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"Manual de instruções" para sexo sem medo depois dos 50

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Do recém-lançado livro da jornalista Vera Valadas Ferreira 50 Sem Medos, que junta 17 figuras de diferentes áreas para explicar "como tirar partido da década mais importante da sua vida", publicamos o capítulo assinado pelo sexologista clínico Vasco Prazeres

AMOR & SEXO

Reaprender a viver a intimidade a dois, com mais rugas, sem filhos em casa, com um novo companheiro ou com consciência do fim da idade fértil pode ser um álibi para não se expressar sexualmente ou, pelo contrário, um desafio libertador face às amarras de uma sociedade carregada de simbologias do género.

Vasco Prazeres é assistente graduado sénior de Medicina Geral e Familiar e Sexologista Clínico. Nascido em Lisboa em 1955, trabalha há largos anos na Direção Geral de Saúde em programas sobre sexualidade e reprodução.

Tem vários livros publicados e assina crónicas para várias revistas.

Um universo de diferenças

Há marcadores biológicos inerentes à menopausa que, na grande maioria das mulheres, têm de facto um impacto acentuado na expressão da sexualidade. Nos homens, as alterações nesta faixa etária estão mais relacionadas com as vivências.

Há uma coisa muito perigosa na abordagem deste tipo de assunto: a generalização. Temos uma tendência enorme para generalizar. E, depois, a vida íntima varia muito de pessoa para pessoa, dependendo da idade. Há muitas outras determinantes no comportamento sexual que vão para além daquilo que é o momento do ciclo de vida, fundamentalmente em termos de resposta e capacidade biológicas, e também do momento do ciclo na vida de relação, na vida com os outros, na vida pessoal, profissional, familiar, etc. E, por isso, tenho sempre alguma dificuldade em ter um discurso muito absoluto a propósito do sexo aos 20, aos 30, aos 50. É muito variável. A referência dos 50 em relação às mulheres fará sentido. Porque outra das diferenças que muitas vezes se estabelece é entre o mundo do sexo feminino e o mundo do sexo masculino. Mas há tantas ou mais diferenças dentro do sexo feminino e dentro do sexo masculino como diferenças entre um e outro sexo. Não estou certo de que seja uma faixa etária estudada muito aprofundadamente. Em relação às mulheres, fala-se sobretudo no fenómeno da menopausa. Como é o sexo antes? Como é o sexo depois? Claro que aí, sim, há marcadores biológicos que, na grande maioria das mulheres, têm de facto um impacto acentuado na expressão da sexualidade. Nos homens, muito menos. No caso deles, as consequências de se ter 45 ou ter 55 anos depende das vivências, do percurso até aí, e não de um novo elemento físico que marca uma mudança corporal e, por via disso, também a própria vivência. A própria forma como as pessoas vivenciam essa alteração vai ter expressão na sexualidade.

Reaprender a viver a intimidade

Perante um ninho vazio, o casal volta a confrontar-se um com o outro em exclusividade no ambiente familiar. Algo que condicionaria de alguma maneira a sexualidade, tanto no sentido positivo como negativo, deixa de estar presente.

