Visão Mais

Siga-nos nas redes

Perfil

Não fazer exercício faz mal. Mas só pensar nisso também

Visão Mais

O facto de acharmos que somos fisicamente menos ativos do que os nossos pares pode inclusive aumentar o risco de morte

Rosa Ruela

Rosa Ruela

Jornalista

“Não penses nisso” deve ser o conselho que mais ouvimos ao longo da nossa vida. Em relação à quantidade de exercício físico que fazemos, o melhor é não pensarmos “isso”, confirmaram agora duas investigadoras da Universidade de Stanford, na Califórnia. Porque se pensarmos que não estamos a mexermo-nos o suficiente, e sobretudo menos do que aqueles que nos rodeiam, podemos perder anos de vida.

Octavia Zarth, doutoranda em Psicologia da Saúde, sentiu na pele esse mecanismo ao passar a morar na área de São Francisco. “Em Londres, sentia-me mesmo bem em relação à minha atividade [física]. Depois, mudei-me para Stanford, onde toda a gente à minha volta parece ser tão ativa e vai ao ginásio todos os dias”, contou ao canal de rádio americano NPR. “Sentia-me pouco saudável. Estava muito stressada com a ideia de ter de fazer mais exercício.”

A verdade é que Octavia Zarth não diminuíra o ritmo que tinha em Londres – a sua perceção é que mudara. Ao comparar a sua atividade física com as dos outros, parecia-lhe insuficiente. Não estranhou, por isso, quando Alia Crum, sua professora em Stanford, lhe falou num estudo que realizara em 2007, com empregadas de hotel.

Um dia, Alia Crum reuniu as empregadas e explicou que o seu trabalho, que envolvia tarefas pesadas e bastante caminhada, era um bom exercício físico. Depois, acompanhou-as ao longo de um mês e, no final, verificou que as mulheres que tinham passado a ver o seu trabalho como exercício físico, do bom, haviam registado melhorias ao nível da pressão arterial e da gordura corporal.

As duas psicólogas partiram, então, para uma nova investigação, que teve como base três grandes inquéritos à saúde e nutrição realizados nos Estados Unidos, que envolvem mais de 60 mil adultos. Entre muitas outras coisas, pergunta-se aos participantes se consideram que fazem exercício suficiente quando comparando com pessoas da mesma idade.

“Aqueles que pensavam que eram menos ativos do que os outros eram mais propensos a morrer” nos 21 anos seguintes do que os que sentiam que se exercitavam mais do que os seus pares, disse Alia Crum ao NPR. Numa determinado amostra, essas pessoas chegavam a ter 71% hipóteses de morrer mais cedo, lê-se nas conclusões do estudo, publicado no jornal académico Health Psychology.

Não é de hoje a ideia de que aquilo que pensamos pode ter consequências fisiológicas. É esse, aliás, o mecanismo do placebo. Numerosos estudos comprovam que, se acreditarmos que estamos a tomar um analgésico, o cérebro recebe a informação e a dor diminui efetivamente.

Neste caso, é preciso contar também com a influência da comparação social, notam as duas investigadoras. Se as pessoas ficarem desmotivadas, podem começar a diminuir o exercício físico.

O ensinamento a retirar deste estudo é que, mesmo que uma pessoa não faça muito exercício, deve ter pensamentos de “copo meio cheio” em relação a isso. Para a saúde, sempre será melhor do que ver o copo meio vazio.