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Silicones mamários: há ou não risco de cancro?

VISÃO Saúde

Patrick Lane/ Getty Images

O cirurgião plástico Fernando Perin esteve em Portugal a falar da polémica que liga os silicones mamários a um cancro raro, e que levou a França a proibir alguns modelos, explica à VISÃO os riscos, as dúvidas e as certezas que existem

Catarina Guerreiro

Catarina Guerreiro

Editora Executiva

No mundo, mais de um milhão e meio de mulheres colocam, todos os anos, silicone para aumento mamário. As questões de segurança e os riscos para a saúde, como o de poder causar um tipo de cancro raro, estiveram em discussão num congresso que decorreu no Hospital da Prelada, no Porto. Neste simpósio “Novos Rumos na Cirurgia Plástica” debateram-se ainda algumas das últimas novidades da área como o implante inovador (B-Lite) que é considerado o mais leve do mundo (pesa menos 30% dos que os tradicionais) e que chegou este ano a Portugal. Manuel Maia, Diretor do Serviço de Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Estética do Hospital da Prelada, garante que há cada vez mais portuguesas a colocar silicones nos seios, nota que se tem assistido a uma enorme evolução qualidade dos implantes e desfaz um mito. “Uma mulher que coloca um implante mamário coloca para sempre, não é necessário ser revisto ao fim de 10 anos como erradamente muitas pensam.”, explica, acrescentando: “Deverá sim ser observada anualmente e a revisão do implante ser feita se clinicamente indicado.”

Entre os presentes no encontro que, decorreu no passado 6 de abril, estiveram vários médicos nacionais e internacionais, como o brasileiro Fernando Perin, que falou exatamente sobre a polémica que liga os silicones mamários ao linfoma anaplásico de grandes células – um cancro raro conhecido como BIA-ALCL. A VISÃO falou com o cirurgião plástico brasileiro.

Há ideia de quantas mulheres no mundo colocam todos os anos silicone nas mamas?

Existe muita especulação em relação a esse número pois aqueles que os detém realmente são os fabricantes, pelo controlo de unidades comercializadas. A sociedade internacional de cirurgia plástica estética (ISAPS) divulga anualmente esses dados que são recolhidos através de uma resposta de um questionário pelos seus membros. Como não existe uma comprovação das informações fornecidas, esses dados representam uma ideia desta grandeza. O último relatório foi divulgado em novembro de 2018 sendo que a cirurgia de aumento mamário é o maior procedimento cirúrgico realizado na cirurgia plástica - estima-se que no ultimo ano cerca de 1.677.320 mulheres realizaram este procedimento.

Tem-se falado muito do risco do silicone fazer desenvolver um linfoma anaplásico. É um risco é real?

Sim, existe um risco real de se desenvolver o linfoma de células anaplásicas para qualquer pessoa que tenha algum tipo de implante no seu organismo. É preciso dizer que esse tipo de doença não é exclusiva de implantes mamários mas pode ocorrer também com implantes dentários, ortopédicos, implantes glúteos e há, até, casos relatados com marca-passos cardíacos

O que se pode fazer para minimizar esses riscos?

Para se prevenir doenças é preciso saber e compreender suas causas. Como ainda não se tem uma evidência científica relevante em relação ao assunto, muita especulação e polémicas têm sido apresentadas. Vale ressaltar, entretanto, que qualquer procedimento cirúrgico que respeite os critérios de manipulação mínima, assepsia e cuidados com os tecidos descolados e mobilizados com boas práticas de técnica cirúrgica, por si, já reduzem esses riscos. Devemos ainda pesquisar entre os pacientes que serão operados se existe antecedentes familiares de doenças linfoproliferativas como linfomas de qualquer causa e leucemias, pois nestes casos podemos ter um risco maior de aparecimento desta doença.

Há mulheres com maior risco de desenvolver esta doença, ao colocarem implantes?

O risco de desenvolver esta doença ainda é considerado muito baixo, porém, como hoje existe uma maior consciência da população médica em relação ao tema, o número de casos confirmados vem aumentando ao longo dos anos. Acreditamos que esses aumentos devem chegar a um patamar de estabilidade, e, quando assim for, teremos uma real noção da ocorrência desta doença na população em geral. O que, todavia, sabemos é que a incidência na população em geral que não tem implantes é proporcionalmente igual à aquela que tem implantes e segundo a Organização Mundial de Saúde ela deixou de ser classificada como rara para ser classificada como doença incomum.

Acha que esta situação pode diminuir o sucesso dos implantes?

O desejo feminino de aumento mamário acompanha a humanidade desde a sua existência. A mama representa para as mulheres o maior símbolo de feminilidade, muito mais que a região genital, por exemplo. É por este motivo que as cirurgias de amputação mamária, nos casos de carcinoma, tem um efeito devastador na autoestima feminina trazendo consigo a importância da reconstrução mamária. É nosso dever como médicos e especialistas orientar as nossas pacientes em relação à possibilidade incomum, mas existente, de, eventualmente, desenvolverem esse tipo de doença, e cabe ao paciente, juntamente com o seu médico, decidirem se o procedimento deve ou não ser realizado. Na minha prática privada posso afirmar que, depois de bem esclarecidas, as minhas pacientes nunca declinaram fazer o procedimento, e compreendo que, a partir do momento em que qualquer pessoa que se predispõe a fazer um procedimento cirúrgico, entende-se e assume-se os riscos deste procedimento, principalmente se bem esclarecida. Em resumo, as pessoas sempre procurarão aquilo que desejam, dispostas a enfrentar riscos. Se não querem enfrentar riscos é porque ainda não estão certas que querem aquele tipo de procedimento.

Em França foram proibidos alguns modelos de implante mamário, como medida de precaução relativamente a este tipo de cancro raro, segundo as autoridades francesas. Essa proibição faz sentido?

Entendo que decisões que envolvem temas de saúde pública devem ser pautadas em informações objetivas resultantes de estudos científicos com alto nível de evidência. Obviamente que a sociedade no geral exerce uma forte pressão nos órgãos reguladores para que se tenham essas respostas no menor prazo possível, entretanto, a ciência evolui ao seu próprio ritmo, frustrando as expectativas da população. No meio científico, devemos sempre ter a cautela de não nos envolvermos emocionalmente mas sim racionalmente com os factos, com o objetivo de não nos equivocarmos. Por ser ainda considerada uma doença incomum de baixa ocorrência, creio que o bom senso prevaleceu na maioria das nações que não se alinharam com a decisão francesa como Espanha, Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Brasil, Bélgica, etc. Apenas com evidências científicas concretas poderemos ter uma decisão conjunta global e não de especulações emocionais baseadas em pressões populares ou interesses económicos

Quais os desafios da cirurgia plástica no futuro?

Todos nós, médicos, sabemos que a medicina é uma ciência de verdades transitórias. Quantas vezes já nos deparámos com tratamentos que eram considerados como os mais indicados para uma determinada doença e que anos mais tarde, depois de evidências científicas concretas, mostram-se, além de inadequados, prejudiciais aos pacientes. Creio que os desafios futuros da cirurgia plástica, especificamente em relação aos implantes mamários, serão pautados pelo tema da biocompatibilidade, ou seja, tornar este “corpo estranho” implantado o menos reagente possível com o nosso organismo, de uma tal maneira que o nosso organismo simplesmente o ignorará.

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