Os 50 anos têm um impacto diferente nas mulheres e nos homens, tanto sob o ponto de vista físico, como simbólico, e, por via disso, muita coisa se pode alterar também. Acresce o facto de ser mais ou menos por esta altura na vida dos casais que aqueles que têm filhos ficam sozinhos em casa. Os filhos deixam de estar na redoma familiar. A síndrome do ninho vazio também pode eventualmente ter algum impacto na expressão da sexualidade, positivo ou negativo. Se calhar, a presença dos filhos em casa, para algumas pessoas, é inibitória da sexualidade. Para outras, pode constituir um bom álibi para não exprimirem a sexualidade. O facto de o casal voltar a confrontar-se um com o outro em exclusividade no ambiente familiar e de intimidade, em alguns casos pode ser bom, em outros pode ser terrível. Porque algo que condicionava de alguma maneira a genialidade, tanto no sentido positivo como negativo, deixa de estar presente, pelo que as pessoas têm de reaprender a viver a intimidade onde a vida sexual se encaixa. Acho que os condicionantes da expressão da sexualidade têm muito a ver com isto. Além daquilo que é a ditadura do género, da forma como o género e a ideologia de género ainda afetam a vida íntima das pessoas. Afetam e hão de afetar sempre, para o bem e para o mal. A expressão da sexualidade não é apenas uma questão de dotes físicos, nem de ligação emocional. É um mundo que carregamos às costas de simbologia e de investiduras. Enquanto homem, devo comportar-me assim; enquanto mulher, devo comportar-me assim. É só irmos à literatura. Já para não falarmos das grandes amarras à expressão da sexualidade que a nossa cultura tem imposto às mulheres em geral. Essas amarras ainda são mais fortes depois da fase fértil das mulheres.

Depravadas, loucas e taradas

Lá porque uma mulher perdeu a capacidade fértil, não quer dizer que não precise de exprimir a sua sexualidade. Nesta sociedade carregada de simbologias, quando, após os 50, não se perdeu o interesse pelo sexo, eles são uns “ valentes” e elas, umas “levianas”.

Ao passar a barreira da capacidade fértil, tradicionalmente pensa-se que as mulheres já não precisam de exprimir a sua sexualidade. E, portanto, as que o fazem e de uma forma prazenteira continuam a ser tidas, em muitos contextos e grupos sociais, como depravadas, loucas, taradas, levianas ou velhas gaiteiras, sobretudo quando aparecem muito exuberantes e ainda tentando preservar o viço e a atratividade sexual. Para os homens, a mesma situação tem um impacto diferente, porque esse comportamento é até elogiado. “Ah, valente, ainda está ali para as curvas!” Em relação aos 50 anos, há um fenómeno sobre o qual acho importante também falar-se e que deve ser levado em conta, e que, nos dias que correm, acaba por ser mistificado: é sabido que as mulheres passam por uma fase em que entram no climatério, na menopausa, que tem um marco biológico. A mulher deixou de ser fértil, deixou de poder ovular, deixou de menstruar. Num determinado momento, acabou, esgotou. O percurso do envelhecimento dos homens é diferente, é algo gradual, que não tem um marcador biológico definido. Os homens vão envelhecendo em todos os aspetos da sua biologia e da sua fisiologia, também no aspeto sexual. Mas agora criámos essa figura fantástica que é a andropausa, algo que não existe. Porque aquilo que caracteriza a menopausa é a cessação da fertilidade, ponto final. Ora, não há nenhum momento na vida dos homens em que isso aconteça assim, com um marcador. Os franceses utilizam uma terminologia interessante que é a androcurva, uma curva decrescente onde, de facto, não há uma barreira. Os homens vão ficando velhos ou, se quiserem, para não ficarem muito preocupados, vão ficando cada vez mais maduros. As mulheres também, mas há um marcador biológico: a quebra brutal da produção de estrogénio. Isso tem implicações a vários níveis, quer na fecundidade, quer, em algumas mulheres, na própria expressão da sexualidade. Mas noutras, isso é compensado pelo facto de não terem a carga do risco de gravidez, de estarem finalmente donas e senhoras de si próprias porque não têm os filhos em casa, ou porque se divorciaram ou reconstruíram a vida.

O tempo também importa

Frequentemente, com o caminhar dos anos, não é o desempenho sexual que se altera ou é perturbado, é o desejo. Numa relação continuada, aos 50 anos sabe-se o que dá prazer ao outro mas, se a relação for recente, a descoberta volta ao princípio.

