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"Eu tive um ataque cardíaco." Como é sofrer um enfarte, contado na primeira pessoa

VISÃO Saúde

Jose Carlos Carvalho

Todos os anos, 2 500 homens morrem de enfarte. Rafael Teixeira, 54 anos, sobreviveu a um, mas tem de usar um triplo bypass. Doenças cardiovasculares afetam, os homens dez anos mais cedo do que as mulheres

Cristina Bernardo Silva

Tal como a maioria das pessoas, Rafael Teixeira estava convencido de que um ataque cardíaco só acontece aos outros. Tinha acabado de jantar quando sentiu um mal-estar abdominal, que teimava em não passar. Decidiu deitar-se, por alguns instantes, na cama do seu quarto, mas seguiu-se uma sensação de peso no peito, embora sem dor, que ele atribuiu a um ataque de ansiedade. “Era como se tivesse uma barra de ferro no peito, com gente sentada lá em cima”, descreve este especialista em segurança informática, de 54 anos. Foi entre o momento em que a mulher ligou para o 112 e o da chegada da ambulância, poucos minutos depois, que teve “uma sensação de antecâmara da morte, de corpo a apagar-se”. Aí apercebeu-se de que algo de muito grave estava a passar-se.

A pronta intervenção do INEM permitiu que Rafael sobrevivesse ao enfarte do miocárdio que o atingiu em outubro de 2018 – ano para o qual não existem ainda dados disponíveis sobre o número de homens que terão morrido na sequência deste problema. Mas os últimos dados, referentes ao ano anterior, 2017, fixam em 2 625 o número de mortes do sexo masculino por enfarte do miocárdio. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), os óbitos de mulheres resultantes desta causa foram, no mesmo ano, 1 917.

Mas a ideia de que as doenças cardiovasculares atingem principalmente o homem “é uma meia-verdade”, garante o presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia, João Morais. E explica: “Quando dizemos que as principais causas de morte são as doenças do aparelho circulatório, é porque está tudo muito concentrado nas doenças da arteriosclerose, em que se incluem o enfarte do miocárdio, parte dos acidentes vasculares cerebrais (AVC) e alguns casos de morte súbita. O que podemos dizer em relação ao homem é que estas doenças afetam-no mais cedo na vida.”

E é esta circunstância que, na opinião do médico cardiologista, leva à perceção de que são os homens os mais afetados. “Aquilo que vemos é que, das pessoas na vida ativa, de média idade, de facto as que são mais afetadas são indiscutivelmente os homens. Os homens têm estas doenças cerca de dez anos antes das mulheres, porque estas têm um fator de proteção de natureza hormonal”, sendo mais afetadas depois da menopausa. No entanto, realça João Morais, que é também diretor do Serviço de Cardiologia do Centro Hospitalar de Leiria, “quando a mulher é afetada, a partir dos 60 anos, habitualmente tem uma manifestação da doença que é ainda mais grave do que a do homem”. Por isso, acrescenta, “quando olhamos em bruto para o valor de morte nas mulheres, vemos que elas morrem mais, até, do que os homens”. Os dados do INE mostram, aliás, isso mesmo em relação ao AVC, que matou 4 910 homens e 6 360 mulheres, em 2017. “A ideia que temos de que os homens são mais afetados resulta do facto de serem mais visíveis, no sentido em que estamos muito mais atentos a um caso de um homem de 50 anos que morreu subitamente do que ao de uma senhora de 70 anos que morreu com a mesma doença”, explica.

No homem, a doença cardiovascular continua a ser a que mais mata, embora cada vez menos, uma vez que, “nos últimos 20 anos, a mortalidade por doenças do aparelho circulatório foi sendo reduzida, fundamentalmente através da capacidade de o próprio Serviço Nacional de Saúde e de a cardiologia portuguesa tratar muito bem estas situações”. Rafael Teixeira é um desses casos de sucesso. Foi transportado do Cartaxo, onde vive, para o Hospital de Santa Marta, em Lisboa. Depois dos tratamentos no próprio dia, na ambulância e no hospital, “a situação ficou estabilizada, mas continuava a ter o problema”. No entanto, não o podiam mandar para casa. “Eu podia morrer no caminho”, lembra. Esteve internado, durante uma semana, à espera da marcação de uma cirurgia, que viria a ser realizada por um jovem cirurgião suíço. “Coseu-me três veias no coração, que foi buscar às artérias mamárias, fechou e ficou tudo a trabalhar como estava. Fui operado a uma terça-feira e, no sábado seguinte, vim para casa. Como a intervenção foi muito rápida – desde o incidente até ao momento em que fui medicado e entrei no hospital, não passaram nem quatro horas –, não tive sequelas no músculo cardíaco, o que é muito bom.”

Reconhece que antes do enfarte “todo o quadro de risco apontava” para o que sucedeu. Fumava desde os 14 anos, tinha hipertensão, os níveis de colesterol eram elevados, não fazia exercício físico. Além disso, há 30 anos que trabalhava em Lisboa e vivia no Cartaxo. “Levantava-me às seis da manhã e trabalhava muitas horas, conduzia 90 quilómetros para cada lado, e isto desgasta muito.”

Quando falamos de doença cardiovascular, a maioria dos casos refere-se ao enfarte do miocárdio e ao AVC. Mas o presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia alerta para outra frente imediata de grande peso: a insuficiência cardíaca. “Neste momento, há muitos mais doentes nos hospitais com insuficiência cardíaca do que com enfarte do miocárdio, e o número de pessoas que morrem em Portugal por insuficiência cardíaca é maior do que o número das que morrem por enfarte do miocárdio”, diz, acrescentando que esta situação se deve ao facto de vivermos mais tempo. Os fatores de risco são semelhantes aos das doenças cardiovasculares, ou seja: “tabagismo, sedentarismo, má alimentação. Tudo o que, de alguma forma, reduz a eficiência do nosso coração pode vir a traduzir-se em insuficiência cardíaca”.

Ainda é cedo para dizer até que ponto, mas a vida de Rafael Teixeira mudou. “Estou de baixa, tenho de ter mais cuidado, acalmar-me, dormir mais, não stressar. Uma coisa é eu ser um paciente de uma cirurgia cardiotorácica – que serei durante mais alguns meses, porque fui operado –, outra coisa é ser, e sou, para o resto da vida, um doente cardíaco. Tenho um triplo bypass, e o médico até me disse que a minha cirurgia é das intervenções mais violentas feitas a um ser humano sem o matar.”

Como reduzir o risco


Fazer exercício
Uns 30 minutos de atividade física, cinco dias por semana, diminui o risco de vir a ter doença cardiovascular.

Controlar a tensão
Para evitar a pressão arterial alta, deve reduzir-se o consumo de sal.

Parar de fumar
O tabaco contribui para o endurecimento das artérias e para a formação de coágulos.

Diminuir o stresse
Ao causar uma redução do fluxo sanguíneo para o coração e arritmias (batimento cardíaco irregular), o stresse aumenta a probabilidade de formação de coágulos no sangue.

Perder peso
O Índice de Massa Corporal (IMC) deve ter um valor abaixo de 25. Para calcular o seu, vá a www.plataformacontraaobesidade.dgs.pt.

Reduzir o açúcar
O açúcar no sangue favorece o aparecimento da diabetes, que é um fator de risco.