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A Inglaterra manda, Portugal obedece...

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Há 129 anos, Londres obrigou Lisboa a abandonar territórios em África. O Governo do rei D. Carlos cedeu ao ultimato, mas o descontentamento das pessoas faria depois triunfar a República

Na fria noite de 11 de janeiro de 1890, muitos habitantes de Lisboa atacaram à pedrada a casa do ministro dos Negócios Estrangeiros. A multidão dirigiu-se depois para o consulado do Reino Unido, que também foi apedrejado. Teriam os lisboetas enlouquecido? O certo é que o Governo demitiu-se, e o rei D. Carlos (que era o chefe de Estado, pois a República só chegaria daí a 20 anos) teve de nomear outro, do partido adversário. Mas o que motivara esta agitação nas ruas? Descontentamento político? Sim, mas porquê atacar também o consulado inglês?!

É que, horas antes, o representante do Reino Unido em Lisboa tinha entregado ao Governo português um papel em que eram feitas exigências. Os ingleses ordenavam a Portugal que se retirasse da região da África que fica entre Angola e Moçambique. A Inglaterra era – e ainda é – a mais velha aliada de Portugal, mas ameaçava recorrer à força se o Governo de Lisboa não se vergasse às suas exigências.

Engravatados em Berlim

Tudo começara meia dúzia de anos antes, quando os representantes dos países europeus, mais os Estados Unidos e a Turquia, se tinham reunido na capital alemã para discutir a posse de todo um continente – a África. Nessa Conferência de Berlim, a sorte dos africanos foi, pois, decidida não por eles próprios mas por políticos de outras nações, que ali tinham ocupado territórios, chamados «colónias». Os senhores engravatados acharam que Portugal, que na altura era já um país pouco importante, tinha no entanto direito a possuir Angola e Moçambique (além de outras colónias mais pequenas) por terem sido os nossos antigos navegadores que «descobriram» aquelas terras e por depois ali termos sempre mantido tropas e para lá enviado colonos (pessoas para viverem naquele sítio) e degredados (pessoas exiladas por terem sido condenadas a cumprir um castigo).
Também contribuíram para a decisão tomada em Berlim as expedições científicas ao interior do continente africano feitas pouco antes pelos exploradores portugueses Hermenegildo Capelo, Roberto Ivens e Alexandre Serpa Pinto. Imagina-os, com os seus fatos de caqui e capacetes de tela, caminhando no mato à frente de longas filas de carregadores africanos com os fardos à cabeça…
Mas as poderosas Inglaterra, França e Alemanha, que tinham chegado a África há menos tempo, ficaram com a maior parte do «bolo».

O ‘Mapa Cor-de-Rosa’

Portugal poderia dar-se por contente com a decisão da Conferência de Berlim, mas não foi isso que aconteceu. O nosso país achava que tinha direito às tais terras entre Angola e Moçambique e assinalara-as como suas no Mapa Cor-de-Rosa (assim chamado porque as regiões em questão estavam ali pintadas desta cor), publicado pela Sociedade de Geografia. Só que esta vontade portuguesa chocava com a britânica: os ingleses desejavam possuir colónias pegadas umas às outras, desde o Egito à África do Sul.
Os incidentes entre portugueses e ingleses tinham começado em novembro de 1889, quando tropas comandadas pelo major Serpa Pinto (o mesmo que explorara vastos territórios africanos) tinham derrotado uma tribo que estava sob a «proteção» de Londres. Serpa Pinto ordenara mesmo que fossem retiradas as bandeiras do Reino Unido que ali viu a flutuar na morna brisa do mato.
Como calculas, os ingleses ficaram furiosos, e entregaram em Lisboa o tal papel com as exigências. E, posto entre a espada e a parede, o Governo português cedeu prontamente à intimação daquela que era nesse tempo a grande potência mundial, o Reino Unido: nessa mesma noite ordenou a retirada das tropas da região em disputa. Foi isso que provocou a fúria popular.
Tecnicamente chamado «memorando», o papel com as exigências inglesas logo foi apelidado de «ultimato» por uma opinião pública portuguesa já controlada pelos republicanos. Sim, porque os portugueses das cidades, sobretudo os lisboetas e os portuenses, sonhavam com o derrube da monarquia (a forma de governo em que há um rei) e a implantação da República. O ultimato inglês foi um bom pretexto para fazer abalar a monarquia, que se vergara à ordem dos ingleses (é verdade que Portugal não tinha meios para resistir, mas isso é outra conversa…).

De ‘bretões’ a ‘canhões’

Foi enorme a ira popular, orquestrada pelos republicanos. Uma onda de patriotismo invadiu o País. Foi até recolhido dinheiro para a compra de um couraçado.
Agora, o mais engraçado. O compositor Alfredo Keil e o poeta Henrique Lopes de Mendonça compuseram então uma marcha patriótica a que chamaram A Portuguesa. Sabes do que estamos a falar? Do atual Hino Nacional. Sim, porque essa marcha antibritânica seria adotada como um dos símbolos do País em 1911, meses depois da instauração da República. Com uma diferença: onde agora se canta «contra os canhões» cantava-se originalmente «contra os bretões»…