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Mulheres transgénero podem receber transplante de útero e engravidar "já amanhã"

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Ian Waldie/ Getty Images

Neste momento, não há qualquer razão científica que impeça alguém que nasceu do sexo masculino de receber um transplante de útero e engravidar, defende um especialista em fertilidade norte-americano

O sucesso observado no transplante uterino em mulheres permite à ciência a possibilidade de alargar o procedimento a "mulheres que começaram a vida como homens" e dar-lhes a possibilidade engravidar "já amanhã". Segundo Richard Paulson, especialista em fertilidade e presidente da Sociedade Americana para a Medicina Reprodutiva, não existem razões anatómicas que impeçam o transplante de um útero numa mulher transgénero.

"Existiriam desafios adicionais, mas não vejo nenhum problema óbvio que o impedisse. Pessoalmente, acho que vai haver mulheres transsexuais a querer ter um útero e provavelmente vão fazer o transplante", afirmou, na reunião anual do organismo, no Texas.

Apesar da convicção de Richard Paulson, o procedimento levanta muitas questões. Ao The Times, Rebecca Flyckt, ginecologista e especialista em endocrinologia reprodutiva, afirma que a gravidez de alguém que nasceu fisiologicamente homem seria extremamente complicada e o bebé teria muito provavelmente de nascer por cesariana. Além disso, a gestação implicaria a toma de vários suplementos hormonais de modo a simular o processo hormonal da gravidez.

"Embora teoricamente isto fosse possível, seria um procedimento cirúrgico e endocrinológico enorme que envolveria não só a criação de uma vagina, mas também a reconstrução cirúrgica de toda a pélvis por alguém competente em cirurgias de mudança de sexo", diz. "Depois deste procedimento e do transplante de um útero doado, seria necessário um regime complexo de hormonas que apoiassem a gravidez, antes e depois do transplante embrionário", que a especialista afirma ser semelhante ao tratamento hormonal dado a mulheres na menopausa, mas que poderia colocar o feto em risco.

Vários especialistas apontam ainda a questão ética por trás de uma gravidez deste tipo. Julian Savulescu, professor de ética na Universidade de Oxford, por exemplo, alerta que é necessário conjugar o "benefício psicológico" da mulher que consegue ser mãe com "qualquer dano psicológico causado à criança nascida desta forma atípica".

O primeiro bebé do mundo gerado num útero doado nasceu em 2014. Desde então, já nasceram mais sete bebés na sequência de transplantes de útero.