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Há vários tipos de tédio: uns fazem mal, outros pelo contrário

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Adam Berry / GettyImages

Investigadores identificaram, pelo menos, cinco tipos diferentes de tédio. Nem todos são maus, mas os que são podem levar à obesidade, a comportamentos autodestrutivos e até à impotência sexual

No trânsito, no trabalho, em casa, o tédio é mal comum mas, revelam várias investigações, pode não ser tão inofensivo como parece, com um número cada vez maior de profissionais a acreditar que o tédio está associado a vários problemas de saúde.

Os psicólogos já chegaram mesmo a dividir o tédio em vários subtipos, com algumas correntes a identificar claramente cinco variedades, cada qual com suas consequências. E se o tédio "mau" pode levar a problemas de obesidade, comportamentos autodestrutivos, dificuldades sexuais e até mesmo morte precoce, o tédio "bom" pode fomentar traços positivos, como a criatividade, a resiliência e a felicidade.

Para compreender os efeitos do tédio, um grupo de investigadores da Universidade de Maastricht recorreu a 69 voluntários, forçados a passar 15 minutos seguidos, num laboratório onde nada se passava. A única coisa que podia fazer era usar o equipamento disponível para se autoinflingirem choques elétricos.

O estudo concluiu que a maioria das pessoas prefere eletrocutar-se do que ficar entediado... É que quanto mais aborrecidos ficavam, mais provável era optarem pelos choques e cada vez mais intensos.

Na vida real, com a ideia dos choques elétricos fora de questão, outro estudo, publicado no Frontiers In Psychology, das universidades de Kent e Southampton concluiu que a tendência é atacar snacks pouco saudáveis. Neste caso, os investigadores pediram a 140 pessoas para registar tudo o que comiam e o seu estado de espírito, a par de se submeterem a análises. Não só os participantes ingeriam mais calorias quando estavam entediados, como o mais provável era virarem-se para alimentos com mais gordura, hidratos de carbono e proteína.

Já uma equipa de sexólogos alemães descobriu que o tédio também pode levar os homens à disfunção erétil. Publicado no Journal of Sexual Medicine, o estudo, que envolveu mais de mil homens concluiu que quanto mais aborrecidos se sentiam mais provável era terem problemas de ereção.

Morrer de tédio

Mas as consequências negativas do tédio não se ficam por aqui. Nos anos 80, investigadores da University College London conduziu um estudo alargado que envolveu mais de 7500 participantes, a quem era pedido que registassem diariamente os seus níveis de tédio. Publicado no International Journal of Epidemiology em 2010, o estudo concluiu que os que tinham reportado níveis mais elevados de tédio tinham maior probabilidade de morrer. As mortes registadas durante o período de acompanhamento deveram-se, sobretudo, a ataques cardíacos.

Os investigadores realçaram, na altura, que a explicação pode estar na maior tendência para fumar, beber compulsivamente e usar drogas dos que se diziam entediados. Estes foram, também, os que mostraram menos inteligência.

O tédio "certo"

Agora que já foram desfiados os efeitos negativos desta sensação, passemos aos bons.

Um estudo liderado por um cientista educacional da Universidade de Konstanz, Alemanha, identificou cinco tipos de tédio: Indiferente, calibrador, que procura, reativo e apático.

Na publicação Motivation and Emotion, Thomas Goetz defendeu que embora todos experimentemos todos estes tipos, e até possamos senti-los alternadamente, a tendência é para que cada qual se "especialize" num.

O mais negativo é, acredita este investigador, o reativo: é caracterizado por sentimentos negativos intensos, que tornam as pessoas inquietas, zangadas e stressadas. O tédio indiferente, por seu lado, por ser benéfico: não estamos a fazer nada particularmente satisfatório, mas estamos calmos e isso abre espaço para a criatividade e o sonhar acordado.

Sandi Mann, psicóloga da Universidade de Central Lancashire concorda, citada pelo site Good Health: o tédio de curta duração pode ser uma oportunidade para desenvolver os recursos íntimos e estimular a criatividade. Mann chegou a esta conclusão depois de pedir a 80 voluntários que pensassem criativamente em formas de usar dois copos de plástico. Antes dessa tarefa, metade do grupo tinha tido outra: copiar números de uma agenda telefónica. O estudo, publicado no Creativity Research Journal, concluiu que os que tinham tido a tarefa aborrecida conseguiram inventar muitos mais usos para os copos.