Visão Júnior

Siga-nos nas redes

Perfil

Ártico em vias de extinção

Ciência

  • 333

Há alertas de que, em 2050, todo o gelo do polo se transformará em água líquida. Pior ainda: isso também poderá acontecer já no final desta década. VÊ AS INFOGRAFIAS

O Ártico está a deixar de ser um gigantesco bloco de gelo, sólido e impenetrável, para se tornar num frágil amontoado de gelo picado. Podemos ter a tentação de fazer orelhas moucas aos alarmes que soam, durante o degelo estival. Mas o caso nunca foi tão sério. Na semana passada, o National Snow and Ice Data Center, no Colorado, EUA, que usa imagens captadas por satélites da NASA para vigiar a situação nas regiões polares, avisou que tinha sido quebrado um recorde: o gelo marinho no Ártico atingiu um mínimo histórico e continua a derreter, sendo inevitável que se registem valores ainda mais baixos no final do verão. "Este novo mínimo vem confirmar uma tendência cada vez mais marcada e é, essencialmente, outro indicador das rápidas transformações que estão a decorrer no planeta, sobretudo no Ártico", analisa Gonçalo Vieira, 41 anos, geógrafo e cientista polar.

 

De um momento para o outro, as previsões do IPCC (Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas), que apontavam a fusão completa do Ártico para o longínquo ano de 2100, revelaram-se demasiado otimistas. As novas datas estão em meados do século, mas há mesmo quem aponte para o final desta década, como o reputado cientista polar da Universidade de Cambridge, Inglaterra, Peter Wadhams. "O Ártico está a aquecer três a quatro vezes mais rapidamente do que o resto do mundo, o que faz com que o gelo marinho se torne cada vez menos espesso no inverno e derreta mais no verão", alerta. "Está prestes a colapsar." No verão, diz, o gelo marinho poderá desaparecer em apenas dois anos.

"Tem vindo a verificar-se, nas últimas décadas, que o gelo marinho do Ártico, que antes era essencialmente gelo plurianual, com várias camadas resultantes da acumulação e recongelação de um ano para o outro, se está a transformar num gelo anual e muito mais fino", explica Gonçalo Vieira. Esse fenómeno "torna-o muito mais suscetível a uma rápida fusão" - e parece ser isso que está a acontecer.

A culpa do Homem

Nem todos estarão de acordo quanto à data de fusão total - os modelos matemáticos de previsão climática são do mais complexo que há. Mas existem cada vez mais certezas de que estas alterações têm mão humana. Num estudo recente, cientistas da Universidade de Reading, Inglaterra, chegaram à conclusão de que 5% a 30% da redução dos gelos que tem vindo a acontecer desde 1979 pode estar relacionada com um ciclo natural de aquecimento e arrefecimento do Atlântico, designado AMO (Oscilação Multidécada do Atlântico). Este fenómeno repete-se em intervalos de 65-80 anos e encontra-se numa fase de aquecimento desde os anos 1970. Tudo o resto, ou seja, 70% a 95% da diminuição tem origem nas alterações climáticas introduzidas pela atividade do Homem, em especial o uso de combustíveis fósseis. É por isso que os cientistas polares acabam por tornar-se numa espécie de militantes do Ambiente. "Sinto que o meu papel vai além da participação em expedições ou da publicação de artigos científicos", nota José Xavier, 37 anos, do Instituto do Mar da Universidade de Coimbra e do British Antarctic Survey, do Reino Unido. Para lá das tradicionais tarefas de investigador, o cientista preocupa-se muito com a sensibilização da população, sobretudo das crianças, para o fenómeno das alterações climáticas. "O Ártico tem um papel importante no equilíbrio das temperaturas do planeta: com gelo, a energia do Sol é refletida de volta para o espaço; sem gelo, a água absorve esse calor, aquecendo o mar e também o ar", explica José Xavier. E daí resulta a subida do nível do mar - que, estando mais quente, expande-se e ocupa maior volume -, o desaparecimento de espécies animais e vegetais, e todo um cenário de filmes-catástrofe de Hollywood, que surge agora nas mais insuspeitas publicações científicas.