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Doentes com cancro que usam (também) terapias alternativas têm duas vezes mais probabilidade de morrer

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Getty Images

Um estudo de investigadores da Universidade de Yale conclui que a medicina complementar é um risco real - porque quem se submete a tratamentos alternativos tende a recusar radioterapia e quimioterapia

Mal não faz. É este o argumento de muitos proponentes de homeopatia, acupuntura, reiki, cristais mágicos e outras terapias alternativas, não reconhecidas como medicina pela comunidade científica. Os produtos homeopáticos, por exemplo, não têm uma única molécula da substância ativa original (as diluições são tantas que no final fica apenas água, a que habitualmente se junta açúcar), pelo que, mesmo que não curem, também não matam. O mesmo vale para métodos como acunpuntura - ainda que a teoria dos meridianos não tenha sustentação científica, as agulhas são demasiado finas para causar danos profundos.

Mas um grupo de investigadores da Universidade de Yale, nos EUA, chegou a uma conclusão diferente: doentes com cancro que, além dos tratamentos convencionais, se tratam também com as chamadas "medicinas complementares" têm uma probabilidade duas vezes maior de morrer da doença. O estudo foi publicado esta semana na revista científica Journal of the American Medical Association Oncology (Revista da Associação Americana de Oncologia Médica).

A razão não está diretamente relacionada com as substâncias e as técnicas em si. O problema é que muitos adeptos destas terapêuticas tendem a negar os métodos validados pela ciência. Dos 258 pacientes que se submetiam igualmente a terapias alternativas, analisados pelo grupo de investigadores, 7% recusou cirurgias, 34% negou submeter-se a quimioterapia, 53% não quis receber radioterapia e 34% disse não à terapia hormonal (em comparação com o grupo de controlo equivalente, mas que seguia apenas os tratamentos convencionais para o cancro).

Por outro lado, entre os doentes que seguiam terapias alternativas mas não recusavam qualquer tratamento médico, a taxa de mortalidade era idêntica aos que se submetiam, em exclusivo, à medicina moderna. "O maior risco de morte ligado às medicinas complementares está, portanto, relacionado com o facto de recusarem tratamentos", lê-se no relatório do estudo. Ou seja, tecnicamente, os métodos alternativos são inócuos, desde que os pacientes sigam à risca as indicações dos médicos encartados. Mas, dado que não fazem aumentar a taxa de sobrevivência, são também inúteis.

Apesar das muitas dúvidas sobre os seus resultados, as terapias alternativas têm aumentado de popularidade, pelo menos nos EUA, notam os autores da investigação. "Estima-se que o uso de medicina complementar e alternativa seja uma indústria multibilionária nos Estados Unidos. O crescimento tem sido atribuído à sua maior disponibilidade e ao marketing, bem como a uma ligação com as crenças, valores e filosofias dos pacientes quanto à sua saúde, nomeadamente o seu desejo de maior autonomia."