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Emagrecer: As dicas de quem perdeu mais de 25 Kg

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Deixaram de ser bombas-relógio andantes e agora são exemplos de bem-estar. Casos inspiradores de pessoas que perderam peso e ganharam uma vida nova

As histórias de Carla, Nuno e Rui cruzam-se em diversos pormenores, nas motivações comuns, nos resultados. Umas caras são mais conhecidas do que as outras, mas, ainda assim, sempre se cruzam com as vivências de um comum mortal. Veja-se Carla Vasconcelos, atriz, 45 anos, que foi uma das apresentadoras do 5 para a Meia-Noite, fez teatro, cinema e televisão, mas acabou por ser outro papel na sua vida que a motivou a perder peso. "Fui mãe, e para acompanhar a minha filha precisava de me sentir mais leve e com mais energia." Ou de Nuno Azinheira, que fez crítica de televisão e deu a cara em mais um par de programas, e que apanhou um susto "daqueles" no início do verão, quando foi parar ao hospital com uma crise de diabetes, e agora é uma espécie de embaixador de um estilo de vida mais saudável.

2013-2016 Carla Vasconcelos pesava 102 quilos. O clique aconteceu quando se tornou mãe, há três anos. Mudou de vida e, com muita disciplina, chegou aos 70 quilos

2013-2016 Carla Vasconcelos pesava 102 quilos. O clique aconteceu quando se tornou mãe, há três anos. Mudou de vida e, com muita disciplina, chegou aos 70 quilos

JoaoLima

"Quando a Matilde nasceu, há três anos, lembro-me perfeitamente de pensar que tinha de ter cuidado porque ia precisar de viver até aos 200 anos: os miúdos hoje nunca mais querem sair de casa!", decreta Carla Vasconcelos, sem esconder o riso. Passe a brincadeira, foi exatamente nesse momento que se deu um clique na cabeça dela. "Fui mãe aos 42 anos. Com essa idade temos mesmo de pensar na saúde. Nessa altura, já temos noção da nossa mortalidade, que isto não é para sempre. E com um bebé nos braços é mesmo preciso energia para brincar. Não queria ser uma mãe amorfa." Carla pesava, então, 102 quilos muito para lá do razoável para quem mede 1,58m. "Tenho uma estrutura grande, mas não assim tão grande. Digamos que não sou o Michael Phelps." Procurou uma saída à sua medida, numa clínica, com direito a tratamento e acompanhamento personalizado. "Perdi 32 quilos e depois parei um bocadinho, porque é essencial uma disciplina férrea, e aquilo torna-se aborrecido. Mas o peso estabilizou, e agora, que já descansei um bocadinho, posso voltar à carga", promete a atriz, a assumir que não quer ficar a meio do processo. "Sei que nunca vou ser magra, mas hoje sinto-me muito melhor, tenho muito mais energia para acompanhar a minha pequena índia." Até a disponibilidade mental é maior. "Quando se tem peso a mais, é fácil uma pessoa ganhar defesas para não se mexer: 'Ai agora tenho de ir até ali e que chatice!'." No entretanto, lá se reorganizou para comer de forma equilibrada. Muitas vezes, diz, o problema assenta no peso que a palavra dieta carrega. "Dieta é só um estilo alimentar", desmistifica a atriz, "e eu tive de mudar o meu. Sempre fui muito indisciplinada comigo e isso faz com que esteja ainda mais orgulhosa de mim.

Agora quero mesmo terminar o processo e perder os 10 ou 15 quilos que me vão fazer ficar realmente bem." Para Carla, é também importante não viver com a pressão de ter de perder peso todas as semanas, que isso não a ajuda em nada. "Vou-me portando bem e peso--me quando vou ao médico. Porque às vezes basta uma pessoa estar inchada por qualquer outra razão e parece logo que não está a resultar", assume, a recusar viver com a frustração de quem fez tudo direitinho e no fim acabar a pensar que não perdeu o que devia. "Um dia mau pode deitar tudo a perder."

Pedro Correia

FINTAR O DESTINO

Já a Nuno Azinheira foi literalmente a diabetes que lhe mudou a vida e o ex--jornalista e crítico de televisão, agora empresário, remete o início desta nova fase para o dia 19 de junho de 2016.

