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VÍDEO: As mil e uma histórias de António Torrado

O escritor és tu!

O escritor contou como se podem criar livros com tudo. Por exemplo, "um grão de areia dá para fazer uma história enorme", diz ele. Fica a conhecer as respostas que não couberam na versão impressa da VISÃO Júnior

O que sente quando vê alguém a comprar, ou a ler, uma obra sua?

Rafael Pastor, 8 anos, Colégio Casa Mãe, Paredes (ri-se) Bem, tenho de pensar nisso. Nós, escritores, escrevemos para ser lidos e gostamos de ser apreciados. Gostamos que os nossos livros esgotem edições e, depois, sejam feitas re-edições. Cada livro tem uma edição de três mil ou de cinco mil exemplares, e, quando esgotam, é agradável. Vi pessoas a comprarem livros meus na Feira do Livro. Sinto-me bem, sinto-me consolado.

Porque é que se formou em filosofia?

Mafalda Passos e Sara Sousa Não sei bem. Primeiro, andei pelo curso de Ciências Económicas e Financeiras. Depois, senti que não estava no meu lugar certo e mudei para Direito. Aí, as aulas davam-me muito sono... e mudei para Filosofia. Entretanto, comecei a dar aulas muito cedo e, sem ser doutorado, todos me tratavam por "doutor". Demorei alguns anos para acabar o curso, porque trabalhava ao mesmo tempo que tinha aulas, mas senti que tinha de finalizar o curso e merecer o título por que todos me tratavam.

Gostava de escrever um livro em parceria com alguém especial? Porquê?

Cristina Isabel Teixeira, 8 anos, Colégio Casa Mãe Ah, mas eu já escrevi em parceria. Com a minha querida amiga Maria Alberta Menéres escrevi Histórias em ponto contar, a partir dos desenhos do Amadeo de Sousa Cardoso, um grande pintor do início do século XX. E também trabalhámos juntos num programa de televisão, chamado Fungágá da Bicharada.

As obras que escreve são ficções ou baseiam-se em factos reais?

José Pedro Lemos, 8 anos, Paredes São ficções. Mas tudo o que é ficção tem sempre um fundo real. Lembro-me de, um certo dia, ir num autocarro e ter ouvido um senhor sentado atrás de mim dizer isto: "Ontem, ninguém dormiu lá em casa, porque andou um macaco à solta no telhado, a estragar as antenas de televisão." E eu pensei logo: "Isto é uma história!" E saiu em livro. Mas ainda ontem me disseram que eu tinha muitas histórias com galinhas: para cima de trinta, imaginem. E porquê? Porque quando eu era da vossa idade, ia para a quinta do meu avô tinha, onde havia um galinheiro. Entretinha-me a ver as galinhas, os patos, as lutas de poder entre o galinho-da-índia com o galo grande... Para mim, aquilo retratava o mundo, mas com penas. Também tenho muitas histórias passadas na praia, no mar, com gaivotas, porque no verão vou para uma casa com varanda em Sesimbra - melhor dizendo, é uma varanda virada para o mar que tem uma casa atrás, o que é muito inspirador.

Alguns dos seus livros são histórias verídicas?

Bruna Rebelo, 12 anos, 6º D, Escola Básica João de Barros. Viseu Verídicas, não. Mas muitas coisas que acontecem podem ser um estímulo para escrever. Muito daquilo que eu conto já vem tocado pela imaginação e pela nuance que o tempo vai dando às coisas.

Gosta mais de escrever livros ou de fazer guiões para televisão, teatro e cinema?

Gabriel Teixeira, 8 anos, Paredes Gosto de tudo. Tenho percorrido praticamente todos os géneros. Tenho uns romancezinhos para jovens, mas não para adultos. Mas também gosto muito de escrever teatro, que é aquilo que agora mais continuadamente escrevo. Ainda ontem, tive o prazer de ouvir um convite do meu amigo João Mota para fazer uma peça para o Teatro Nacional D. Maria II. Mas hoje em dia, por causa das condições económicas, as companhias pedem-me peças com poucos atores. Um dia destes, ficamos reduzidos a monólogos, por que não há dinheiro para pagar aos atores. Mas eu gosto dessa pressão sobre o próprio engenho, é estimulante. Foi professor no ensino secundário até à década de 1960.

O que mudou no nosso ensino e o que falta para ser ainda melhor?

Gabriel Barbosa, 8 anos Eu não tenho uma opinião firmada ao ponto de dizer que o ensino está a passar por dificuldades. Vou muito a escolas, faço uma média de 60 escolas por ano, e vou sabendo que se passa no ensino. Embora tenha feito parte de um colégio que, na década de sessenta, foi o introdutor em Portugal da escola moderna, não me sinto capacitado para falar do ensino em geral. Mas do que vou ouvindo dos professores, receio bem que o ensino em Portugal não esteja bem, e que precise de uma profunda reavaliação das suas capacidades e potencialidades.

