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O multitasking pode, afinal, reduzir a produtividade

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D.R.

Fazer duas ou três coisas ao mesmo tempo é sinal de eficiência e ainda poupamos uns minutos? Um estudo norte-americano descobriu que o multitasking pode reduzir a produtividade, em vez de a aumentar

Ser capaz de fazer várias coisas ao mesmo tempo parece ser o epítome da eficiência. Porquê fazer apenas uma coisa de cada vez quando podemos fazer várias e despachá-las de uma vez? Apesar de em teoria esta ideia fazer sentido, na prática não é bem assim. Um grupo de investigadores da Universidade do Michigan, nos EUA, descobriu que os multitaskers podem, na verdade, ser menos produtivos que aqueles que fazem uma coisa de cada vez.

E a culpa, dizem, está no tempo acumulado que se perde na troca de tarefas.

Para chegar a esta conclusão, os investigadores conduziram quatro experiências nas quais um grupo de jovens adultos deveria completar uma série de tarefas, alternando-as. As tarefas variavam de complexidade e podiam ir desde a identificação de objetos geométricos à resolução de equações matemáticas.

Durante o estudo, publicado no Journal of Experimental Psychology: Human Perception and Performance, os investigadores identificaram dois processos pelos quais o cérebro passa quando troca de tarefas: a alteração de objetivos e a ativação de regras.

O primeiro processo envolve a escolha ativa de se mudar de tarefa, como se o cérebro dissesse "quero fazer isto em vez daquilo". Já o segundo, passa por "desligar" um conjunto de "regras" cognitivas associadas ao desempenho de uma tarefa e "ligar" as regras para a próxima.

Os investigadores repararam que, sempre que os participantes trocavam de tarefa, era perdido algum tempo até que a outra começasse a ser feita. Além disso, quanto mais complicadas eram as tarefas - e menos familiarizados os participantes estavam com estas – mais tempo se perdia.

Embora estes tempos mortos fossem muito reduzidos só por si, quando somados, em pessoas que trocavam continuamente de tarefa, afetavam a eficiência geral de ambas as tarefas. Por outras palavras, quanto mais se queria fazer ao mesmo tempo, menos se fazia.

Não é a primeira vez que este tema é abordado pela ciência. Um outro estudo norte-americano da Universidade de Stanford vai ao encontro do descoberto em Michigan, alegando que os multitaskers têm períodos de concentração menores que aqueles que preferem fazer uma coisa de cada vez.

Após uma experiência que colocou 100 alunos face a uma série de testes, um grupo de cientistas sociais da universidade concluiu que aqueles que tentaram resolver alguns testes em simultâneo eram facilmente distraídos e tinham pouco controlo sobre os seus níveis de atenção, em comparação com aqueles que completaram um teste de cada vez.

Outro estudo da Universdade de Sussex, no Reino Unido, chega a propor que o multitasking pode mesmo obstruir determinadas funções cerebrais. Várias ressonâncias magnéticas feitas a pessoas que passavam muito tempo a usar dois ou mais dispositivos eletrónicos em simultâneo (a ver televisão e a usar o telemóvel ao mesmo tempo, por exemplo), indicaram que estas pessoas – os chamados "media multitaskers" - tinham uma menor densidade de massa cinzenta no cérebro. Menos massa cinzenta é sinónimo de um menor controlo cognitivo e de uma maior probabilidade de ter períodos concentração muito baixos.

Portanto já sabe, caro leitor. Se alguma vez voltar a ouvir alguém vangloriar-se de ser capaz de fazer várias coisas ao mesmo tempo, lembre-se do que diz a ciência (e a sabedoria popular): quanto mais depressa, mais devagar.