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Atrás do Mundo [38]

Atrás do Mundo

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Varanasi

Um cheiro quente, castanho. Não há sons, nem formas, nem gente. Só pedaços de fogo em círculos escuros. E o ar. Que nos cai aos pés, entregue à gravidade. Na pele sobram-nos cinzas. Só uns largos minutos depois (ou horas, ou dias. tempo) se desdobram os contornos. Afinal é o Ganges. E à nossa volta uma multidão. Chegam pessoas, em fila, a partilharem um peso. Sinos e rezas e mais pessoas. Em fila. Até às fogueiras. São corpos. Queimados. Inteiros, em partes, em público. Nunca vimos nada tão nu.

Varanasi é onde a Índia inteira acontece. Os documentários, os livros, as histórias não nos preparam para este lugar. Tudo se passa ao mesmo tempo. Queimam-se corpos sem (o nosso) pudor, no mesmo Ganges em que se toma banho, se reza, se oferece cabelo acabado de rapar, de mulheres e crianças e velhos. Onde se lava roupa e búfalos... onde há lixo e lixo e mais lixo que serve para tudo: fazer casas, comer, vender. Onde há cores e sabores e música e as maravilhas das mil e uma noites. Onde há uma espiritualidade sem fim.

E nós... nós demoramos a voltar a nós. E a perceber que passámos a ser outra coisa qualquer.