Em que se baseou para escrever os livros Vem aí o Zé das moscas e Outras histórias tradicionais portuguesas contadas de novo?

Mafalda Passos e Sara Sousa O primeiro é inspirado num trecho de um episódio contado por um senhor, estudioso da cultura popular, chamado Leite de Vasconcelos: tem lá um sujeito que se queixava de ter sempre moscas a zumbir-lhe ao ouvido. As Outras histórias tradicionais portuguesas resultam de eu ter ido a uma escola onde perguntei se conheciam a história do macaco de rabo cortado ou da donzela guerreira. E fiquei muito alarmado e desolado porque os moços dessa escola nunca tinham ouvido falar dessas histórias, que faziam parte das minhas recordações de infância. Senti necessidade de as contar de novo.

O site História do Dia é um sucesso e um excelente recurso para todos os jovens. Como teve a ideia de o iniciar?

Fábio Rocha, 9 anos Uma editora tinha-me encomendado um livro com 365 histórias, uma por dia. Mas o livro ficava muito grosso. Mas um amigo meu falou-me que a área de informática do Instituto Politécnico de Portalegre estava interessada em histórias minhas. Isto fez erguer o projeto das 366 histórias, que é a contar com os anos bissextos. São histórias em texto, que também têm fundo musical e tradução em inglês. E leitura feita por mim, para que os alunos possam ganhar esse gosto. É que uma coisa é ler [faz uma voz monocórdica] "era-uma-vez-um-rapaz -que..." Outra coisa é dizer [faz uma entoação bonita] "era uma vez um rapaz que..." Ler tem música dentro, e nós temos que apanhar a música que os textos têm. Tal só se consegue lendo em voz alta. Antigamente, as pessoas que não sabiam ler ouviam outros a ler em voz alta. Por exemplo, o meu avô era provavelmente o único habitante que recebia o jornal. Quando este chegava, a aldeia juntava-se à sua volta e ele lia as notícias: era uma espécie de telejornal da época.

Quando escreveu o primeiro livro e o publicou, como é que os leitores reagiram?

Gonçalo Correia, 14 anos, Lisboa "Até que enfim!" E esse primeiro livro teve uma primeira crítica, a grande escritora Matilde Rosa Araújo, que isto: "Tinha nascido um novo escritor". Foi muito estimulante ouvir essas palavras que nunca esquecerei.

O meu professor trouxe-nos o livro Verdes são os campos para a Hora do Conto. Queria saber porque o escreveu e porque fala de Paredes de Coura?

Diogo Gama, 9 anos, Paredes de Coura Foi uma peça de teatro encomendada pelo Centro Dramático de Viana de Castelo, e estreada no Centro Cultural de Paredes de Coura, onde me pediram para falar da região. E eu fiz Verdes são os campos, um título que tem a ver com os campos do Minho e com o poema de Luis de Camões: "Verdes são os campos, da cor do limão, assim são os olhos do meu coração."

As suas histórias têm muitas vezes uma vertente engraçada. Considera-se uma pessoa engraçada e com sentido de humor?

Marco Coelho, 8 anos, Colégio Casa Mãe Não me cabe a mim dizer isso. Mas não tenho razões para ter mau humor. Não sou daquelas pessoas amarguradas, que se queixam muito. A vida tem-me dado felicidade. Portanto, gosto de transmitir essa felicidade e otimismo através dos meus livros.

Como escolhe os títulos dos seus livros, como por exemplo O rabo do rato?

Bruna Rebelo, 12 anos, 6º D, Escola Básica João de Barros. Viseu
Às vezes é mais difícil fazer o título do que o miolo do livro. Procuro que os títulos tenham uma certa vivacidade. Acabei agora um livro chamado Atirem-se ao Ar. E porquê? Porque é sobre os princípios da história aérea, quando o homem começa a voar. É a história de um senhor que gostava de balões e de outros que preferiam os aviões.

Como é a vida de um escritor famoso? É reconhecido na rua?

Ana Vidinha, 9 anos Ai, que horror! Eu sou muito menos conhecido do que aquelas pessoas do programa Casa dos Segredos. Felizmente. Isto da fama é uma ideia que tem de ser um bocadinho afastada. A má fama é porque a pessoa fez alguma maldade que não devia. Eu gosto é da boa fama, o passar despercebido e que não digam muito mal de mim.

De todos os livros que escreveu, qual é o seu preferido? Porquê?

