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Sabia que o seu cérebro funciona em piloto automático?

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"Há um desfecho interessante nas competências automatizadas: as tentativas conscientes de interferir com elas costumam piorar o desempenho. Mais vale deixar as capacidades aprendidas - mesmo as mais complexas - funcionarem por si próprias." Palavra de neucientista

Da obra "O Cérebro", o mais recente livro do escritor e neurocientista David Eagleman, professor no Departamento de Psiquiatria e Ciências Comportamentais da Universidade de Stanford, publicamos um excerto do capítulo "Quem comanda":

"Ao longo da vida, o nosso cérebro reformula-se a si próprio sempre que precisa de construir circuitos dedicados para as missões que praticamos, seja andar, fazer surf ou malabarismo, nadar ou conduzir. Essa capacidade de gravar programas na estrutura do cérebro é um dos truques mais poderosos de que ele é capaz. Consegue resolver o problema dos movimentos complexos consumindo tão pouca energia graças à formação de circuitos dedicados no hardware. Assim que ficam registados nos circuitos cerebrais, essas competências podem ser executadas sem pensar — sem esforço consciente — libertando recursos dessa forma, o que permite à mente consciente realizar e absorver outras tarefas.

Esta automatização traz uma consequência: as novas competências passam para um nível a que a consciência não tem acesso. Perdemos o acesso aos programas sofisticados que estão a ser executados nas profundezas do cérebro, pelo que não sabemos precisamente como fazemos o que estamos a fazer. Quando subimos um lanço de escadas enquanto conversamos, não fazemos ideia de como calculamos as dezenas de microcorreções no equilíbrio do corpo ou como executamos movimentos dinâmicos com a língua para produzir os sons corretos para o nosso idioma. São tarefas difíceis que nem sempre conseguimos realizar. Mas como as nossas ações se tornaram automáticas e inconscientes, isso dá-nos a capacidade de funcionar em piloto automático. Todos conhecemos a sensação de voltar para casa de carro fazendo o mesmo percurso diário e de nos apercebermos, subitamente, de que chegámos sem termos qualquer memória da viagem. As competências relacionadas com a condução tornaram-se tão automatizadas, que conseguimos executar inconscientemente essas rotinas. O eu consciente — a parte que despertou para a vida quando acordámos de manhã — já não vai ao volante; quando muito, é um passageiro.

Vejamos o caso do alpinista Dean Potter. Até à sua morte recente, escalou penhascos sem corda e sem equipamento de segurança.

Desde os doze anos que Dean dedicou a vida ao alpinismo. Anos de prática configuraram o seu cérebro para a precisão e a mestria.

Para alcançar os seus feitos de escalada, Dean confiava que esses circuitos tão bem treinados fizessem o seu trabalho, livres de qualquer deliberação consciente. Ele concedia o controlo total ao seu inconsciente, escalando num estado cerebral muitas vezes designado “fluxo”, em que os atletas radicais costumam superar os limites das suas capacidades. À semelhança de muitos outros atletas, Dean atingia o estado de fluxo expondo-se a situações de risco para a própria vida. Uma vez nesse estado, não tinha qualquer interferência da sua voz interior e conseguia depender exclusivamente das capacidades de escalada que estavam gravadas no seu hardware após muitos anos de treino.

Tal como o campeão do empilhamento de copos Austin Naber, as ondas cerebrais de um atleta em fluxo não são perturbadas pelo ruído da deliberação consciente (Estou com bom aspeto? Devo dizer isto ou aquilo? Será que fechei a porta quando saí?). Em fluxo, o cérebro entra numa estado de hipofrontalidade, o que significa que algumas partes do córtex pré-frontal ficam temporariamente menos ativas. Essas áreas estão relacionadas com o pensamento abstrato, o planeamento do futuro e a concentração em nós mesmos. A atenuação dessas operações de segundo plano é o principal fator que permite à pessoa ficar pendurada a meio de um rochedo.

Feitos como os de Dean só podem ser alcançados sem a distração da cavaqueira interna.

Muitas vezes, é melhor deixar a consciência de parte, e, em algumas tarefas, nem sequer temos alternativa, porque o cérebro inconsciente consegue funcionar a velocidades em que a mente consciente é demasiado lenta para acompanhar. Basta pensar no basebol, em que uma bola lançada pode atingir velocidades de mais de 150 quilómetros por hora. Para estabelecer o contacto com a bola, o cérebro tem umas escassas quatro décimas de segundo para reagir. Nesse tempo, tem de processar e orquestrar uma intrincada sequência de movimentos para acertar na bola. Os batedores estão sempre a acertar na bola, mas fazem-no de forma inconsciente, pois a bola desloca-se a uma velocidade demasiado rápida para o atleta ter a perceção consciente da posição dela. O batimento é feito antes que o batedor consiga registar o que aconteceu. A consciência fica não só de fora, fica muito para trás.

As ligações entre os neurónios são denominadas sinapses

É nessas ligações que umas substâncias químicas, os neurotransmissores, transportam sinais entre os neurónios. Mas as ligações sinápticas não têm todas a mesma força e podem tornar-se, dependendo do histórico de atividade, mais fortes ou mais fracas. À medida que a potência das sinapses se altera, a informação flui de forma diferente pela rede. Se uma ligação fica suficientemente fraca, desvanece até desaparecer. Se for reforçada, pode desenvolver novas ligações. Parte desta reconfiguração é regida por sistemas de recompensa, que emitem globalmente um neurotransmissor denominado dopamina quando alguma coisa corre bem. As redes cerebrais de Austin foram reconfiguradas - muito lentamente, muito subtilmente - pelo sucesso ou insucesso de cada tentativa de movimento, ao longo de centenas de horas de prática.

O Cérebro, David Eagleman, Lua de Papel