Outro componente que não pode ser menosprezado na expressão da sexualidade é o tempo de relacionamento entre as pessoas. É possível – mas, se calhar, não será o mais frequente – alguém ter uma relação conjugal de 20 ou 30 anos em que, só porque biologicamente houve esse marco, as coisas passem a ser extraordinárias ou passem de repente a ser muito más. Regra geral, há percursos de vivência gratificante da sexualidade ou de vivência terrível, mas sem sofrerem uma mudança drástica. Pode melhorar, pode piorar, mas não se passa de repente de uma coisa para a outra. Estou a falar de uma relação prolongada. Agora, se os relacionamentos forem mais sequenciais, eventualmente até concomitantes, e se incluírem uma vida sexual plena, umas vezes os relacionamentos são bons, outras vezes são maus, e as coisas não se colocam em termos de percurso. Pode ser boa com esta pessoa e não o ser com outras. Numa relação continuada, aos 50 anos eu saberei o que dá prazer ao outro mas, se a relação for recente, a descoberta volta ao princípio. Teoricamente, é uma fase da vida com grande potencial, mas também há quem diga que é mais do mesmo, que é sempre igual, que se é mais experiente mas que o entusiasmo já não é o mesmo. Uma das coisas que acontece frequentemente com o caminhar dos anos não é o desempenho alterar-se ou ser perturbado, mas o desejo. Mas, nos dias que correm, o desejo também está frequentemente comprometido entre os mais jovens, com a loucura de vida social – as saídas, os encontros – e a vida profissional – a ausência de horários –, o que não deixa muito espaço para a intimidade. Muitas vezes, não há espaço e tempo para começar a treinar a calma, para as pessoas se conhecerem de facto. Hoje é frequente, até mesmo em idades muito jovens, não se ter múltiplas experiências de encontros sexuais, mas múltiplas experiências de vida de casal, em sequência. E talvez não haja muito espaço para descobrir aquilo de que o outro gosta, o que o outro quer. E depois há uma coisa terrível: quando essas aprendizagens estão feitas, é a própria biologia que muitas vezes vai mudando. E, portanto, não é uma questão de “finalmente conhecemo-nos e isto vai correr tudo bem”. Conhecemo-nos, e as próprias capacidades físicas vão mudando. Falo de capacidade de reação. A resposta sexual vai mudando. O estado de espírito e alguns acontecimentos da vida condicionam também a expressão da sexualidade, mesmo quando as pessoas em tese se conhecem muito bem. Claro que um casal de 50 anos com 20 anos de vida em comum se conhece muito melhor, tem a vida organizada, tem boas condições para viver a intimidade em casa e para viajar, descobrir coisas novas, interesses novos. Mas estão juntos há 20 anos e já não há entusiasmo. Logo agora que a vida ia ser uma maravilha, sem miúdos a interromper durante a noite, com trabalhos em velocidade de cruzeiro e já a pensar no que vão fazer daqui a uns anos, quando se reformarem. Está tudo ótimo mas a coisa já não dá “pica como se diz. O que fazer?

A gratificação do que não é imediato

Tradicionalmente, nos homens, a quantidade é o ceptro da masculinidade. Mas nos últimos tempos as mulheres assumiram-se como mais predadoras. Em ambos os géneros, a maturidade permite retirar de cada momento íntimo significativo uma satisfação muito mais alargada.