Mafalda Rodrigues e Carina Esperança, 13 anos, Externato D. Fuas Roupinho, Nazaré Não tenho livros preferidos. Mesmo os dedicados aos meus filhos e neto, não são necessariamente os que eu prefiro. Mas não rejeito nenhum livro, nem mesmo aqueles que já estão um bocadinho mais vencidos pelo tempo.

Qual é o próximo livro que pensa escrever?

Bruna Rebelo, 12 anos, Viseu Também não penso. Às vezes, começo a escrever. Mas ainda agora acabei uma peça de teatro, tenho de esperar um tempo até voltar à secretária para escrever novamente. Essa peça de teatro tem a ver com o romance português Viagens na minha terra, do Almeida Garrett. É sobre a história da Joaninha dos olhos verdes. Talvez seja esse o livro que irei escrever de seguida.

Costuma festejar de alguma forma especial quando acaba um livro?

Rodrigo Pedrosa, 8 anos, Paredes Com um suspiro de alívio, às vezes. Não faço festa. Com 140 livros já publicados, teria de fazer muitas festas. Mas se é uma obra com mais peso e responsabilidade, digo a algumas pessoas "olha, já acabei". E elas respondem-me: "Vamos ver se, um dia destes, almoçamos."

Hoje em dia, qual é o seu sonho?

Mafalda Passos e Sara Sousa O meu sonho é que isto melhore tudo. Pensei que iríamos viver uma relação mais desafogada com o mundo... Mas isso não é um sonho, é um desejo. Espero ajudar a ultrapassar este momento difícil que estamos a viver.

Gostava de vir à minha escola contar histórias?

Bruna Rebelo, 12 anos, Viseu Sim. Gosto muito de contar histórias, às vezes sem ler o texto. Como comecei a inventar histórias quando tomava conta dos meus primos, talvez tenha sido esse ato de contar histórias que me levou à escrita. E as pessoas dizem-me que eu escrevo como quem está a falar com os outros.

Gosta de visitar as escolas?

Bruna Rebelo, 12 anos, Viseu Gosto. É um prolongamento da minha atividade de escritor: dar-me a conhecer em pessoa. Dantes, não havia esta facilidade de os autores visitarem as escolas. O primeiro escritor que conheci, foi o meu avô que o apontou: "Olha, aquele senhor é o Ferreira de Castro." As imagens dos escritores que vinham nos nossos livros de leitura mostravam figuras antigas: o Eça de Queirós tinha um monóculo, o Camilo Castelo Branco usava os bigodes muito compridos, o Almeida Garrett tinha uma grande cabeleira... Uma vez, fui a um café pela mão do meu avô e vi um senhor de cabelos brancos compridos, ondulados e muito bonitos. E eu disse logo que ele era um escritor. Mas não: era calista!

Porque é que se dedicou à escrita?

Mafalda Rodrigues, 13 anos, Externato D. Fuas Roupinho, Nazaré Isso foi acontecendo naturalmente, por causa de eu ter trabalhado em jornalismo e por ter contado as tais histórias aos meus primos. Hoje em dia, um deles é almirante, o outro é cantor de ópera. As minhas histórias tiveram um contributo positivo.

Gosta de escrever para o público infantil?

Carina Esperança, 13 anos, Externato D. Fuas Roupinho, Nazaré Gosto. Seria terrível fazer isto como se fossem trabalhos forçados. Era uma tortura permanente. O escrever faz parte da minha vida, e tem-me ajudado. Desloca-me da vida corrente e de alguns desgostos, e faz-me bem. É por isso que continuo a escrever.

De todos os livros que escreveu, qual é que teve mais sucesso?

Catarina Baltazar, 8 anos, Extremoz Um livro chamado Ler, ouvir e contar, feito no ano 2000 - Ano Nacional da Leitura. Uma primeira edição de 470 mil exemplares foi oferecida às escolas de todo o país. Tanto eu como os ilustradores demos o nosso trabalho de graça. Hoje, já saíram várias outras edições.

Estava na Serra da Estrela quando escreveu O Adorável Homem das Neves?

Catarina Baltazar, 8 anos, Extremoz Não. Mas certa vez, que fui a uma escola da Covilhã, os alunos surpreenderam-me com uma peça que era a versão simplificada desse livro.

O que queres perguntar a Sérgio Godinho, Lídia Jorge e Valter Hugo Mãe?

Tu podes ser o próximo entrevistador da VISÃO júnior! De todas as perguntas que recebermos, vamos escolher os autores das melhores para irem falar com os escritores convidados. Envia as tuas questões para escritoresjunior@visao.impresa.pt

Sérgio Godinho: Questões até 6 de Fevereiro

Lídia Jorge:Questões até dia 29 de Fevereiro

Valter Hugo Mãe: Questões até dia 9 de Março

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