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Como curar corações partidos (e seis pistas para lidar com o fim)

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D.R.

Na era digital, o ritual de luto por amores que findam faz-se pela partilha anónima de mensagens íntimas no espaço virtual, mas há quem não resista a fazê-lo em museus para o efeito

Clara Soares

Clara Soares

Jornalista e Psicóloga

No início é a promessa. Depois, tudo pode acontecer – até o pior. Ficar refém de uma paixão não correspondida, de uma história inacabada, ou com um fim inaceitável é como um fado: nem às paredes se confessa. Talvez tenha sido assim antes da internet, quando se enviavam mensagens numa garrafa atirada ao mar, com desejos e palavras nunca ditas. Hoje, em que a comunicação é funcional, pública e descartável, em que os média sabem mais de nós do que nós mesmos – uma vez na net, para sempre na net –, lançar as cinzas de amores desfeitos no ciberespaço é uma tendência crescente, por ser fácil fazer upload de tensões e angústias em sites, aplicações e serviços de chat. Mas serão estes lugares seguros para se confessar segredos, desejos e mágoas?

Conhecidos os riscos do oversharing e o lado negro dos comentários em blogues e redes sociais, os novos simulacros do ombro amigo são anónimos. É o caso do brasileiro Desabafa!, semelhante a uma linha de apoio, sem imagens nem som, e com mensagens de texto, 24 horas por dia, com a opção de partilha individual e em grupo. Na app Awkward, é possível confessar segredos através de vídeos com imagem desfocada, em diferentes graus, consoante a preferência do autor. Porém, o registo de gaming destas ferramentas – bónus para o melhor ouvinte, filtros por categorias de confissões, avaliação de vídeos num ranking, possibilidade de conversas privadas, etc. – torna-as viciantes e nem sempre nos garante a nossa segurança.

Isso mesmo sucedeu com a Whisper, popularizada entre adolescentes e jovens adultos, há uns anos, em que dar a localização, adicionar amigos e enviar mensagens privadas, como numa rede social, gerou controvérsia, por se tratar de uma funcionalidade não tão inócua e confidencial, a menos que se seja perito em cibersegurança. Nada melhor do que voltar ao registo simples: o que diria a quem se foi embora? No podcast The One Who Got Away (título de uma canção de Katy Perry), sobre o amor, a vida e a perda, o designer norte-americano Oliver Blank apresenta curtas gravações telefónicas com confissões universais de homens e de mulheres sem limite de idade. Indignações: “Porquê? Porquê? Porque me deixaste?” Fúrias: “Vai-te lixar, espero nunca mais voltar a ver-te.” Lamentos: “Sinto saudades. Volta. Nem cheguei a dizer-te adeus.” Em entrevista ao The Outline, o autor nota que todos libertam o que precisam, embora os que lideram na linha do tempo pareçam mais aceitantes e pacificados, destacando as mensagens do bom que foi, daquilo que aprenderam e de como ficaram gratos.

Catarses íntimas

Na era da sociedade líquida, em que tudo se afigura efémero e instável, a nova maneira de gerir – e de digerir – sentimentos de dor, rejeição e ausência pede novos rituais, com algum sentido de permanência. No Museu das Relações Terminadas, em Zagreb, na Croácia, há cartas e outros objetos evocativos: um vestido de noiva num frasco, uma bicicleta, peluches, sapatos, brinquedos sexuais. Despojos de relacionamentos doados, depositados aqui, com uma breve narrativa, tendo esse gesto uma função catártica, terapêutica. O machado com extremidades azuis, por exemplo, com a legenda “Ex Axe” (machado da ex), foi oferecido por uma berlinense que o usou para rachar a mobília, devolvida em caixas à antiga companheira.

O conceito criado pela realizadora Olinka Vištica e o escultor Dražen Grubišić, durante o seu processo de separação, ganhou fama e asas: eles juntaram objetos de amigos que terminaram enlaces e a exposição itinerante foi vista, entre 2006 e 2010, por mais de 200 mil pessoas em todo o mundo, sendo que algumas delas acrescentaram objetos e histórias do que em tempos foi uma jornada a dois. O casal de artistas comprou um espaço para o museu de arte, permitindo aos visitantes gravar relatos pessoais numa sala protegida e, em 2011, este espaço foi distinguido como o melhor do ano pelo European Museum Forum. Há dois anos, ganhou um “irmão” em Hollywood, graças à parceria com o advogado John B. Quinn, que ficou rendido ao projeto.

Em Disponível para Amar e 2046 – Os Segredos do Amor, dois filmes do realizador chinês Wong Kar-Wai na primeira década do século, confiam-se segredos a um buraco no tronco de uma velha árvore, no cimo da montanha, ou junto às paredes do templo de Angkor Wat, no Camboja, património da Humanidade. Hoje, desabafamos na internet, sem sabermos muito bem quem está do lado de lá para nos ouvir.

6 pistas para lidar com o fim 


As dores da rejeição, da ausência e da perda 
só acontecem a quem ama e cresce

Permita-se sentir
Negar o que sente e alienar-se 
com distrações “para não se chatear” só adia o problema. Reconhecer que este existe e que dói é um favor que faz a si mesmo

Aceite a perda
Revolte-se, grite e chore se assim tiver de ser. As lágrimas são uma via libertadora para escoar emoções, memórias e fantasias com validade caducada

Deixe ir
Agarrar-se ao passado e sofrer é uma escolha. Se descobrir que governa a sua vida a partir de valores como o apego e a dependência, está na hora de fazer “limpezas”

Cuide de si
Priorize a relação mais importante 
de todas, aquela que tem consigo. 
Dê crédito aos seus valores, necessidades e preferências, e invista neles. “Ficar em baixo” é que não

Reconfigure ligações
Se necessário, desligue as notificações do ex e deixe de segui-lo nas redes sociais. As mudanças na geometria de amigos comuns, online e offline, podem ajudar

Siga em frente
Nenhum amor é substituível. Agradeça tudo o que, na experiência amorosa, foi válido, e contribuiu para o seu crescimento pessoal, e abrace o momento presente