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Atrasar a menopausa: sim ou não? Especialistas não se entendem

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BSIP/ Getty Images

Depois de, em abril, um estudo de investigadores britânicos ter concluído que ingerir alimentos como peixes gordos e legumes frescos ajuda a adiar o fim da menstruação, especialistas espanhóis vêm agora alertar para os efeitos negativos na saúde das mulheres do atraso da menopausa

Um estudo realizado por investigadores britânicos da Universidade de Leeds com 914 mulheres (que atingiram a menopausa naturalmente), concluiu que a ingestão de hidratos de carbono podia antecipar a chegada da menopausa. Pelo contrário, os antioxidantes dos legumes frescos e o ómega-3 do peixe ajudavam a prolongar a menstruação, podendo adiar a menopausa por 3,3 anos.

Outro resultado do estudo tinha a ver com as vegetarianas: para elas, a menopausa chega mais cedo, apesar de o consumo de legumes frescos estar associado a uma menopausa mais tardia. Este resultado está de acordo com outros estudos, como uma investigação publicada na revista científica American Journal of Epidemiology, que também relataram uma idade mais precoce na menopausa natural entre os vegetarianos. Uma outra investigação publicada na revista científica American Journal of Clinical Nutrition descobriu que a dieta vegetariana - rica em fibras e sem gordura animal - pode afetar os níveis de progesterona, responsável por estimular os folículos e controlar a duração do ciclo menstrual.

As médicas Elena Pérez Muñuzuri e Alicia Berdeal do Instituto Galego de Ginecologia do hospital HM Rosaleda de Santiago de Compostela, em Espanha, sublinha, contudo, que a dieta não faz com que o número de óvulos de uma mulher cresça, "já que essa quantidade está definida desde o momento em que somos embriões". O que a dieta pode fazer, afirmam, em entrevista ao El País, é que se "percam menos ovócitos durante a menstruação".

As investigadores defendem que é preciso ter em conta que há muitos fatores externos, além da dieta, que vão alterar o funcionamento normal dos óvulos. "A dieta não consegue influenciar o efeito do consumo de tabaco, álcool ou drogas, muito menos a passagem dos anos", explicam.

Mas porquê atrasar a menopausa?

Os investigadores da Universidade de Leeds não estudaram os mecanismos que levaram aos resultados obtidos. Por ser um estudo observacional, ou seja, um estudo em que a causa e o efeito foram observados estatisticamente e não em laboratório, seriam necessários mais estudos que explicassem exatamente porque é que os legumes frescos e os peixes gordos atrasam a menopausa e de que forma é que os hidratos a antecipam. E se, realmente, é benéfico para a saúde da mulher adiá-la.

Neste estudo, as mulheres foram acompanhadas durante quatro anos, mas as avaliações relativas às dietas alimentares foram feitas apenas uma vez por ano. "Num ano, uma pessoa pode fazer muitas modificações dietéticas" diz ao El País o nutricionista Eduard Baladia. "A associação observada pode ser devida a outros fatores não conhecidos e não controlados", refere.

Além disto tudo, o estudo sugere que uma menopausa precoce está relacionada com uma menor densidade óssea e com maior risco de doenças cardiovasculares. Mas isso não significa que adiá-la um ano vai evitar que haja tantos eventos cardiovasculares ou fraturas ossos, defende Eduard Baladia.

Pelo contrário, Elena Pérez Muñuzuri e Alicia Berdeal afirmam que atrasar a menopausa " aumenta o risco de doenças como cancro no ovário ou da mama."

Também Jan Tesarik, ginecologista e especialista em fertilidade, refere que "embora a terapia de reposição hormonal [administração de hormonas para fins terapêuticos] possa melhorar alguns dos sintomas da menopausa, como a secura vaginal, relações sexuais dolorosas e alterações emocionais e metabólicas, também pode levar a outros riscos" que incluem o aumento do risco de tumores no endométrio e na mama e problemas relacionados com a vesícula biliar.

Há novos tratamentos em análise que podem ajudar a reduzir os efeitos negativos da menopausa no futuro mas que necessitam ainda de vários testes antes de poderem ser aplicados clinicamente.