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Envelhecer é diferente para homens e mulheres. Porquê?

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Kathleen Finlay/Getty Images

Elas vivem mais anos, mas têm menos tempo de vida saudável. Depois dos 65 anos, por exemplo, as mulheres têm, em média, 6,3 anos de vida saudável e os homens 7,7. E esta desigualdade nos últimos anos de vida entre o sexo feminino e masculino representa um dos problemas de género mais graves no País, diz o médico Luís Campos

Os homens vivem menos do que as mulheres, já se sabe. Em 2017, em Portugal, a esperança de vida delas era de 83,4 anos e a dos homens de 77,8, o que representa uma diferença de 5,6 anos.

"Nós sabemos que os homens bebem mais álcool, fumam mais e têm mais sobrecarga de peso, ou obesidade, do que as mulheres", explica Luís Campos, Coordenador de Medicina Interna na Clínica CUF Belém.

O especialista, que vai participar na conferência "Nascer Mais, Envelhecer Melhor", realizada esta terça-feira, 25, esclarece ainda que os homens estão mais expostos a ambientes de risco no local de trabalho e são mais suscetíveis a morte por causas externas, como acidentes, suicídio ou homicídio. E "do ponto de vista biológico, o cromossoma X que a mulher tem a mais dá-lhe uma protecção adicional contra mutações", explica Luís Campos.

Também relativamente à distribuição de gordura a diferença entre géneros é grande, sendo que a distribuição no homem é mais visceral. Já nas mulheres é maioritariamente subcutânea, o que se torna menos perigoso para a saúde.

As características hormonais são, também, mais favoráveis ao sexo feminino até à menopausa, principalmente através dos efeitos protetores dos estrogénios. Pelo contrário, a testosterona no homem é associada a vários efeitos nocivos para a saúde, afirma o médico. As próprias mulheres, diz, têm tendência a cuidar mais do seu corpo, o que pode ter impacto nos resultados relacionados com a esperança de vida no País.

Luís Campos fala, ainda, da possibilidade de que alguns avanços da medicina, como os antibióticos, por exemplo, possam ter beneficiado as mulheres.

Ainda assim, e apesar de elas viverem mais, têm menos anos de vida saudável. Já depois dos 65 anos, elas têm, em média, apenas 6,3 anos de vida saudável e eles 7,7. Esta diferença vai variando de acordo com vários fatores - o grau de escolaridade e a região onde se vive são exemplos - que têm, naturalmente, impacto na qualidade de vida das pessoas.

Na Suécia, por exemplo, as pessoas têm quase o triplo dos anos de vida saudável depois dos 65 anos do que as que vivem em Portugal.
Também relativamente à esperança de vida a diferença de géneros é variável entre países - na Rússia é de cerca de 10 anos e na Índia é inferior a um ano, por exemplo - e, mesmo dentro de Portugal, os resultados são variáveis. Nas regiões autónomas da Madeira e Açores esta diferença é superior a sete anos.

Um problema social complexo

De acordo com Luís Campos, esta desigualdade nos últimos anos de vida entre o sexo feminino e masculino representa um dos problemas mais graves de género no País. "Porque as mulheres, além de viverem mais anos do que os homens, estão casadas mais frequentemente com homens mais velhos e auferem pensões inferiores às deles em cerca de 30% ", explica. Isto significa que os homens têm maior probabilidade de terem quem cuide deles no fim da vida - 70% dos cuidadores informais são mulheres -, enquanto grande parte delas fica sozinha, sem qualquer apoio.

"O reconhecimento do Estatuto do Cuidador Informal e a sua remuneração é uma das medidas que poderia ajudar a reduzir esta iniquidade", defende o especialista.

No fim do mês passado, o governo aceitou criar o Estatuto do Cuidador Informal, que estabelece os direitos e deveres das pessoas que cuidam de familiares dependentes, sejam eles idosos, pessoas com demência ou doenças crónicas ou crianças com patologias graves.

O PS, o Bloco de Esquerda e o PCP chegaram a um acordo que resultou num texto de substituição que prevê a criação deste estatuto, o qual não estava contemplado na proposta de lei do Governo. Este estatuto pode, nos próximos meses, ser revisto e alterado.

Envelhecer com qualidade é um sonho por concretizar

Falta planeamento nas políticas de saúde e do modelo de cuidados para tratar dos idosos, particularmente os mais frágeis, que leva à adoção de medidas tardias e mais custosas, defende Luís Campos. "Os nossos idosos continuam a ser tratados de uma forma reativa, baseada nos episódios agudos, através das urgências, e centrada nas doenças e não nos doentes", refere.

Na opinião do especialista, envelhecer com qualidade vai depender da evolução socioeconómica do País e da conjugação das políticas de todos os ministérios e das autarquias tanto na promoção da saúde como na prevenção da doença. Um sonho ainda longe de ser concretizado.

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