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Bexiga hiperativa, a doença que muitos pensam não ser

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Getty Images

Em tempo de férias de verão, em que se viaja com frequência e se passa, normalmente, muito tempo fora de casa, este é um problema que pode condicionar a vida de forma acentuada

Não é apenas uma questão psicológica, como muita gente pensa, mas uma doença. A bexiga hiperativa, segundo Ricardo Pereira e Silva, urologista do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, apesar de ser mais frequentemente idiopática – sem causa identificável - , pode estar associada, por exemplo, a múltiplas doenças neurológicas. O médico refere ainda que a incidência dos sintomas tende a aumentar com a idade, apesar de afetar pessoas de todas as faixas etárias.

Rute Branco tem, agora, 42 anos, mas foi-lhe diagnosticada bexiga hiperativa há três. Inicialmente, achava normal ter tanta vontade de ir à casa de banho, já que bebia muita água. "O que me assustou foi quando estava no supermercado e, de repente, saiu-me urina como se fosse o rebentamento das águas quando se vai ser mãe", conta.

Fez umas análises de rotina onde foi detetada uma infeção urinária, mas os sintomas continuavam: Rute passava noites sem dormir, na casa de banho. E o pior é que, quando percebia que tinha vontade de urinar, "já era tarde demais". "Assim que começava a sair urina, nunca mais parava", refere. Foi depois, no Hospital de Santa Maria, que a encaminharam para a especialidade de urologia e, aí, conseguiram diagnosticar-lhe a doença e começar os tratamentos.

De acordo com Ricardo Pereira e Silva, o sintoma principal desta patologia é a urgência urinária, que pode ser acompanhada de perda de urina. De uma forma geral, os doentes vão demasiadas vezes à casa de banho durante o dia, para urinar muito pouco. A maior parte deles tem também noctúria, ou seja, necessidade de acordar durante a noite para urinar.


Números em Portugal


Tal como Rute, existem vários casos de bexiga hiperativa em Portugal. Segundo Ricardo Pereira e Silva, é difícil conhecer exatamente a sua prevalência no País, dado ser uma doença “altamente subdiagnosticada”. No entanto, um estudo feito pela Faculdade de Medicina do Porto concluiu que cerca de 30% da população portuguesa, quando inquirida, refere algum tipo de sintomatologia no espectro da bexiga hiperativa.

A prevalência desta doença pode, então, estar acima da média europeia (17%). “Acima de tudo, sabemos que é muito frequente e que o impacto que apresenta na sociedade, a diversos níveis, não deve ser negligenciado”, refere. Além disso, estima-se que 20% a 30% das mulheres possam vir a ser afetadas por este problema em alguma fase da sua vida.


Quando se perde qualidade de vida


A bexiga hiperativa pode condicionar muito o dia-a-dia dos doentes. Rute, por exemplo, deixou de ir à praia com as filhas, durante o verão, e evitava sair à rua. "A situação é particularmente mais grave quando existe incontinência associada, porque as perdas de urina no contexto de bexiga hiperativa podem ser em grande quantidade e são totalmente imprevisíveis", refere o urologista.


Todas estas situações criam elevados níveis de stress aos doentes e podem ser altamente traumatizantes, contribuindo para o aumento do risco de ansiedade e depressão e para o isolamento social. Além disso, a utilização de pensos absorventes ou fraldas pode causar complicações de saúde locais pelo contacto da urina com a pele, já para não falar dos elevados custos que estão associados.


Relativamente ao acompanhamento por parte dos profissionais de saúde, em Portugal, Ricardo Pereira e Silva acredita que, apesar de estarmos "no bom caminho", ele é ainda longo e precisa de algumas mudanças. "Ainda há pouco tempo, no supermercado, parei alguns segundos a olhar para a secção dos produtos para incontinência. Achei a secção demasiado grande e notei uma afluência excessiva", contou. O médico admite que é possível não se estar a tratar a quantidade suficiente de doentes, mas que o facto de este problema "ainda ser um tabu para muitas pessoas" também piora o cenário.


Porque é que há pessoas com bexiga hiperativa?


Os rins produzem continuamente urina que desce pelos ureteres até à bexiga que, assim que começa a ficar cheia, emite uma mensagem ao cérebro para informar sobre a necessidade de urinar. Se, nessa altura, for inconveniente ir à casa de banho, é possível "desligar" essa mensagem durante algum tempo.

Quando for adequado urinar, o cérebro emite, então, uma ordem para que a bexiga se esvazie na sua totalidade. A bexiga hiperativa ocorre como resultado de um mau funcionamento desta interação entre o cérebro e a bexiga, do qual resulta uma vontade súbita e inadiável de urinar.


Há luz ao fundo do túnel?

Quado se desconhece a causa exata desta patologia, o tratamento é direcionado para os sintomas. As medidas conservadoras, que, de acordo com o médico, têm uma eficácia limitada, incluem o treino vesical – resistir à primeira vontade de urinar -, a ingestão de água em quantidades adequadas e a restrição de substâncias irritativas como o café, o chá, o álcool e bebidas gaseificadas.

Mas a base do tratamento é, sobretudo, farmacológica, com duas classes de medicamentos aprovadas para tratamento da bexiga hiperativa e que, de uma forma geral, são bem tolerados. Esta medicação destina-se a ajudar o doente a ter menos vontade de ir à casa de banho, a reduzir a sensação de urgência e a gravidade da incontinência.

Em alguns casos, como o de Rute Branco, faz-se injeção de toxina botulínica nas paredes da bexiga, que vai causar o relaxamento da mesma. Antes, Rute tinha de fazer este tratamento com botox de seis em seis meses, mas agora só tem feito de ano a ano. Além disso, faz diários miccionais que são analisados pelos especialistas de três em três meses, para perceber se é preciso uma nova dose desta toxina.

Outro processo é a neuromodulação de raízes sagradas, em que se implanta um dispositivo semelhante a um pacemaker que, através da administração de corrente elétrica contínua, de baixa intensidade, vai permitir o controlo da hiperatividade da bexiga.