"É a data que não vou esquecer nunca. Foi o dia em que fui parar ao hospital e fiquei oficialmente a saber que era diabético.

Junho-outubro Em quatro meses, Nuno Azinheira passou de 146 quilos (chegara a pesar 148) para 120. Um susto relacionado com a diabetes foi o seu incentivo

Junho-outubro Em quatro meses, Nuno Azinheira passou de 146 quilos (chegara a pesar 148) para 120. Um susto relacionado com a diabetes foi o seu incentivo

Luis Barra

Com mãe, tio e avó diabéticos, e sendo uma pessoa informada, sempre soube reconhecer os sinais. Sabia que havia probabilidade hereditária, além dos avisos que fui recebendo ao longo da vida nas consultas da medicina do trabalho." Além disso, reconhece, já tinha dito à médica que acordava todas as noites para ir à casa de banho e bebia água sofregamente, que são dois sinais claríssimos da doença. "Eu era um barril de pólvora", reconhece. Como quem diz, hipertenso, o mais sedentário possível, o colesterol sempre no dobro do que devia... "Enfim, o quadro normal de um obeso mórbido." Ao sair do hospital, o seu primeiro pedido a quem o levava a casa foi para passar na Fnac. "'Estás doido? Vais é para casa descansar', responderam-me. Mas eu insisti, porque queria comprar três livros sobre diabetes. Foi a forma que encontrei de mudar o chip naquele exato momento. Na semana seguinte, passei muitos dias com a minha mãe a falar sobre a questão e a observar os procedimentos. A minha mãe sempre me serenou. É uma coisa que as mães têm, não é? E isso ajudou-me muito a encarar a doença." Nuno lembra-se ainda de, dois meses antes, se ter inscrito pela enésima vez num ginásio. "Sou o tipo que fez mais felizes os donos dos ginásios, porque pagava, ficava dois anos fidelizado e não ia. Nesse primeiro mês de abril, até me portei bem, mas, no mês seguinte, voltei à normalidade e já mal lá pus os pés. Em junho, o personal trainer chamou-me, a perguntar "Porque não vens?" e depois, enfim, seguiu-se essa cena do hospital." As palavras saem-lhe da boca quase sem lhe fazer perguntas.

A história está bem arrumada e resolvida na sua cabeça. "Pesava, e vou dizê-lo assim a alguém pela primeira vez, se excluirmos que o escrevi no blogue há três ou quatro dias (se há coisa que nunca se pergunta a um gordo é quanto é que pesa...), bom, digo que cheguei a pesar 148 quilos." Desde então já reduziu oito números no tamanho de calças, o que implica um guarda-roupa novo, e isso dá-lhe todo o ânimo, claro.

Afinal, foram 26 quilos em quatro meses. "Dia 24 de outubro é mais um dia histórico, porque voltei à barreira mítica que tinha ultrapassado aos 24 anos: a dos 120 quilos." No meio deste processo todo, falar da doença e da importância de passar a ter uma vida (mais) regrada tornou-se uma espécie de causa para Nuno Azinheira. "Sendo uma figura relativamente conhecida, sinto-me com essa obrigação. Bom, isso também me compromete. Hoje, as pessoas encontram-me e dizem: 'És um novo tipo.' Eu, meio a brincar, respondo: 'Sou, sou tipo 2'", numa alusão à diabetes ele que sempre foi gordinho, mais ou menos desde os seis anos, e a quem ao longo dos anos chamaram de tudo.

"Desde Piranha, numa alusão ao Verão Azul (série de televisão que fez furor no início dos anos 80), a badocha ou baleia fora de água." Nuno continua a falar, sem parar, a assumir: "Se conseguir ajudar alguém com o meu exemplo, já ganhei o dia." O resto é medicação a horas certas, exercício físico e uma alimentação regrada. "Tento não me privar do que gosto, mas sei que tenho de ter cuidado, não fazer certas misturas, comer várias vezes ao dia e sempre alimentos variados. Às vezes, perguntam: então, ainda estás a fazer dieta? E eu digo que não, não estou a fazer dieta, mudei foi os meus hábitos alimentares. Mais, mudei o estilo de vida. Passei a fazer caminhadas, em vez de dar voltas e voltas para estacionar o carro à porta. Vou ao ginásio todos os dias ando sempre com a mala no carro, para não arranjar a velha desculpa do 'Ah, não trouxe o equipamento...' Digo ainda que não há nada que não possa comer. As regras são: comer de três em três horas e não estar mais de oito em jejum. Nada de saltar refeições, é o pior que se pode fazer. Ou optar por sumos naturais, que só têm o açúcar da fruta e não têm a fibra. E tudo isto, na verdade, vale para qualquer um." Mas, mesmo que não pareça, nada disto é fácil. "Eu adoro fritos.

