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Depois dos medicamentos-placebo, chegou a vez das cirurgias-placebo?

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António Pedro Ferreira

Cerca de meio milhão de pessoas são submetidas anualmente, em todo o mundo, a uma intervenção para a colocação de um stent cardíaco, mas uma nova e controversa experiência sugere que os benefícios podem dever-se mais ao efeito placebo do que ao dispositivo

O efeito placebo já deu mostras de eficácia em vários estudos, sobretudo no que diz respeito ao controlo da dor, mas numa experiência inovadora, levada a cabo no Reino Unido, os investigadores concluíram que os pacientes a quem tinha sido introduzido um stent não revelaram qualquer diferença ao nível dos sintomas de dor no peito nem do desempenho físico quando comparados com doentes a quem tinha sido realizada uma cirurgia fictícia.

O stent é um pequeno tubo de fio de malha introduzido numa artéria estreita ou enfraquecida para melhorar a circulação sanguínea, por exemplo, depois de um ataque cardíaco.

Mas como funciona um stent-placebo? Para a experiência, alguns participantes, que foram escolhidos aleatoriamente, foram sedados e foi-lhes efetivamente inserido um cateter num vaso sanguíneo próximo do coração. Mas em de vez de colocar o stent, os médicos limitaram-se a retirar o cateter

Embora a experiência só tenha durante seis semanas - pouco tempo para avaliar uma doença crónica - , os investigadores acreditam que os resultados são suficientes para influenciar os cardiologistas a optar pela medicação para a angina de peito em vez da colocação de um stent, dada a relutância óbvia em relação a estas "falsas cirurgias". É que apesar de não serem "verdadeiras", são um procedimento invasivo, ao contrário de um falso comprimido que não é mais do que açúcar.

Durante a experiência, quatro dos 95 participantes que não receberam realmente o stent sofreram problemas nas artérias durante a inserção, o que acabou por levar os médicos a colocar mesmo o stent, apesar de não ser o plano.