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Ser abstémio aumenta risco de demência, mostra estudo. Peritos recomendam cautela

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Uma investigação concluiu que as pessoas entre os 35 e os 55 anos que são abstémias e as que consomem mais do que o equivalente a uma garrafa e meia de vinho por semana apresentam um risco maior de envelhecimento cerebral

Sara Sá

Sara Sá

Jornalista

No meio é que está a virtude. Diz o ditado e parece indicar um estudo publicado esta semana na publicação médica The BMJ, no qual se analisou o impacto do consumo de álcool no aparecimento de demência na velhice. De acordo com o trabalho, que seguiu nove mil londrinos ao longo de 23 anos, as pessoas entre os 35 e os 55 anos que são abstémias e as que consomem mais do que 14 unidades de álcool por semana (o equivalente a uma garrafa e meia de vinho) apresentam um risco maior de envelhecimento cerebral.

Uma conclusão que na verdade vai ao encontro do que já se suspeitava, por trabalhos anteriores, que tinham apontado para o efeito protetor das bebidas alcoólicas, sobretudo do vinho tinto. Mesmo assim, as conclusões não deixam de levantar dúvidas entre a comunidade científica e entre os próprios autores do estudo, cientistas do Instituto Nacional Francês de Pesquisa Médica e Saúde, Inserm, e da University College, em Londres.

Para fazer este trabalho, os investigadores recorreram a dados do Estudo Whitehall II - que analisa o impacto de fatores sociais, comportamentais e biológicos na saúde a longo prazo - e acompanharam os cerca de nove mil homens e mulheres, entre 1985 e 1993, inquirindo-os acerca dos seus hábitos de consumo de bebidas alcoólicas. Depois disso, mantiveram esta população debaixo de olho e registaram o número de casos de demência que foram surgindo. As principais conclusões foram as seguintes: o risco de demência é mais elevado naqueles que se abstêm de beber álcool na meia idade; o consumo de álcool, superior a 14 unidades por semana, aumenta igualmente o risco de demência, de forma proporcional (quanto mais se bebe, maior o risco); em parte, o risco de demência nos abstémios está relacionado com a ocorrência de doenças metabólicas (hipertensão, diabetes) neste grupo.

Reforçando que este trabalho é um estudo observacional, ou seja, que não permite avaliar uma relação de causa e efeito, os autores alertam para a mensagem da redução do consumo de álcool, "um fator de risco para a demência", encorajando inclusivamente as autoridades de saúde a baixar os limites recomendáveis.

Outra falha que tem sido apontada é o facto de nada se saber acerca do hábitos de consumo antes dos 35 anos, sendo bastante provável que um abstémio tenha um passado de abuso de álcool. "As nossas conclusões não devem ser encaradas como um estímulo ao consumo", pela bem estabelecida relação entre as bebidas alcoólicas e o cancro, a cirrose e os problemas psiquiátricos, reforçam os autores.

Da parte do Instituto de Investigação em Alzheimer do Reino Unido também veio um alerta. Sara Imarisio sublinhou: "Neste estudo só foram avaliados os hábitos de consumo na meia idade, não sabemos nada sobre a fase de jovem adulto, o que pode muito bem contribuir para o aparecimento de demência no fim da vida. As pessoas que se abstêm completamente de beber álcool podem ter um historial de consumo pesado e isso pode difícultar a interpretação da relação entre a bebida e a saúde. É preciso mais investigação que analise os hábitos ao longo de toda a vida."