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Medicamento para prevenir a malária está esgotado em Portugal

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Reuters

As últimas embalagens de mefloquina venderam-se no início de maio e o Infarmed revela à VISÃO que a reposição de stocks nas farmácias não será possível antes de 27 de julho. Há alternativas para a maioria dos viajantes, garantem as autoridades de saúde - mas são mais caras e nem sempre tão eficazes

Esta é uma das alturas mais movimentadas nos centros de consulta do viajante, com os meses de maio e de junho a merecerem a preferência dos muitos portugueses que escolhem marcar as suas férias para locais distantes e exóticos. Além do bilhete de avião e do passaporte em dia, são quase sempre necessárias vacinas específicas e tratamentos de prevenção. A inoculação contra a raiva e a medicação profilática da malária estão entre as necessidades mais comuns - dois fármacos que, apurou a VISÃO, estão esgotados no mercado português desde o início de maio.

No caso da raiva, transmitida pela mordedura de cães, a Direção-Geral de Saúde confirma que "houve um problema de produção" e que, por isso, "houve necessidade de proceder a uma distribuição criteriosa da reserva existente em Portugal à data". Ou seja, as doses que ainda existiam no mês passado foram canalizadas para os serviços públicos de saúde, uma vez que a vacina contra a raiva, comercializada como Rabipur, pode ser utilizada em pré-exposição (de forma preventiva), e em pós-exposição (como tratamento).

"A vacinação em pré-exposição é assegurada através da compra pelo viajante em farmácia e existiram problemas de distribuição, mas o abastecimento por parte do laboratório" terá tido início "no final da semana passada", esclarece a Direção-Geral de Saúde. O Infarmed acrescenta que a 17 de maio ficou disponível um novo lote, "estando o abastecimento do mercado a ser regularizado".

Contudo, ontem os médicos ainda não conseguiam fazer a prescrição eletrónica do Rabipur, como confirmou à VISÃO o diretor clínico do Centro de Consultas do Viajante do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), Carlos Araújo. Sem alternativas no mercado, quem viajou nas últimas três a quatro semanas para zonas mais problemáticas da Ásia ou de África terá partido sem se vacinar.

No que se refere à profilaxia pós exposição, a Direção-Geral de Saúde assegura que "esta esteve sempre assegurada" nos serviços médicos públicos, ou seja, que "não existiu qualquer problema no que se refere ao tratamento".

Reposição... daqui a dois meses?

Relativamente à malária, o Infarmed confirma que "o medicamento mefloquina está atualmente em rutura de stock", prevendo-se a sua reposição apenas a partir de 27 de julho. A autoridade nacional do medicamento diz que está neste momento "a avaliar alternativas para o abastecimento do mercado com esta substância", nomeadamente junto de países onde o medicamento esteja disponível, "para proceder a uma autorização de utilização especial que garanta o abastecimento nesta fase de rutura".
Após a publicação da notícia da VISÃO, o Infarmed informou que "a empresa responsável pela Autorização de Introdução no Mercado da mefloquina também foi contactada no sentido de encontrar soluções em mercados alternativos".
Existe "uma alternativa terapêutica na sua indicação principal (Atovaquona + Proguanilo), que pode ser utilizada e não tem ruturas notificadas", frisa o mesmo organismo. O u seja, em alternativa ao fármaco com o nome comercial Mephaquin poderá existir o Malarone, embora essa não seja uma solução aplicável em todos os casos. Não é recomendado em grávidas e crianças, por exemplo, nem pode tomar-se durante estadias superiores a um mês. "Também é possível usar o antibiótico doxiciclina nalgumas situações... mas o mephaquin faz-nos muita falta", desabafa Carlos Araújo.
Para o viajante há ainda a questão do preço: uma caixa de Mephaquin com 8 comprimidos, que assegura tratamento por dois meses, custa cerca de 6 euros; uma embalagem de Malarone com 12 unidades, para 12 dias, chega aos 35 euros.
Usado igualmente no tratamento da malária, a compra do Mephaquin era recomendada também para ir na mala dos viajantes, caso houvesse falta de cuidados médicos adequados no local, nas primeiras 24 horas. Porém, nessa situação já existem fármacos alternativos e que estão disponíveis em Portugal, como o Airalan, explica o diretor clínico do IHMT.
Este é um problema que, não sendo exclusivo de Portugal, está a afetar particularmente o nosso país. Não há memória de uma quebra tão grave no abastecimento como a atual, em que se prevê um período de pelo menos três meses sem que esta medicação esteja disponível nas farmácias.
A malária é endémica em regiões tropicais e subtropicais, em grande parte da África subsariana, Ásia e América Latina, e facilmente transmissível pela picada de mosquitos. Em 2016, segundo a Organização Mundial de Saúde, registaram-se 216 milhões de casos de malária, de que resultaram 731 000 mortes.