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Cancro do pâncreas: porque é que se morre tanto desta doença?

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Em Portugal, todos os anos aparecem mais de 1500 novos casos de cancro do pâncreas, e os desfechos são cada vez menos animadores. O diagnóstico tardio devido, muitas vezes, à falta de trabalho de divulgação da doença e dos seus possíveis sinais de alarme, é uma das razões que justificam o facto de ser o cancro com taxa de sobrevivência mais baixa entre os mais graves. É mportante perceber o que falta fazer

"Se pensarmos em 100 doentes com cancro do pâncreas, só 20 conseguem ser operados e destes 16 recidivam, conseguindo sobreviver apenas 4 doentes", esclarece à VISÃO Hélder Mansinho, presidente do Grupo de Investigação do Cancro Digestivo. Os dados não são nada entusiasmantes, é verdade.

O tumor pancreático cresce de forma silenciosa e evolui quase sem sintomatologia e, por isso, é descoberto, muitas vezes, tarde demais. "Só quando envolve estruturas importantes do organismo é que começa a dar sintomas, habitualmente já num estádio que não permite os tratamentos mais efetivos como a cirurgia", explica o médico.

Por ser dianosticado excessivamente tarde, torna-se pouco sensível às terapêuticas disponíveis, o que faz com que não seja surpresa que a mortalidade por cancro do pâncreas seja quase igual à sua incidência.

Em Portugal, de acordo com dados publicados pelo Globocan, aparecem mais de 1500 novos casos de cancro do pâncreas todos os anos. Em todo o mundo, são cerca de mil por dia e em quase todos os países este é o único tumor com uma taxa de sobrevivência inferior a 10% no primeiro ano, e cerca de 2 a 9% a cinco anos.

O histórico familiar de incidência da doença é um fator que não pode ser ignorado, mas há outros que aumentam a probabilidade de a desenvolver e que incluem a idade (90% de todos os casos são detetados em pessoas com 55 anos ou mais), o tabagismo - responsável por um terço dos casos deste cancro- mas também a obesidade (um em cada oito casos de cancro pancreático está ligado ao excesso de peso), a ingestão excessiva de bebidas alcoólicas e pancreatites constantes.

Nas duas últimas décadas, a doença tem vindo a ser menos negligenciada, revelando melhores, embora escassos, resultados a nível de sobrevivência, mas a tarefa hérculea de conseguir um diagnóstico mais precoce e diminuir ainda mais taxa de mortalidade ainda vai no início.

O que está a falhar, afinal?

Falta informação e divulgação dos sintomas associados ao cancro do pâncreas para se conseguir um diagnóstico precoce e, por isso, este é um passo urgente, explica Hélder Mansinho. Isto porque os doentes diagnosticados a tempo de realizarem uma cirurgia - que, neste momento, são apenas 20% - têm maior probabilidade de viverem cinco anos ou mais, mas também de fazerem tratamentos de quimioterapia bem sucedidos.

"No início, os sintomas tendem a ser desvalorizados pelo doente e, por isso, o médico ou mesmo os familiares que o rodeiam podem não estar cientes de que se trata de cancro do pâncreas", diz.

Além disso, a melhoria da sobrevivência está diretamente ligada ao volume de recursos despendidos em investigação e, neste aspeto, há uma grande discrepância no investimento nesta área relativamente a outras, tanto a nível nacional como no resto da Europa.

"Apesar de ser um dos tumores com taxas de mortalidade mais altas, tem um nível de investimento francamente inferior aos restantes", afirma o especialista. "Por exemplo,comparativamente ao cancro da mama, o investimento nesta doença é sete vezes inferior. Neste momento, na União Europeia, existem 1070 ensaios clínicos em cancro da mama e apenas 252 referentes ao cancro do pâncreas", afirma.

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Os sinais que não deve ignorar

Estes são os 10 sinais que o devem colocar em alerta, de acordo com a Pancreatic Cancer Europe:

Depressão: pode ser um sintoma anterior ao diagnóstico

Náuseas e enjoos: o tumor pode bloquear o ducto biliar ou pressionar o duodeno, o que vai obstruir a digestão ou provocar inflamação no pâncreas ou à sua volta

Perda de peso inexplicável: o organismo passa a queimar mais calorias do que o habitual

Dor abdominal: Agrava-se, normalmente, depois das refeições ou quando está deitado e pode estender-se às costas, sendo mais constantes com o passar do tempo

Dor na coluna dorsal: Cerca de 7 em cada 10 doentes com cancro do pâncreas vão pela primeira vez ao médico com queixas de dor nas costas e acontece porque, muitas vezes, o tumor está localizado no corpo ou cauda do pâncreas, exercendo pressão nos nervos

Alterações nos hábitos intestinais - diarreia: quando interfere com as atividades diárias, é sinal de que alguma coisa não está bem

Alterações nos hábitos intestinais - esteatorreia: provoca fezes com gordura e de cor clara. Pode ocorrer por consequência de obstrução do ducto biliar e dever-se a um tumor neoplástico no pâncreas

Sinais de icterícia sem dor (pele e olhos amarelos): Também pode estar associada a prurido e a urina escura

Aparecimento de diabetes de início recente: este cancro destrói as células pancreáticas que produzem a insulina, o que pode levar ao aparecimento de diabetes mellitus. Os sintomas incluem visão turva e fadiga extrema

Trombose venosa profunda: falta de ar ou dor podem ser provocadas por coágulos sanguíneos numa veia profunda, tais como as das pernas, pélvis ou braços.