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Geografia das amizades, por Gonçalo Cadilhe [21]

Geografia das Amizades

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Guimarães, uma 'memoir'

Havia um rio que tinha cheiro a rio, e que não era um cheiro atraente para quem está habituado a mergulhar no mar e a comer com o olfacto o sal da maresia na atmosfera. Ainda hoje me causa estranheza o cheiro de humidade e terra molhada e folhas a apodrecer dos rios mesmo quando são bonitos e sombreados e limpos. Este rio era perto de Guimarães, e a minha memória acha que tudo isto durou uma meia semana de início de verão.



A água era pouco profunda, podia-se-lhe aplicar essa característica que na minha infância tanto me confundiu e iludiu a compreensão, que era a palavra "vau". Demorei anos a perceber o que tinha que ter um rio para ser atravessado a vau, porque o rio da minha cidade era denso, largo e escuro e navegável por enormes navios, nada ali permitia que a minha imaginação desse o salto e visualizasse um leito de pedras brancas, uma outra margem que se alcança com dez ou vinte passos, uma corrente que chapinha na anca como ondas a lamber cascos de veleiros, uma transparência líquida.



Sei que o rio passava perto de Guimarães e era estreito, um desses rios do Minho que convida à frescura e a um sentimento de identificação atávica com os rojões e a Reconquista Cristã e as lendas encantadas dos bosques do norte. Fomos tomar banho numa praia sem areia nem cheiro a maresia, uma praia fluvial.



Não recordo se aquela água era... limpa.



O mar é demasiado grande para ser limpo ou para estar sujo, demasiado grande para se ver apenas com o olhar. Os rios, pelo contrário, não calam os abusos dos que habitam as suas margens. Seria aceitável a qualidade daquela água para os critérios modernos de balneação? Provavelmente não o recordo porque ainda não dávamos atenção a esses critérios. Não possuíamos o conceito de preservação do território.



Também não recordo se Guimarães estava suja ou degradada, esquecida pelo progresso, como aconteceu em tantas outras cidades portuguesas; ou se já havia uma consciência, um orgulho, uma vontade de a manter linda, o testemunho vivo dos seus séculos, dos seus símbolos e dos seus mitos. Será que as casas do centro ainda tinham viúvas à janela e estendais nas varandas? Será que ainda se comprava em mercearias desarrumadas de uma abundância modesta, que as compras se embrulhavam em papel tosco e pardo com as contas apontadas a lápis no verso interior? Será que as tascas eram frequentadas a meio da manhã por funcionários de escritório na pausa para um café e um bagaço, e que uma porta semiaberta em algumas vielas era um sinal discreto para alguns cavalheiros que certa menina estava disponível para os receber? Será que os carros ainda se passeavam arcaicamente pelo centro e atravessavam impunemente arcos fundadores de uma ideia de nação e estacionavam desordenados à porta da Sé? Será que Guimarães era ainda uma cidade antiga? Ou já possuía essa qualidade da modernidade que é a preservação do território?



A minha primeira visita a Guimarães
foi há muito tempo para o tempo que já dura a minha vida. Por isso, tudo é farrapos de memória. E nesta novidade absoluta para um figueirense que era uma praia fluvial, os bosques do Minho e uma cidade antiga com pedras que contavam a própria História da Nação, havia também esta novidade de ser hóspede em casa de amigos, assim pelo prazer da partilha, de dar um significado mais excitante às férias do verão.



Guimarães era diferente. A minha amiga Maria e as suas irmãs eram também diferentes das amigas da Figueira, tinham uma solenidade e um recato e um sentido de hospitalidade que eram, tal como a cidade de Guimarães, antigos. Para mim, que pouco mais conhecia do que a vitalidade desordenada das amizades figueirenses, esta qualidade esfíngica de ser amiga era um prolongamento natural de ser natural de Guimarães. Perpassava em tudo, também nas relações sociais, uma hierarquia, uma rigidez de afetuosidade, que um figueirense estranhava, como estranharia o cheiro de água de rio. Talvez porque a Figueira era uma cidade nova, uma cidade com cem anos, um novo mundo onde todos os que a habitavam tinham imigrado recentemente, há não mais de três gerações, de algum outro lugar, o que permitia uma cidade aberta, uma facilidade de transmigração social nas amizades, um portfolio de amigos transversal a todas as classes.



Ser de Guimarães era diferente. Não recordo se durante a minha primeira vez em Guimarães a cidade já tinha feito a transição de antiga para histórica.



Mas transição em Guimarães significou continuidade, pois o caráter natural dos seus habitantes é uma âncora que mantém a cidade protegida contra as correntes dos tempos. Quando muitos anos depois regressei a Guimarães, encontrei a mesma cidade antiga. Mas agora, moderna.



A minha amiga Maria
deixou há duas décadas a cidade. Foi viver para Itália, país do seu marido que tinha conhecido em viagem por Inglaterra, e desde Itália, através da sua posição de gestora de marketing numa empresa italiana virada para o mercado internacional, tem viajado por muitos países. Para lá de enfadonhas reuniões e longos voos intercontinentais, da solidão de hotéis e aeroportos, quando pode vai tendo a oportunidade de visitar cidades também elas antigas e solenes e Património da Humanidade, como o é a sua cidade natal.



A nossa amizade continuou pela vida fora e vamo-nos encontrando com regularidade mas não em Guimarães. Curioso, ou talvez não: apropriado, isso sim, para dois amigos que fizeram do mundo o seu local de trabalho. Por vezes ponho-me a imaginar o que pensará a Maria dessas fabulosas cidades Património da Humanidade que vai visitando. Com que olhar as olha, com que pasmo as visita? Certamente com pasmo moderado, com olhar sóbrio, um sorriso esfíngico e recatado que é o prolongamento natural de ser natural de tantos séculos, tantos símbolos, tantos mitos numa mesma cidade.