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Stevia, a erva doce que chegou para substituir o açucar

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Adoçante natural cada vez mais popular, a planta originária do Paraguai passou de ingrediente raro e caro a alternativa democratizada ao açúcar presente em gelatinas, chocolates, compotas, iogurtes, sumos e cereais. Sem calorias, sem culpas

Uma planta que adoça como o açúcar poderá ser a maneira mais simplista de descrever a stevia, uma presença recente, entretanto generalizada, na lista de ingredientes de chocolates, gelatinas, compotas, iogurtes, sorvetes, néctares, cereais, rebuçados, bolachas e bolos como açúcar de adição. Para a nutricionista Ana Ni Ribeiro, a indústria tem substituído outros adoçantes por este, fazendo com que se torne cada vez mais popular.

De uso milenar, a Stevia rebaudiana Bertoni deve o seu nome científico a Moisés Bertoni (1857-1929), naturalista suíço que estudou as plantas medicinais utilizadas pelos índios guaranis. Desde a sua inserção na produção de alimentos e bebidas, no Japão, na década de 1970, o cultivo desta planta originária do Paraguai para uso comercial não tem parado de crescer. O mercado global deste edulcorante natural deverá atingir perto de €84 milhões já daqui a dois anos, enquanto em termos de consumo o crescimento anual deverá andar entre os sete e os oito por cento. No mundo ocidental, só agora a utilização da stevia como substituto do açúcar tem ganhado relevância, democratizando este ingrediente que começou por ser raro e caro. Segundo dados do PureCircle Stevia Institute, cerca de cinco mil milhões de pessoas, em todo o mundo, já usam stevia na sua dieta diária.

Uma guerra aberta contra o açúcar na indústria alimentar – por parte de alguns governos, incluindo o português, e de consumidores cada vez mais esclarecidos sobre os seus riscos para a saúde – está na base dos motivos que têm popularizado a stevia, também conhecida como “erva doce”, em países como Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai. “O açúcar é um veneno, uma droga, pelo que o consumo de adoçantes químicos de forma muito moderada seria um substituto a ter em conta. Atualmente, os adoçantes presentes no mercado são seguros, desde que consumidos com moderação”, explica Ana Ni Ribeiro. “Há tendência para preferir sempre os produtos naturais aos químicos, mas nem sempre ser químico é mau, nem natural é bom. Não se pode generalizar”, alerta.

350 vezes mais doce

Não há muito tempo, falar de adoçantes, como aspartame ou sacarina, causava desconfianças, mas para Patrícia Almeida Nunes, nutricionista e diretora do serviço de Dietética e Nutrição do Centro Hospitalar Lisboa Norte, não se podem colocar todos os edulcorantes no mesmo saco. “Algumas pessoas associavam-nos ao que fazia mal à saúde em geral, diziam que eram muito tóxicos, existindo algumas notícias que os ligavam também ao aparecimento de determinados tipos de cancro. Os estudos têm demonstrado que são seguros desde que consumidos em determinadas doses”, afiança. Ana Ni Ribeiro, pelo contrário, lembra que, de facto, existem diversos estudos que associam os adoçantes a doenças como o cancro, como o caso do ciclamato, cuja venda foi banida em vários países, incluindo Portugal. “Não é mito, há factos, pelo que devemos reduzir ou evitar o seu consumo.”

Será a stevia a melhor alternativa natural ao açúcar? Para Patrícia Almeida Nunes, também autora do livro Uma Especialista em Nutrição no Supermercado, depende do objetivo que leva ao seu consumo. “Comer alimentos com o sabor adocicado pode trazer mais desvantagens do que vantagens, em especial nas pessoas que pretendem controlar o peso”, esclarece. “Se por um lado pode ser vantajoso, sobretudo para diabéticos e pessoas com excesso de peso e obesidade, na medida em que auxiliam no cumprimento do plano alimentar com menor restrições de sabores, por outro lado é importante compreender que os edulcorantes não são essenciais na dieta do diabético ou numa alimentação com vista à perda de peso, podendo mesmo ser excluídos da alimentação”, acrescenta Ana Ni Ribeiro. O facto de ser natural, derivada de uma planta, não torna a stevia totalmente inócua. Patrícia Almeida Nunes sublinha que “um produto alimentar por ter stevia não deve ser considerado saudável ou mais saudável. Não significa que não tenha outros edulcorantes e até outros açúcares como sacarose, frutose ou mel”.

A stevia só chegou à Europa a meio do século XX, e desde então, tem sido estudada para determinar se é possível comercializá-la como edulcorante natural não calórico, com um poder adoçante 350 vezes superior à sacarose (adoçante calórico). A doçura de aproximadamente três folhas de stevia pode substituir o açúcar presente numa lata de refrigerante carbonatado.

Em 2011, a União Europeia aprovou a sua utilização, passando a ser comercializada oficialmente como aditivo alimentar em chocolates, doces, bebidas e cereais. A Organização Mundial da Saúde recomenda que o consumo diário de açúcar de adição não ultrapasse 10% das calorias ingeridas diariamente (cerca de 50 g de açúcar por dia). Já a Ingestão Diária Aceitável (IDA) foi fixada pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos em 4 mg/kg de peso corporal. “Este parâmetro é uma estimativa da quantidade de aditivo que poderia ser consumida todos os dias, durante toda a vida, sem risco significativo para a saúde e inclui um fator de segurança de 100 vezes, excedendo, em muito, os níveis médios de consumo. No geral, os valores ingeridos de aditivos alimentares e, especificamente, de edulcorantes, são muito inferiores aos valores de IDA definidos”, explica Ana Ni Ribeiro. Uma pessoa de 70 quilos, por exemplo, precisaria de consumir cerca de 40 pacotes de adoçante de mesa de stevia por dia, durante o resto da sua vida, para alcançar a IDA.

Já o açúcar comum, ou sacarose, é frequentemente ingerido em quantidades absurdas para as necessidades diárias, muito para lá do que manda o bom senso.