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Razões que nos levam a fazer (ou não) exercício físico

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O que mostram os estudos, o peso da motivação e das crenças na balança das prioridades e como criar a rotina certa para si, sem radicalismos

Clara Soares

Clara Soares

Jornalista e Psicóloga

“Não posso ouvir falar de exercício nem de dietas.” Mal começa a primavera e o tempo convida a sair à rua, sem casacos ou sobretudos, começa também a tocar a campainha interna de alarme. “Tenho que…” A simples ideia de dever desperta reações de recusa e resistência. No pólo oposto, a obsessão pelo corpo perfeito (e a definição é tão subjetiva como varia ao sabor das estações e modas) leva a que muitos se obriguem a cumprir metas, com frequência irrealistas, em nome de corresponder ao formato que há-de conduzir (será mesmo assim?) a outras conquistas, especialmente na época estival.

Vista assim, a ideia de fazer exercício parece bastante desoladora, qual tormenta ou sacrifício condenado a não ter os resultados pretendidos ou, pior ainda, a ser impossível de realizar, por razões tão aceitáveis como horários de trabalho longos, filhos para ir buscar e cuidar logo a seguir (mais as tarefas domésticas), falta de orçamento e, por fim, falta de hábito, de gosto ou de motivação, que facilmente se confundem com preguiça, ignorância e desleixo.

Na primeira edição do Observador Cetelem Exercício e Alimentação Saudável, publicada este mês, foram apuradas as razões que levam os portugueses a serem praticantes, ou nem por isso. Numa amostra representativa de 600 pessoas com idades entre os 18 e os 65 anos, o estudo permitiu concluir a maioria o faz em função da pressão para manter a forma, a par de outras razões, mais internas mas não menos importantes, como promover a saúde e combater o stress.

A maioria dos adeptos (63%) dedica duas a quatro vezes por semana ao treino. Os homens levam a melhor sobre as mulheres (58%) e, a partir dos 45 anos, cerca de metade (49%) admite não praticar de todo. Se no primeiro caso ainda é regra serem elas a cuidar da casa e dos filhos, no segundo parecem ganhar relevância as questões geracionais. Quanto aos motivos para o ‘sim ou sopas’, aqui fica a síntese das respostas:

Razões para fazer

TOP 3

76% Manter a forma / aparência

37% Por fazer bem à saúde

36% Pelo efeito anti stress

Outras

23% Por diversão

12% Pertença a grupo / reforço de laços sociais

Razões para não fazer

TOP 3

57% Não ter tempo

38% Falta de vontade

33% Não gostar

Outras

12% Não ver resultados

8% Não ter companhia

6% Ter filhos

Na dose certa

Se pertence ao grupo daqueles que voltam as costas à prática desportiva, saiba que o Center for Disease Control and Prevention (Centro de Controlo de Doenças americano) recomenda que se faça sempre atividade física, pelos ganhos em saúde, com as devidas adaptações. Por exemplo, se tem tido uma vida sedentária ou está a recuperar de um enfarte, começar devagar e ir aumentando o nível à medida que se sente confortável garante que deixará de sentir insegurança ou medo de sofrer lesões.

Para que tudo corra pelo melhor, não se esqueça que os exercícios de aquecimento antes e os de alongamentos no final fazem maravilhas. De acordo com a mesma fonte, até mesmo quem sofre de artrite melhora o estado de saúde se não ficar inativo: uma hora semanal de exercício aeróbico de intensidade moderada já se traduz em benefícios, embora os estudos mostrem que duas horas e meia de atividade semanal com baixo impacto permite fortalecer ossos, músculos e articulações, contribuindo para ter menos dor e melhor qualidade de vida.

Tendo companhia, melhor ainda: no mínimo, ganhará o hábito e terá mais dopamina e serotonina a circular no cérebro e, consequentemente, o seu humor agradece e o sistema imunitário também, já que fica mais equipado para lidar com o stress.

O que funciona

Se a sua motivação for externa, dizem os estudos de psicologia da saúde, a probabilidade de não aderir ou de desistir é mais elevada. Ou seja, se for para o ginásio perder calorias a todo o custo, sem ter em conta o que come, quanto tempo dorme e contrariado, apenas para ficar com uma aparência que confira vantagem na arena competitiva do seu local de trabalho, haverá sempre uma parte da sua mente que boicotará os seus melhores esforços. O mesmo se aplica ao imperativo da boa forma em nome do que se espera dela, seja sucesso no campo amoroso ou aumento do círculo de amigos, por exemplo. Já o fazer exercício por si, ou com motivações intrínsecas - para prevenir doenças, aumentar a resistência e sentir-se bem - é mais sustentável enquanto catalisador de uma prática regular e com resultados realistas.

Se alguém puder ficar com os seus filhos ou familiares a seu cargo, melhor ainda. Em ginásio low cost, a dar voltas ao quarteirão ou em casa, os ganhos são sempre a somar, sem agarrar-se à crença falsa de que apenas quem pode pagar a um personal trainer e tem tempo livre ou não precisa de trabalhar nem cuidar da família é que se pode dar ao luxo de manter a forma e ter saúde.

Se, mesmo assim, tiver dúvidas quanto a isto, saiba ainda que o American Council on Exercise (ACE) considera que, para ter impacto positivo no seu quotidiano, meia hora de exercício moderado por dia ou, pelo menos, em três dias da semana, são suficientes para que note a diferença. Para melhor.