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Rui Pinto*

É ou não perigoso tomar banho durante a digestão?

Luxy Images/ Getty Images

Para responder a esta questão, importa fazer algumas considerações, sublinha o gastrenterologista Rui Pinto


Entende-se por digestão (ou período digestivo) o intervalo de tempo que ocorre após a ingestão alimentar, durante o qual se efetua a digestão dos alimentos. A sua duração depende da quantidade e do tipo de alimentos ingeridos; quanto mais abundante for a refeição, mais longo será o período digestivo; alguns alimentos, tais como os fritos, os condimentados, os gaseificados, as gorduras, o álcool em excesso, a cebola e algumas leguminosas (feijão, grão...) são mais difíceis de digerir, tornando a digestão mais lenta; por outro lado, uma refeição composta por alimentos cozidos ou grelhados, vegetais e/ou fruta será de digestão mais fácil e rápida. Uma boa mastigação e salivação (não comer à pressa!) e a evicção de grandes quantidades de líquidos, durante a refeição, também facilita a digestão. Há ainda a considerar variações individuais na facilidade de se digerir os alimentos; há pessoas que têm, com frequência, sintomas de dificuldade digestiva, como o enfartamento, azia e distensão abdominal (“barriga inchada”), e outras que raramente referem problemas digestivos. De um modo geral, pode-se aceitar que duas horas é o tempo médio para se digerir uma refeição não muito “pesada”.

A digestão dos alimentos requer energia (calorias) e um inerente maior fluxo sanguíneo para o aparelho digestivo; inversamente, há um menor aporte de sangue a outros órgãos e sistemas, tais como os músculos, cérebro e pele. Assim se explica que imediatamente após uma grande refeição não haja grande apetência nem para a realização de esforços físicos e intelectuais nem para a exposição a temperaturas extremas; neste período, designado “pós-prandial”, poderá até ocorrer alguma sonolência; se realizarmos uma atividade física intensa neste período, poderemos não nos sentir bem (mal-estar geral, tonturas, sensação de desmaio, dor de cabeça, enfartamento, azia, náuseas e vómitos, dor abdominal...); o mesmo poderá acontecer se nos expusermos a temperaturas extremas; o frio origina uma resposta do organismo, levando mais sangue para os tecidos periféricos, com vista a repor (elevar) a temperatura corporal; a temperatura elevada, por seu lado, provoca uma dilatação dos vasos sanguíneos da pele (rubor), com o objetivo de baixar a temperatura do corpo, aumentando a perda de calor por irradiação através da pele. Portanto, quer o esforço físico/intelectual quer a exposição a temperaturas adversas poderão prejudicar/atrasar a digestão, por provocarem um desvio do fluxo sanguíneo do aparelho digestivo para outros órgãos (músculos, cérebro ou pele). Os termos “indigestão”, “paragem de digestão” ou “congestão alimentar” não têm rigor médico, mas são frequentemente utilizados para designar a perturbação digestiva que ocorre naquelas situações e que pode resultar nos sintomas atrás descritos; esta perturbação, apesar de incomodativa, não tem caráter de gravidade nem compromete o estado de saúde a longo prazo.

Postas estas considerações, poderemos dizer que, de uma maneira geral, não é “perigoso” tomar banho durante a digestão, isto é, nas duas horas após uma refeição. No entanto, para que não haja perturbação digestiva, devemos ter algumas precauções. Um duche rápido com água morna, após uma refeição “normal ou moderada”, não representa qualquer problema ou risco de perturbação da digestão. Por outro lado, no período digestivo devemos evitar banhos demorados no mar ou em piscinas, implicando esforço físico (ex: natação, hidroginástica), com água muito fria (ex: mar) ou muito quente (ex: banho de imersão, jacúzi, banho turco, sauna), sobretudo após grandes refeições (ainda mais se incluírem alimentos difíceis de digerir) e, com maior propriedade, se já tivermos propensão para problemas do foro digestivo.

Se surgirem sintomas de perturbação digestiva durante o banho, este deve ser imediatamente interrompido e deverá promover-se um ambiente calmo e repousante até à resolução dos mesmos; se tal não se verificar, é aconselhável a consulta de um profissional de saúde, até para excluir qualquer possível doença associada.
Em suma: como em tudo na vida, até no que diz respeito a tomar banho durante a digestão, o bom senso deve imperar!

*Gastrenterologista dos serviços clínicos dos SAMS – Prestação Integrada de Cuidados de Saúde

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