Aos 50 anos, damos mais importância à qualidade do sexo do que à quantidade? Em tudo na vida, a maturidade ajuda-nos a saber retirar dos momentos que são significativos gratificação muito mais alargada do que apenas a concretização de qualquer coisa no imediato e que amanhã vamos repetir e vai ser giro outra vez e vamos continuar assim. Se calhar, cada um desses momentos tem mais significado do que noutras fases da vida, onde é a sucessão de momentos que interessa, estar a partir de imediato para outro momento bom. Tradicionalmente, nos homens, a quantidade é o ceptro da masculinidade. Todos nós fomos educados um pouco nesse sentido. Rapazes, na quantidade, e as meninas, na qualidade, associada ao afeto, ao amor, à paixão, etc. E isso está em transformação, a sociedade está em transformação para uma quase-equalização de objetivos. Se há algo que caracteriza as últimas décadas, é a aproximação em comportamento das mulheres aos homens. A mulher ganhou um protagonismo na sociedade que tem a ver com uma correlação de poderes. E passou a demonstrá-lo através dos sinais tradicionais de detenção do poder: o dinheiro e o poder sexual. Quanto mais as mulheres se tornam predadoras, mais elas têm poder decisório e autodeterminação. Em relação aos homens – naquilo que era tradicional em relação à sua sexualidade e que era símbolo do poder, a sua capacidade de serem predadores -, agora que as mulheres também conseguem ser predadoras, eles podem encontrar uma válvula de escape e não fazer tanta gala em mostrar quantidade, mas tentarem antes afirmar-se pela qualidade. Uma vez que a sexualidade é agora discutida mais abertamente, é mais fácil para um homem admitir sentimentos do que dantes. Já não estão tão aprisionados pela obsessão de demonstrar quantidade e superioridade. Sempre tive consciência de que o discurso público dos homens e aquilo que me confessam em consulta sobre a sua intimidade são muito diferentes. Mas a ideia de que as mulheres são agora predadoras também pode ser um discurso. Até que ponto as coisas funcionam realmente assim na intimidade? Será que elas estão, de facto, mais predadoras, ou estão a baixar a resistência a outros predadores, partindo do princípio de que esse facto, por si só, as torna predadoras? “Como eu permito, sou eu que...” Hoje, a maior parte dos homens sente-se posta em causa quando sente quando as mulheres tomam a iniciativa. Para muitos homens, não é fácil serem predados, porque ficam sem referências. A aprendizagem faz-se pela teoria e prática da sedução, do convencimento. Foi assim que os homens aprenderam a ligar-se às outras pessoas. Quando esse paradigma é invertido, muitos homens sentem-se ameaçados na sua masculinidade, porque não são eles a tomar a iniciativa e a conquistar.

A sexualidade dos nossos pais

Quando somos muito novos, temos tendência para nem sequer conceber o que será a sexualidade das pessoas mais velhas, é algo que não existe. Mas quando vamos caminhando na idade, aí percebemos: “Bom, isto é possível, isto acontece!”

Cinquenta anos são muitos anos! É meio século. Às vezes, não nos apercebemos disso. Quando somos muito novos, temos tendência para nem sequer conceber o que será a sexualidade das pessoas mais velhas, é algo que não existe, é um tabu. Nomeadamente nas mulheres. No fundo, trata-se da dificuldade que temos em conceber a sexualidade dos nossos pais, algo que acho que não nos entra na cabeça em idade nenhuma. Mas quando vamos caminhando na idade, aí percebemos: “Bom, isto é possível, isto acontece!” Aquilo que eu pensava antes, afinal não é bem assim. Mas os que vêm logo atrás de nós continuam a não conceber que isso possa acontecer. Todas as manifestações da nossa vida acabam por ser um pouco mais pausadas. Não quero com isto dizer que sejam mais programadas ou pensadas, mas tudo o que nos acontece na vida vai acontecendo com menos frenesim. Agora, não sei se a qualidade das relações é melhor ou pior. Talvez tudo tenha os seus momentos próprios. O facto de tudo ser vivido com mais intensidade nas idades mais jovens é bom. Eventualmente, não seria tão bom fazerem-se as coisas pelos mesmos padrões das pessoas com mais décadas de vida. Qualquer um de nós, aos 20 anos, corre muito mais depressa, tem muito mais resistência do que aos 50, 60 ou 70. É assim em tudo na vida, porque não haveria de o ser na sexualidade? Se é bom correr devagar quando se tem 20 anos? Se as pessoas quiserem, é. Mas a maior parte das pessoas não quer, porque tem outras potencialidades e quer correr mais depressa, quer correr mais vezes. É uma questão de adaptação e de descoberta. Na sexologia, temos a noção tradicional, em termos de patologia, de que a ejaculação precoce é característica dos novos, e a disfunção erétil é característica dos mais velhos. Talvez até seja verdade em muitos casos, mas frequentemente a ejaculação precoce conduz a uma disfunção erétil, pela ansiedade de desempenho ou, pelo contrário, o medo da disfunção erétil e o medo de não conseguir levar uma relação até ao fim faz com que surjam outros problemas. Separar a vida antes dos 50 e depois dos 50, a.C. e d.C., é muito artificial, é um discurso de capa de revista.

