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Geografia das amizades, por Gonçalo Cadilhe [22]

Geografia das Amizades

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Vende-se autocaravana

É janeiro e a mim parece-me que faz um frio tremendo. Na marginal da Figueira da Foz, apesar do sol e da luz, são poucos os que vão mantendo o hábito da caminhada matinal, fica para as outras estações do ano, não dezembro, não janeiro, os ossos, as constipações, os pés frios, os lábios gretados. E depois, é um dado adquirido que o sol e a luz e a marginal até ao Cabo Mondego estarão sempre lá; mas as dores no corpo é que só chegam com o inverno e retrocedem para longe com cada nova primavera, somos assim, somos portugueses, diz o spot que por cada dia de chuva temos dois de sol, deve ser o mesmo com as estações, por cada inverno temos três primaveras, já que o verão na Figueira da Foz nunca é quente, é apenas temperado e um professor da faculdade brincava quando eu lhe dizia que era da Figueira da Foz, ele lá parafraseava o que Mark Twain disse sobre San Francisco e ficava assim: "o pior inverno da minha vida foi o verão que eu passei na Figueira da Foz." É verdade, o melhor verão da minha cidade é de manhã cedo enquanto faz calor, porque chegando o meio-dia, infalível como a fome depois de um dia sem comer, levanta-se a nortada e o termómetro desce, desce.



Somos portugueses e somos temperados, o grande arrojo, a excentricidade à vista, o individualismo declarado pertencem a outras latitudes, por cá desde há séculos cultiva-se e impõe-se o conformismo, a prudência, a opinião consensual, o posto de trabalho seguro se possível no funcionalismo público, enfim, deve ser pela temperatura, também ela temperada, tépida, sem grandes flutuações diurnas ou anuais, nada nem de perto nem de longe parecido com a meseta ibérica, com o centro da Europa ou com as ilhas britânicas, nem mesmo Itália se com para. Por isso a perplexidade dos que, nestes dias de janeiro caminhando ao sol e à luz, mas também ao frio, pela marginal da Figueira da Foz em direção ao Cabo Mondego, repararam na autocaravana aparcada junto ao mar, virada a sul, aberta ao vento e ao som das ondas. Seria coisa de ciganada, se os ciganos ainda fossem nómadas e livres, também isso já passou. São holandeses, um casal jovem e polido, lourinhos, tisnados. Em viagem. Aproximo-me, meto conversa com o Jord e a Femke.



À falta de melhor em que acreditar, acredito no karma. Talvez não seja bem na mesma aceção que a palavra tem no Hinduísmo, certamente não estendo o conceito ao ponto de pensar que reincarnarei após esta vida, e que aquilo que ando a fazer por cá agora irá predeterminar aquilo que serei depois.



Mas gosto de pensar que uma boa ação será recompensada com outra boa ação, e vice-versa a maldade feita será paga com maldade sofrida. Diz o povo "faz o bem sem olhar a quem", ou seja, de uma forma desinteressada, e quem viaja por conta própria sabe que os caminhos do mundo são imensos, e mínimas as possibilidades de reencontro e retribuição.



Tenho ajudado, e tenho sido ajudado. Os interlocutores da ajuda não coincidem tem sido um triângulo aleatório de vibrações positivas. A única certeza, para mim que acredito nesse tipo de karma, é que fui ajudado porque também ajudei e as linhas com que se define o triângulo vão sempre parar a vértices diferentes. As linhas são o karma.



Em valores absolutos, será maior a soma das vezes que ajudei, ou a das vezes que fui ajudado? A equação não equivale ao tempo em viagem versus o tempo em casa, ou seja, não é preciso eu estar em casa para ajudar nem em viagem para ser ajudado.



É independente da minha posição no cosmos. Acredito que fui mais vezes ajudado e que a balança é desfavorável para mim. Pesa mais para o meu lado. Estou em dívida para com o resto das possibilidades infinitas da trigonometria universal da ajuda.



Jord e Femke trabalham numa colónia de férias para holandeses na Aquitânia e aqueles 1 200 km que separam as praias de Haia das praias de Biarritz são suficientes para mudar o clima, a temperatura da água do mar e a perceção dos seus compatriotas de um novo espaço, um lugar de férias. Começam na Páscoa, e terminam em meados de outubro. Viajam, no resto do ano.



Estão a descer para o sul, mas não lhes basta. Pensam ir mais longe. Por agora, a marginal da Figueira da Foz dá-lhes o sol e a luz. Fazem surf e as ondas do Cabo Mondego têm estado à altura da fama que gozam pelo resto da Europa. Depois de ficarmos amigos, começo a tornar-me naturalmente uma fonte de aconchego e sugestões agradáveis para adoçar os rigores de um clima suave numa autocaravana aberta ao inverno.



Levo-os a Montemor-o-Velho, sugiro que regressem pela linha de comboio. Deixo-lhes um tinto português para o jantar, dos baratos e bons que lá no norte não existem. Como não existem menus do dia a seis euros na tasca que lhes indico atrás da marginal.



Arranjo-lhes um sim card português, faço-lhes um carregamento mínimo, sugiro: se tiverem uma emergência e ninguém falar inglês, liguem para mim, eu traduzo por telefone. E a lista continua.



"Thank you, obrigado, Gonzalo!" Penso no australiano que me emprestou o dinheiro para a conta do hotel de Lorne quando o meu cartão não funcionou. Penso também no indiano que me recuperou o computador, de graça, em Cochim, quando o sistema crashou; e no namibiano companheiro de assento do autocarro que às duas da manhã em Oshivambo fez um desvio e me mostrou onde ficava o meu hotel antes de ir para casa; de nenhum deles recordo sequer o nome, e a lista continua. "Thank you, people." Por fim, Jord e Femke decidem partir para lá do sul. Encontram um bilhete barato de Lisboa para o Sri Lanka, e aproveitam. Tentam vender a autocaravana, antes de deixar a Europa e pedem-me dicas para divulgar a venda. "Vendê-la em Portugal, a portugueses?", pergunto, perplexo.



Não me parece o país, nem o povo mais indicado.



Mas não custa tentar, claro. "Seria uma grande ajuda, Gonzalo!" Ponho um anúncio na minha lista de mails, nas mensagens dos supermercados, nos classificados de alguns jornais da região, e sobretudo no meu facebook, que é frequentado por gente que gosta das coisas da viagem. Eu ajudo, mas suspeito que a balança continuará desfavorável para mim, e que continuarei em dívida para com o resto das possibilidades infinitas da trigonometria universal da ajuda.