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Misturar yoga com acrobacias? Conheça o acroyoga

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Diana Tinoco

O yoga vai além da meditação introspetiva e também pode ser sinónimo de exercícios acrobáticos em ambiente descontraído. Chamam-lhe acroyoga – a atividade certa para fazer amigos

Vânia Maia

Vânia Maia

Jornalista

À primeira vista, pode parecer o ensaio de um grupo de acrobatas circenses descontraídos e bem-dispostos mas, aqui, o espetáculo acontece dentro de cada um. De repente, o espaço da associação cultural Pessoa e Companhia, em Lisboa, torna-se exíguo para acomodar o grupo de seis pessoas, além da professora, que faz exercícios de aquecimento antes de se lançar em altos voos.

Nem sempre é fácil não derrubar candeeiros ou livros com o entusiasmo de experimentar novas posições acrobáticas. Autointitulam-se acroyoguins ou, carinhosamente, acromonkeys. A maior parte descobriu o acroyoga através de vídeos na internet, mas também há quem se tenha impressionado com grupos de praticantes nos jardins da cidade. “As pessoas aproximam-se quando nos exercitamos na rua, fazem perguntas e dizem que só vieram ver mas, depois, a vontade de experimentar é irresistível”, conta Manuel Mendonça, 36 anos, praticante regular de acroyoga há quase um ano.

Há quem situe as origens do acroyoga no início do séc. XX, devido a uma fotografia em que o mestre Krishnamacharya faz posições acrobáticas com uma criança apoiada nas suas pernas. 
O retrato data de 1938. No entanto, a corrente mais popular foi fundada por dois norte-americanos, em São Francisco, há pouco mais de uma década. Acrobacias, massagem tailandesa e, claro, yoga, são as palavras-chave do acroyoga.

“Eu nunca gostei muito de yoga porque me parecia muito parado, mas o acroyoga é muito desafiante”, afirma a italiana Carlota Gennari, 24 anos, estudante do programa de intercâmbio Erasmus, que descobriu o grupo através das redes sociais. 
A maior parte dos elementos não se conhecia antes de começar a treinar acrobacias em conjunto. Entretanto, já nasceram várias relações de amizade, revela outra das atletas do grupo, Bárbara Morais, 43 anos. “O acroyoga faz-me ultrapassar os meus limites e perder medos”, revela. “À medida que vamos conseguindo ir mais além torna-se viciante”, avisa. Os benefícios da modalidade também se manifestam no quotidiano: “Quando aparece algum problema, respiro fundo, e penso que se consigo fazer exercícios de cabeça para baixo também consigo resolver a questão!”.

Meditar em equipa

A resposta de Bárbara Morais dificilmente surpreenderia o professor de yoga e de acrobacia aérea Rui Oliveira Costa, 51 anos. “O acroyoga desenvolve a capacidade de nos desafiarmos e põe-nos a fazer coisas que não imaginávamos possíveis”, diz, nas luminosas instalações do Jaya Aerial Lab, em Lisboa, do qual é diretor. 
O aquecimento do acroyoga faz-se, muitas vezes, com exercícios de yoga, mas não é fundamental ser já um praticante. Essencial é a atitude. “A interação não é voltada para o espetáculo, nem competitiva: é colaborativa”, distingue o especialista em acroyoga.

Idealmente, a modalidade deve ser praticada em grupos de três pessoas. O “base” fica deitado sobre um tapete e cabe-lhe elevar o “voador” (flyer) nas mais diversas posições que estimulam o equilíbrio, a flexibilidade e a força. Há ainda um terceiro elemento, o spotter, que dá segurança ao “voador” evitando quedas. Habitualmente, os praticantes vão trocando de posições. É essencial experimentar com um professor ou um atleta experiente. No final das sequências acrobáticas, o “voador” agradece ao “base” com uma massagem tailandesa para aliviar a tensão e alongar os músculos que estiveram em esforço.

É este trabalho de equipa que distingue especialmente o acroyoga. “A prática ideal do yoga é individual, enquanto no acroyoga existe um sentido de comunidade muito grande”, acrescenta Rui Oliveira Costa. O ex-designer gráfico, que há oito anos decidiu deixar de ser “escravo informático”, confessa que há situações caricatas nas aulas quando se experimentam figuras mais complicadas, e isso contribui para um ambiente bem-disposto. Além disso, destaca o “respeito enorme” entre os praticantes que estão em constante contacto físico.

O também professor de yoga e acroyoga Manuel Rodrigues, 33 anos, alerta que alguns casais podem ter dificuldades em trabalhar em equipa no início, “mas depois aprendem a comunicar muito melhor.”

Os exercícios permitem descomprimir o corpo em suspensão, fortalecem ossos e músculos, aumentam a força e a flexibilidade, e beneficiam o bem-estar e a autoestima. “Esta modalidade ensina as pessoas a acreditarem mais em si e nos outros porque é preciso confiar plenamente nos pares”, acrescenta Manuel Rodrigues, que dará um workshop de acroyoga a 25 de fevereiro, em Lisboa.

Bruno Cruz, 35 anos, professor de yoga e praticante de acroyoga, alerta para o facto de “tudo se complicar se as pessoas experimentarem a medo.” Afinal, diz, “é preciso confiar para conseguir tirar os pés do chão.” Conheceu vários parceiros de treino através das redes sociais – há dois grupos especialmente ativos, o Acro Monkeys Lx e o Acroyoga Lisbon – e já fez vários amigos entre eles. Também Filipe Santos, 39 anos, que fez parte da organização do primeiro festival de acroyoga de Portugal, realizado no ano passado em Abrantes, destaca as relações fomentadas pela modalidade, com os outros e consigo mesmo. “Há quem se confronte com medos que desconhecia e coragens que não sabe de onde vêm.”

Deste confronto, nasce uma espécie de recreio para crescidos. Rui Oliveira Costa explica o paralelismo: “À medida que se perde o medo, assume-se cada vez mais o papel da criança que goza inteiramente o momento.” Uma criança com alguma paciência, já que nem todas as figuras se fazem à primeira.

A associação à infância também agrada a Egle Genova, 22 anos, a jovem professora italiana que guia a aula no espaço exíguo da associação cultural Pessoa e Companhia. Está em Portugal ao abrigo do programa Erasmus, a estudar medicina, mas pondera seguir um caminho mais ligado às medicinas alternativas. Descobriu o acroyoga nos jardins de Palermo há quatro anos. A experiência mudou a sua visão da vida. “Fez-me perder a vergonha de comunicar com o corpo e através do toque.” A conversa é interrompida pelas manifestações de satisfação dos alunos que conseguiram fazer mais uma figura que parecia impossível. Mas Egle ainda acrescenta: “Às vezes, descubro mais sobre uma pessoa através da nossa troca energética durante os exercícios do que falando com ela.”