Refazer a vida amorosa

Perante uma separação tardia, a mulher subsiste melhor sozinha porque, em termos de vida prática, está habituada a fazer tudo. Já um homem sozinho, coitado, não se aguenta, portanto precisa de alguém. O período de nojo é, tendencialmente, mais prolongado nas mulheres, sobretudo entre aquelas que ainda não desistiram do Príncipe Encantado.

É verdade que muitas vezes as pessoas refazem as suas vidas amorosas nesta idade. Quando isso acontece, é muito frequente haver um período de nojo mais prolongado nas mulheres do que nos homens. Provavelmente devido à aprendizagem que fazem desde muito novos, nos homens, mais relacionada com a quantidade e, nas mulheres, com a qualidade. É a questão do Príncipe Encantado, que, muitas vezes, nem era príncipe, nem era encantado, mas idealizado. Nos homens, essa preocupação é menos afinada, até para exercer a sua masculinidade. “Não tenho problemas. Separei-me mas rapidamente sou capaz de estabelecer outra relação, de conquistar outra pessoa.” Isso acontece quando é a mulher quem toma a iniciativa da separação, porque, aí, o homem ainda tem uma tendência acrescida para aparecer com outra pessoa o mais rapidamente possível, até socialmente, para não acharem que se foi abaixo. Em relação às mulheres, há um condicionalismo muito maior, até como forma de defesa. “Sou completamente autónoma, não preciso disso, não me vou meter noutra.” E também há o discurso habitual que tem a ver com um certo pragmatismo da vida: a mulher subsiste sozinha porque está habituada a fazer tudo, um homem sozinho, coitado, não se aguenta, portanto precisa de alguém.

A sedução como prova de vida

Uma vez que vivemos até mais tarde, é-nos mais fácil aceitar a paternidade, e até a maternidade, em idades mais avançadas. Isso também pode acontecer devido a uma reconstituição familiar.

Em consulta de sexologia, tenho alguma experiência de pacientes homens, nesta faixa etária, com uma preocupação extrema em não se irem “abaixo das canetas”, porque as companheiras são muito mais novas. Para alguns homens, o facto de serem, por exemplo, pais aos 50 anos, torna-se uma prova de vida, digamos assim. Uma vez que vivemos até mais tarde, é-nos mais fácil aceitar a paternidade, e até a maternidade, em idades mais avançadas. Isso também pode acontecer devido a uma reconstituição familiar. Sobre a tendência para os homens mais velhos se aproximarem de mulheres mais jovens, há quem aponte para teorias de biologia, relacionadas com a capacidade reprodutora das mulheres cessar em determinada altura. Logo, os homens, porque são reprodutores, terão tendência para se relacionarem com mulheres ainda reprodutoras. Acho que não tem tanto a ver com isso, mas sim com o facto de, simbolicamente, “um homem que é muito homem” ser capaz de conquistar mulheres jovens. Porque consegue fazer prevalecer o seu poder, o seu charme. É capaz de ainda conquistar mulheres em muito boa idade, não fica com – e isto pode soar muito bruto ou grosseiro – “o refugo”, com “o que sobrou, porque já está fora de prazo”. Dá muito melhor impressão passear com uma jovem loira de olhos azuis, alta, espadaúda, bem-feitinha, do que com uma mulher madura, com rugas. Já com as mulheres, pela lógica tradicional, um homem maduro tem outro encanto, é protetor. Essa lógica se calhar ainda subsiste em muito núcleos

Não há medicamentos para gostar do outro

“Quero, mas não consigo”, ou “quero, mas acabo rapidamente”: estes dilemas que podem assombrá-lo nesta faixa etária podem ser minorados com recurso a fármacos. Mas ainda não foi inventado um comprimido para o desejo e a atração.

