tipo de pensamentos teria nos seus silêncios bíblicos e ausentes. Seriam pensamentos abstratos, de renúncia à realidade, essa forma de anulação do ser praticada por tantas correntes de meditação orientais? Não é por acaso que uma das mais conhecidas máximas filosóficas enuncia precisamente que "existo porque penso" tentaria o Hilário deixar de existir, apenas não pensar, enquanto permanecia em silêncio a olhar, ou talvez a não-olhar, o azul infinito do mar?



O Hilário riu, uma gargalhada alta e sonora quando lhe perguntei se tencionava regressar algum dia à Libéria. Regressar para quê? Tinha um irmão, sim, mas estava a viver há décadas nos Estados Unidos. Tinha namorada, sim, mas era brasileira. Já não tinha pais, não sabia se ainda tinha família nessa nação massacrada pela guerra, pela miséria e pela negação da misericórdia que é a Libéria.



Um dos piores países do mundo, Gonçalo. Depois de conhecer o Hilário, fui pesquisar sobre a Libéria.



As estatísticas confirmavam: um dos piores países do mundo. Diamantes de sangue, minas ativas, tensões étnicas, golpes de Estado, abusos de autoridade recorrentes, criminalidade gratuita, soldados-crianças toxicodependentes e armados e no desemprego desde os acordos de paz, carestias, racionamentos e água imprópria para consumo, infraestruturas derrocadas e estradas desfeitas depois de duas décadas de guerra civil.



Infelizmente há outros países como a Libéria em África, e quase todos possuem a mesma lista de ingredientes para conseguir a poção maldita que os transforma num caldeirão infernal. Condição sine qua non é um qualquer bem material, ou uma localização geográfica, ou uma matériaprima que torne o país apetecível à ganância de potências estrangeiras ou operadores particulares que sabem como agir por conta delas. Outro ingrediente essencial é a tensão étnica, e como quase todos os países modernos de África foram decididos que existiriam durante uma célebre conferência de Berlim, em 1885; e como as suas fronteiras foram traçadas por esses conferencistas sem se ter um mínimo de respeito ou conhecimento das culturas que as integravam, o resultado foi, com as décadas, catastrófico: "compatriotas" que não se conhecem, não falam a mesma língua, não têm a mesma religião ou cultura e sobretudo não têm qualquer interesse ou gosto em pertencer à mesma pátria. Por fim, o ingrediente mais atual é o da ignorância. Só a educação pode levar à democracia, e o povo de África, enquanto continuar a ser mantido na Idade Média pelos seus governantes, nunca há de saber caminhar na direção de um futuro melhor.



A Libéria que viu nascer o Hilário tinha no entanto um predomínio, um primado em relação ao resto do mundo. "Sabe, Gonçalo, o meu país é número um pelo menos numa coisa!" "Em quê, Hilário?" "Tem o primeiro lugar nas estatísticas mundiais como o país mais corrupto. Estamos no topo da lista, meu irmão." Regressar para quê?



Eu e o Hilário falávamos em português, enfim, uma espécie. Fora essa a razão da nossa aproximação, um outro operário da fábrica ambulante tinha assinalado o mecânico "brasileiro" ao viajante português. Oferecilhe um livro do Eça que viajava comigo, mas desconheço se ele alguma vez o terá conseguido ler. Tenho a morada dele e de vez em quando chega uma carta do Brasil, sinal que terminou mais um contrato e foi visitar a sua namorada.



A companhia manterá o seu operário a gozar férias, e depois renovará o contrato numa outra linha de navegação, talvez Mombaça Suez Roterdão; ou Los Angeles Valparaíso Cidade do Cabo; ou outra qualquer.



Quem sabe se um dia não lhe calhará uma linha de navegação que sobe o Atlântico e para por meia tarde, de três em três meses, em Monróvia, capital da Libéria. A bordo, um homem sem passado, um homem sem raízes, que encostado na amurada olha sem pensar, deixa por momentos de existir, uma renúncia da realidade que nem sempre precisa do azul-infinito do mar para acontecer.