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Afinal, há um limite para a velocidade do metabolismo e serve para evitar que o corpo se autodestrua

VISÃO Saúde

Há quem pense que o cansaço é apenas mental e que um pequeno esforço extra pode fazer toda a diferença. Mas um estudo sobre o metabolismo em atletas de desportos de resistência vem provar que, independentemente do nível de atividade física envolvida, toda a gente atinge o mesmo limite metabólico. E tudo se pode dever à ação do trato digestivo

Pedro Dias

Pedro Dias

Jornalista

Um grupo de investigadores da Universidade Duke, na Carolina do Norte, EUA, avaliou o gasto de energia de uma série de atletas de desportos de alta resistência, e concluiu que, independentemente da atividade, o limite metabólico humano – o nível máximo de esforço que o corpo consegue aguentar a longo prazo - é comum.

Existem provas desportivas que podem chegar a durar dias, semanas ou mesmo meses. Mas mesmo nestes casos, os humanos só conseguem queimar calorias a uma velocidade 2,5 vezes superior à que conseguem em repouso.

Herman Pontzer, professor de antropologia evolutiva e coautor do estudo, defende que este valor “define os termos do que é possível para um humano”. Para lá desta velocidade, os investigadores descobriram que o corpo começa a decompor os seus próprios tecidos, numa tentativa de combater o défice calórico.

Uma possível explicação para este limite reside no sistema digestivo. Segundo Pontzer, “existe um limite de calorias que o nosso corpo consegue absorver diariamente”. Por outras palavras, uma vez atingido este limite, comer mais não vai ajudar a uma maior absorção de calorias ou nutrientes para ajudar às funções corporais.

Para o estudo, a equipa mediu o número de calorias queimadas por um grupo de atletas que correu seis maratonas por semana durante cinco meses, como parte da prova Race Across the USA de 2015, uma corrida de quase 5 mil quilómetros com início na Califórnia e meta em Washington. Outras atividades relacionadas com a resistência física também foram tidas em consideração, como a gravidez.

A análise dos dados recolhidos mostrou que o gasto de energia dos atletas começou relativamente alto, mas que inevitavelmente caiu e estagnou na velocidade de 2,5 vezes o seu ritmo metabólico de repouso, durante o resto do evento. Tal sustenta ainda a teoria de que o corpo tem a capacidade de reduzir a velocidade metabólica para valores sustentáveis, de forma a evitar a autodestruição. Caitlin Thurber, coautora do estudo, analisou amostras de urina recolhidas na primeira e na última fase da corrida Race Across the USA. Após 20 semanas de maratonas, os atletas estavam a queimar menos 600 calorias diárias do que as esperadas para os quilómetros andados. Esta descoberta aponta também para a veracidade da teoria.

Todos as outras provas de resistência mostraram o mesmo padrão de velocidade metabólica, quer fosse em desportos de inverno ou de verão. Esta conclusão põe em causa os resultados de estudos anteriores, que relacionavam a resistência física à capacidade de regulação da temperatura corporal.

Os investigadores repararam ainda que o valor máximo de gasto sustentável de energia observado em atletas de resistência era apenas ligeiramente superior ao de mulheres em período de gestação. Tal sugere que o mesmo processo que limita e rentabiliza a energia em atletas pode ser usado para limitar o crescimento do bebé no útero da mãe.

Pontzer acredita que, apesar de ninguém até hoje ter batido este recorde metabólico, o mesmo não seja possível de superar. “É um desafio para os atletas de elite”, diz. “Talvez alguém ultrapasse este limite um dia e nos mostre o que temos andado a perder”.

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