Basta que um homem ou mulher se sinta derrotado por ter de recorrer a subterfúgios para colmatar uma falha que dantes não existia para isso, por si só, condicionar a expressão da sexualidade. Não nos podemos esquecer de que não há medicamentos para o desejo, nem para a atração. Os medicamentos para os homens – quer para a ereção, quer para prolongar o tempo de ereção – atuam, mas só quando há desejo, não criam vontade. Essa é uma condição básica. Os problemas do género “quero, mas não consigo’ ou “quero, mas acabo rapidamente” podem ser minorados com recurso a medicamentos, mas não há medicamentos para gostar do outro, para querer o outro. Em relação às mulheres, é ainda mais difícil porque, além da medicação para melhorar as condições da penetração após a menopausa, pouco mais há em termos de medicação específica para a sua sexualidade. Não admira, porque são décadas a investigar o problema dos homens, a ereção. A questão de “conseguir” tem a ver com os homens; as mulheres estão... disponíveis. Isso remete para uma outra questão, que é frequentemente ignorada: o fingir, a simulação. Um homem não pode simular uma ereção: ou tem ou não tem. É objetivável, até podemos dizer que é palpável. Uma mulher pode simular. Um dos momentos mais complicados que tive em consulta foi uma senhora confessar que há muitos anos que fingia que tinha prazer com o marido mas não tinha, era só para ele não se sentir mal pois gostava tanto dele. Isso é devastador. Os brinquedos sexuais podem dar um bocadinho de sal e pimenta às relações. Se forem eles aquilo que dá mais sal e pimenta nas relações significa que elas são muito pobres. Quando se começaram a utilizar medicamentos tipo Viagra não se imagina o peso que isso veio causar para muitas mulheres que há vários anos se tinham libertado de ter um bruto lá em casa, que várias vezes por semana abusava delas e que tinha deixado de o fazer por ter perdido essa capacidade. Teoricamente, e na prática, ainda bem que há medicamentos e brinquedos, mas isso muitas vezes não é um bem absoluto.

Um grupo com comportamentos de risco

As pessoas que, nesta fase da vida, partem para múltiplas relações instáveis ou que, tendo uma relação fixa, onde se instalou a monotonia, procuram validar o seu charme sexual junto de terceiros, ou recorrendo a outras práticas, correm o perigo de contrair doenças sexualmente transmissíveis.

Esta faixa etária tornou-se um grupo de risco de contração de doenças sexualmente transmissíveis pela mudança dos padrões de comportamento. Aqui, funciona ao contrário a teoria de ser bom chegar-se à maturidade e ser-se capaz de usufruir de uma relação com mais qualidade: isso é verdade para quem tem alguma estabilidade na sua vida sexual, para quem tem um parceiro fixo. Mas para aqueles em mudança de ciclo, para as pessoas que partem para outra relação ou outras relações, ou que, tendo uma relação fixa, sentem monotonia, ou ainda que, quando começam a perder a capacidade sexual, têm tendência para ir descobrir se funciona com outra pessoa, aí, sim, existe um risco acrescido. Até porque, muitas vezes, o momento em que as coisas ocorrem é inusitado, não é programado. Também pode haver risco de transmissão de doenças porque as práticas sexuais podem mudar, mesmo dentro de uma relação duradoura. Outra coisa que acontece quando se instala a monotonia é alguns casais, nomeadamente de alguns grupos socioeconómicos urbanos, experimentarem trocar com outros casais. Essas mudanças de ciclo de vida podem tornar as pessoas mais vulneráveis. A certa altura, começou-se a perceber que muitas mulheres com uma idade mais avançada eram seropositivas, mesmo quando o seu único parceiro sexual tinha sido o marido de várias décadas, precisamente porque ele tinha andado a testar a sua virilidade por outros mundos.

50 Sem Medos

Manual de instruções

Vera Valadas Ferreira

Livros Horizonte, Lda

2018