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Geografia das Amizades, por Gonçalo Cadilhe [10]

Geografia das Amizades

Uma portuguesa em Malaca

"Cuidado, são portuguesas", diz-me o Vasco em surdina. O Vasco é operador de câmara. Andamos juntos pela Ásia a filmar um documentário para a RTP2 sobre Fernão Mendes Pinto. É, pois, um colega de trabalho. Mas a vida em comum entre pensões bafientas e autocarros desengonçados, as dificuldades do projecto multimédia que quando resolves uma nascem logo outras duas, os problemas habituais de quem viaja por conta própria ainda por cima há pouco dinheiro, somos só os dois, nem produtor nem sonoplasta nem intérprete, temos que ser nós a fazer tudo somando também as sinergias e o sentido de humor de quem olha para o mundo a partir da mesma perspectiva cultural ("achas normal aqueles tipos a comer lulas fritas e malaguetas ao pequeno-almoço?"), e assim as semanas passam e o colega de trabalho passa também a ser confidente e amigo. E cúmplice.

Por isso, basta a voz em surdina e um certo tipo de expressão de cautela. "São portuguesas ", diz. Cuidado com o que dizes, que palavras usas, que comentários fazes. Estão na mesa ao lado da pequena esplanada improvisada na ruazita que passa pela mesquita muçulmana que tem paredes-meias com o templo hindu e com o pagode budista. A ruazita chama-se "da harmonia" e nestes poucos metros explica-se Malaca, a velha princesa dos mares, uma pré-singapura antes dos Ingleses chegarem ao Sudeste Asiático.

Em Malaca atracavam milhares de navios, comerciava-se em dezenas de idiomas, o porto era uma porta, daquelas abertas de par em par, para a passagem de mercadorias entre o Extremo-Oriente e as várias Índias, uma passagem entre o Pacifico e o Índico. A porta estava aberta, mas os portugueses preferiram arrombar com a parede. Em 1511 Afonso de Albuquerque conquistava Malaca, um feito de armas extraordinário mas de uma crueldade pragmática que deixaria os portugueses com uma reputação duradoura na Ásia. A conquista de Malaca seguia uma lógica, um desígnio, uma quimera: criar bases em terra para um império no mar. O Império marítimo português durou um século. A Malaca portuguesa um pouco mais, século e meio.

Uma delas está ao telefone, percebe-se que não voltará tão cedo a Portugal, dá indicações para que alguém da banda de lá do mar trate de certos assuntos que não podem ser resolvidos desde o estrangeiro. Meto conversa antes que inicie outro telefonema. É melhor que saiba que os dois tipos da mesa ao lado também são portugueses, para saber gerir as coisas que diz, as palavras que usa, os comentários que faz. Apresentamo-nos, elas também se apresentam: a Cátia, que está a viver em Malaca; e a amiga Andreia que veio ter com ela de férias. A conversa naturalmente recai sobre o tema mais interessante: o que está uma portuguesa a fazer em Malaca? A tentar salvar o pouco que resta de Portugal, três séculos e meio depois: a língua.

Em Malaca, cruzamento de povos dos mares, uma pequena comunidade católica resiste à uniformização religiosa e cultural imposta pela maioria muçulmana que governa a Malásia. Dizem-se portugueses e comovem os outros portugueses que por lá passam. Somos mais genuínos nós, ou eles? Ambos. "O dialecto que aqui se fala está a desaparecer", explica a Cátia, "diluído no Malaio, no Inglês, na emigração, na televisão". A comunidade é pequena e pobre, 3 000 pescadores, iletrados, alguns analfabetos. Portugal, Goa, Macau, os pontos de referência dos séculos passados, diluem-se nos enredos da História. O que significa nascer e crescer tendo como pontos de referência quimeras geográfica que estão a milhares de quilómetros de distância, ou que entretanto também se diluíram em outros enredos de outras Histórias? É estranho, surreal mesmo. Mas estes descendentes dos homens que com Afonso de Albuquerque conquistaram Malaca não conhecem outra realidade.

A Cátia é bolseira do Instituto Camões e porta-estandarte de uma generosidade desinteressada e heróica que vai desaparecendo do sangue português tal como a língua desaparece de Malaca, de Goa, de Macau. Vive de uma forma despretensiosa, com uma família humilde no bairro dos pescadores, dá aulas a miúdos e graúdos, ensina o seu português, que é o nosso, e aprende o português deles, que é também o nosso mas de há uns séculos atrás.

Nunca há dinheiro nem vontade política nem sensibilidade ou bom senso para manter viva a comunidade de portugueses de Malaca. Os nossos compatriotas surreais continuam esquecidos, desinformados, vivendo de quimeras. Apenas um deles, entre os três mil, visitou Portugal: o porta-voz, Noel Félix. Trouxe notícias de um país moderno, lindo, frio. Um dia a bolsa acaba, a experiência termina, a Cátia regressará a esse ponto de referência a milhares de quilómetros de distância, a esse Portugal europeu, arrivista, presunçoso que esquece ou desdenha o seu património imaterial pobre e iletrado, a sua família alargada, o seu passado que poderia ser também uma forma de futuro. Eu continuarei a ocupar-me de projectos e biografias que vangloriam glórias pátrias passadas, tropeçando de vez em quando com glorias pátrias presentes que definham sem futuro.