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Grandes desenvolvimentos no combate à leucemia podem levar à criação de tratamentos inovadores

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KATERYNA KON/SCIENCE PHOTO LIBRA

Foi descoberto um processo molecular envolvido na ação de certos tipos de medicamentos anti-leucemia que abre novos caminhos ao desenvolvimento de tratamentos para a doença

Pedro Dias

Pedro Dias

Jornalista

Um estudo levado a cabo pelo Institute for Research in Immunology and Cancer (IRIC), na Universidade de Montreal, no Canadá, focou-se no tipo mais comum de leucemia em adultos, a leucemia mieloide aguda (LMA).

Trata-se de uma forma de cancro que afeta o sangue – mais propriamente, os glóbulos brancos - e que se caracteriza por uma rápida proliferação de células anormais malignas que não desempenham as suas funções originais e se podem acumular na medula óssea, impedindo a produção normal de outras células sanguíneas. Este é o tipo mais mortal de leucemia no mundo e, em pessoas com um determinado perfil genético, mesmo após quimioterapia e transplantes de medula, pode reduzir a esperança de vida para menos de 3 anos.

Antes de conceberem estas novas oportunidades de criar tratamentos contra a leucemia, principal investigador Guy Sauvageau e a sua equipa tiveram de isolar a informação genética relativa à LMA. Em conjunto com o Quebec Leukemia Cell Bank, conseguiram sequenciar os perfis genéticos de quase 700 pacientes oncológicos com este tipo de leucemia, retiraram algumas células para cultivo in vitro e testaram o efeito de aproximadamente 5 mil medicamentos nas células de cada paciente.

É importante perceber que tanto a leucemia mieloide como a leucemia linfoide são combinações de cerca de 20 doenças genéticas diferentes”, explica Sauvageau. “O que chamamos de “leucemia” é na verdade o grupo de sintomas causados por estas doenças. Portanto, tivemos de testar 5 mil medicamentos em vários subgéneros de LMA, de modo a conseguir associar cada efeito aos genes específicos que afeta”.

Os medicamentos testados eram representativos da vasta gama de fármacos usada no tratamento de doenças humanas e não propriamente destinados ao tratamento de leucemia. Os efeitos foram testados tanto em células de ratos portadores do gene de LMA como em células humanas. Através deste ensaio, os investigadores ficaram a perceber que tipos de medicamentos afetam cada subtipo de LMA, e o porquê de o fazerem.

Um fármaco que revelou promessas foi o Mubritinib, um inibidor de proteínas quinase desenvolvido originalmente para o tratamento de cancro da mama. “Observámos que o Mubritinib tem um efeito terapêutico em certos subtipos de LMA para os quais não existem muitos tratamentos eficazes”, explicou Sauvageau, acrescentando que o fármaco não revelou qualquer toxicidade em ratos e muito pouca em células humanas.

Os investigadores descobriram ainda que o Mubritinib tinha a capacidade de matar células cancerígenas de um determinado subtipo de LMA, ao parar a oxigenação dessas células. Esta descoberta veio contrariar o que é conhecido na bioquímica como o efeito Warburg, que defende que as células de cancro produzem a sua energia ao decompor glucose, sem precisarem de oxigénio para sobreviver. Este é, inclusive, um princípio vastamente aceite na comunidade oncológica.

Sauvageau acredita que um novo tratamento baseado no Mubritinib possa advir do seu estudo e entrar no mercado dentro de dois ou três anos.