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O Viagra feminino existe? E resulta? Tire aqui todas as dúvidas

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Três anos depois de ser comercializado nos Estados Unidos e sujeito a medidas de segurança rigorosas, o fármaco para a falta de desejo sexual continua a gerar controvérsia, legitimando a ideia de que é preciso dar atenção a outras soluções

Clara Soares

Clara Soares

Jornalista e Psicóloga

A falta de apetite sexual não é um problema exclusivo das mulheres, só que “eles têm um comprimido para isso” há décadas e elas não. Ou têm? A tentação de resumir a questão a “inveja do pénis”, expressão com mais de um século, é grande. Mas não vamos por aí. Passaram quase três anos desde que a FDA deu luz verde para comercialização da flibanserina (BIMT-17) nos Estados Unidos. Disponível para venda com receita médica desde agosto de 2015, sob a designação comercial de Addyi, o fármaco é recomendado para a falta de líbido em mulheres que estão a entrar na menopausa. Foi, ao que parece, um parto difícil. A autorização de introdução no mercado veio na sequência de dois chumbos da agência reguladora, em 2010 e 2013, pelos resultados não conclusivo nos testes. Inicialmente estudada para a depressão, a investigação para a falta de desejo sexual foi descontinuada pela farmacêutica Boehringer Ingelheim, logo em 2010, e o princípio ativo foi adquirido pela Sprout Pharmaceuticals, com a intenção de vê-lo comercializado, mais dia menos dia. Por esta altura, seria expectável que houvesse registo de muita mulher satisfeita a proclamar as virtudes da pastilha, mas nada disso aconteceu. O que se passou?

Azul e rosa: cada um com o seu

A avaliar pelo que se conhece sobre a fisiologia sexual e a forma como são ativados os circuitos do prazer no corpo e mente, sabe-se hoje que o caminho para o nirvana tende a ser “circular” no feminino e “linear” no masculino, sendo de esperar que existam soluções específicas para cada um. O sildenafil (princípio ativo do Viagra, o comprimido azul) só precisa de uma toma para promover a vasodilatação e irrigação do pénis, mas a ação da hormona do comprimido cor-de-rosa, ao nível dos neurotransmissores cerebrais, implica uma toma diária, idealmente à noite e ao longo de algumas semanas para obter algum efeito. E neste ponto, os resultados das investigações não foram propriamente excitantes: as mulheres da amostra que se submeteram à toma relataram ter 4,4 encontros sexuais satisfatórios por mês, contra 3,7 das que tomaram o placebo, ou seja, 0.5 de aumento que, embora significativo, é praticamente nenhum. A comissão de peritos peritos da agência reguladora deram o ok, na condição de a substância ficar sujeita a medidas de segurança rigorosas, até devido aos seus - nada eróticos - efeitos secundários: náuseas, tonturas, sonolência e quebras de tensão, sobretudo se ingerida com álcool.

Negócios afrodisíacos

Depois de ter conseguido angariar 100 milhões de dólares para voltar a solicitar a autorização de introdução no mercado e proceder a trâmites legais e novos ensaios do fármaco para a persistente falta falta de líbido, a Sprout, liderada por Cindy Eckert, conseguiu alcançar o objetivo e vê-lo no mercado. Logo a seguir vendeu-o à farmacêutica Valeant, por mil milhões em dinheiro vivo, mas as coisas não correram bem: a operação revelou-se um rotundo fracasso comercial e culminou com o afastamento do CEO, tanto pelos seus métodos de gestão, que chegaram a ser comparados aos da gigante americana de energia Enron, como por ter afastado as seguradoras da equação, já que muitas se recusaram a comparticipar o Addyi devido ao seu elevado custo e baixas taxas de eficácia, como reportou a Fortune no final do ano passado. Foi então que os acionistas da Sprout chegaram a acordo com a Valeant no sentido de esta devolver a empresa aos donos e este deixavam cair a ação movida em tribunal além de receberem 25 milhões. Nos bastidores das movimentações milionárias, a mulher que ajudou a criar o comprimido cor-de-rosa tenciona ganhar ainda mais e investir no rebranding do produto para a perturbação do desejo sexual hipoativo (HSDD).

Num artigo recente da Bloomerang, Cindy manifestou a intenção de baixar o preço mensal de 800 para 400 dólares e assegurar um custo não superior a 99 dólares pela prescrição a quem beneficie de seguro saúde. Por fim, falta deixar cair a restrição do consumo de álcool na bula do medicamento, adiantando que vai facultar novos dados à FDA nesse sentido, na esperança de que suceda o mesmo que no Canadá, onde a pílula rosa foi aprovada no início do ano sem tais restrições.

Muita parra, pouca uva

A venda online parece ser a grande aposta, enquadrada numa rede independente de médicos para aconselhamento telefónico e prescrição em caso de diagnóstico de HSDD, que foi excluída da classificação das perturbações mentais na última revisão da Associação Americana de Psiquiatria (DSM V), em 2013. Coincidência ou não, na mesma altura em que a FDA chumbou a autorização de introdução do mercado do “Viagra feminino”. As dificuldades de “descolagem” do fármaco serão um sintoma de algo que não está bem? Provavelmente. Como sugerem os estudos com variáveis psicológicas e sociais, o desejo está na cabeça. E a sua ausência ou escassez, nas vicissitudes quotidianas.

Nós, comuns mortais, mais do que os mercados bolsistas, sujeitos a sobressaltos e flutuações, somos diariamente assoberbados por preocupações, incertezas e desaires, sobrecarga de tarefas e também de expetativas. Talvez o comprimido mágico capaz de devolver o desejo sexual às mulheres não passe de um mito, uma fantasia idealizada. No início da década havia vozes a apontar o dedo às autoridades reguladoras por terem dois pesos e duas medidas e desvalorizarem as necessidades no feminino mas o tempo parece mostrar que a questão transcende questões políticas e financeiras.

Era do pós-comprimido

Na altura da aprovação do Addyi nos Estados Unidos, os especialistas portugueses fizeram saber que, contrariamente a outros antidepressivos, este não tinha a desvantagem de reduzir a líbido. Daí a ser uma solução inócua para a prontidão sexual, vai um hiato muito grande. Irrealista, mesmo, se tivermos em conta que o desejo não se confina à genitalidade e à excitação física e não encaixa na lógica do “coito e já está”.

Agora, que voltaram a surgir notícias sobre o assunto na imprensa americana, o comprimido cor-de-rosa continua a não passar de uma ficção, ou de um equívoco. “Não há um medicamento para a falta de desejo feminino, existe, sim, um antidepressivo comercializado nos EUA e nada mais”, sintetiza a investigadora, psicóloga e terapeuta sexual Gabriela Moita. O INFARMED confirmou que “não existe presentemente pedido de autorização de introdução no mercado na Agência Europeia do Medicamento”. Na prática, o comprimido para a falta de apetite sexual não existe, nem o apetite é um sinónimo de fome: esta sacia-se com o que houver, o apetite não. Ter vontade (e não fastio) de ir ao encontro da experiência e desfrutá-la implica disponibilidade e, para muitas mulheres, ser cativada, à semelhança do que sucede na história do Principezinho. Haverá comprimido para isso?