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Mais de metade dos ensaios clínicos publicados em revistas científicas de referência apresentam conclusões exageradas, diz um estudo

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Um grupo de investigadores identificou um fenómeno conhecido como “spin” - o exagero da importância clínica de um tratamento específico sem ter estatísticas onde se apoiar – em mais de metade dos resumos de ensaios clínicos das áreas de psicologia e psiquiatria publicados na plataforma PubMed

Pedro Dias

Pedro Dias

Jornalista

Os ensaios clínicos controlados são vistos como uma referência para quem procura provas no campo da psicologia e psiquiatria. Embora os investigadores devam expor as suas descobertas de forma explicita e objetiva, a prática mostra que alguma subjetividade pode sempre ser aplicada na interpretação dos resultados.

No resumo, a parte introdutória do documento e que serve para sumarizar todo o estudo realizado, os investigadores podem ser seletivos nas informações que escolhem dar destaque, o que leva a uma má representação ou a um “spin” dos resultados.

Os autores definem o spin como “o uso de estratégias de descrição específicas, por qualquer motivo, para destacar que o tratamento experimental é benéfico, apesar de existir uma diferença estatisticamente não significativa para o resultado principal; ou para distrair o leitor de resultados estatisticamente não significativos”.

Esta descoberta levanta preocupações acerca do potencial impacto deste fenómeno na escolha de tratamentos psiquiátricos, visto que o resumo de um estudo é, só por si, capaz de influenciar e mudar a opinião de médicos e especialistas, alegam os autores.

No estudo, publicado na revista científica BMJ Evidence Based Medicine, escrevem que “as pessoas que escrevem os manuscritos de ensaios clínicos sabem que têm um limite no espaço e no tempo em que conseguem capturar a atenção do leitor. Os resultados positivos são mais prováveis de ser publicados, e muitos autores recorrem a técnicas questionáveis de relato para embelezar os seus resultados”.

Para confirmar o quão comum é o spin nos resumos de ensaios clínicos, os investigadores pesquisaram e plataforma PubMed por ensaios controlados sobre tratamentos psiquiátricos e comportamentais, publicados entre 2012 e 2017 em seis revistas científicas de renome: JAMA Psychiatry, American Journal of Psychiatry, Journal of Child Psychology and Psychiatry, Psychological Medicine, British Journal of Psychiatry e Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry.

Foram revistos apenas os ensaios em que os resultados principais não eram estatisticamente significativos. Dos 116 ensaios que cumpriam o critério, foram encontrados indícios de spin nos resumos de 65,5%. Esta percentagem inclui spins de títulos (2%), da secção de resultados (21%) e da secção de conclusão (49%). Em 17 ensaios (15%), o spin estava presente nas secções de resultados e na conclusão em simultâneo.

A presença de spin era mais comum em ensaios que comparavam a eficácia de um determinado medicamento ou tratamento com um placebo. O facto de um estudo poder ser financiado pela indústria não revelou ter um impacto na probabilidade do spinning dos resultados: apenas 10 de 65 ensaios em que o spin era evidente eram, de algum modo, financiados por uma entidade industrial.

Os autores do estudo alegam que, apesar de terem usado critérios objetivos para a definição de spin, as suas conclusões são inevitavelmente subjetivas, e podem não ser aplicáveis aos ensaios clínicos publicados em todas as revistas científicas de psicologia e psiquiatria existentes.

Ainda assim, reforçam que “os investigadores têm uma obrigação ética de descrever os resultados das suas investigações de forma honesta e clara. Fazer spin ao resumo de um artigo pode induzir em erro médicos que estejam a tentar tirar conclusões sobre tratamentos para pacientes. A maioria dos médicos costuma ler apenas o resumo do estudo, em grande parte das vezes”.

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