Fiz muitos pequenos-almoços de meia de leite e folhado de carne ou um rissol. Claro que vou voltar a comer isso na vida e sem culpas. Não ando com uma balança atrás para avaliar as coisas, mas sei as equivalências do que como. Pode-se comer de tudo, mas tem de se reduzir nas doses. Além disso, passei ainda a estar mais atento aos rótulos. Não quero ser um D. Quixote da vida saudável. Mas, o que estiver ao meu alcance, farei."

2013-2016 Quando a filha nasceu, Rui Shantilal pesava 170 quilos. "Percebi que ia precisar de muito mais energia para a acompanhar", diz. Decidiu agir, e hoje pesa 96 quilos

2013-2016 Quando a filha nasceu, Rui Shantilal pesava 170 quilos. "Percebi que ia precisar de muito mais energia para a acompanhar", diz. Decidiu agir, e hoje pesa 96 quilos

Luis Barra

E VOCÊ, DO QUE ESTÁ À ESPERA?

São histórias e conhecimentos que cada vez mais pessoas começam a aproveitar para dar novo rumo às suas vidas. Oiça--se Rui Shantilal, um empresário de 42 anos, que sempre teve muita facilidade em ganhar peso. "Desde a adolescência que me tornei obeso. Cheguei a pesar 170 quilos, hoje tenho 96, o que para os meus 1,85m é bastante razoável, mas quero perder mais uns dez", avança, muito orgulhoso e seguro, de si e do caminho entretanto percorrido. "Já não sou efetivamente obeso, mas a nível psicológico sim." Por duas vezes, assume, fez dietas não sustentadas "uma vez perdi 36 quilos, porque deixei de comer, outra vez, 40, porque fui a um médico que me deu um tratamento, mas mal parei recuperei tudo outra vez. Agora queria que fosse diferente." Tudo se complicara desde que, em 2009, fundou a sua própria empresa e quando se cria um projeto profissional do nada, o tempo para treinar fica para depois. Foi o que lhe aconteceu: "Não tinha sequer tempo para me sentar a comer. Almoçava uma empada e um rissol, depois passava horas sem comer e também jantava qualquer coisa. Pelo meio, se tivesse fome, acabava por ir buscar um bolo. "Há pessoas que fazem essa vida e, no máximo, ficam gordinhas; comigo isso não acontece: eu engordo drasticamente e muito rápido." Até que, um dia, o seu mundo mudou.

"Quando a minha filha nasceu, há três anos, percebi que ia precisar de muito mais energia para a acompanhar", recorda, a lembrar-se que já se esquivava imenso às propostas do mais velho, com oito anos, para ir correr ou jogar à bola com ele. "Era o herói dele, mas, quando me desafiava, ficava sem saber o que lhe dizer. Lá ia, muito a custo, e não queria que fosse assim. Queria que fosse natural, queria ser pai por inteiro." Neste processo todo, há ainda um outro elemento com um forte papel: a pressão social. "Imagine o que é andar de comboio, de avião, ter de subir e descer escadas, querer ir a um concerto e estar três horas em pé com 170 quilos. Numa discoteca, conseguir chegar à casa de banho implicava incomodar muitas mais pessoas. Quando entrava num avião, ainda não me tinha sentado e já estava tudo a olhar para mim, a desejar que não ficasse ao seu lado. Os lugares já são apertados para quem tem um peso normal, imagine para quem tinha aquele tamanho. Era uma realidade incontornável e eu queria uma vida nova." O sorriso que lhe ilumina o rosto e o orgulho com que exibe o seu corpo em forma provam que está no bom caminho.

Como quem pergunta, provocatoriamente, "E você, de que é que está à espera?".