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VÍDEO: À conversa com Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada

O escritor és tu!

Foi na sala de trabalho onde escrevem as suas aventuras que as duas escritoras receberam os três 'repórteres' Manuel Guilherme de Oliveira, 10 anos, Daniela Santos Diniz, 14 anos, e Catarina Ferreira, 14 anos. Aqui, podes ler mais perguntas e respostas que não couberam na revista

As duas escritoras receberam os três leitores, Manuel Guilherme de Oliveira, 10 anos, Daniela Santos Diniz, 14 anos, e Catarina Ferreira, 14 anos

As duas escritoras receberam os três leitores, Manuel Guilherme de Oliveira, 10 anos, Daniela Santos Diniz, 14 anos, e Catarina Ferreira, 14 anos

Que trabalho é que cada uma das escritoras faz?

Rodrigo Lopes, EBI Patrício Prazeres

AMM: Fazemos a pesquisa juntas. Quem escreve, sou eu, porque a minha letra percebe-se melhor. Depois, entregamos o livro a uma rapariga chamada Louisa Chibante para ela passar o manuscrito a computador. Mas se eu me aleijar na mão, posso passar a caneta à Isabel. O trabalho é uma leitura dialogada: eu digo uma frase, a Isabel diz outra, e vamos registando.

 

Como selecionam os temas?

Vasco

AMM: Os temas têm de estar de acordo com o sítio onde se passa a historia. Por exemplo, em Uma Aventura no Supermercado, um dos objetos que entra na história é uma pasta de dentes. Tem lógica: não íamos pôr uma pasta de dentes na Amazónia ou um índio num supermercado português. Cada lugar mostra o tipo de problemas ou assuntos que podem ser tratados. Em Timor, como os habitantes gostam muito de música, tocam instrumentos como tambores e flautas, e cantam em muitas línguas, achámos que era muito giro escrever sobre um mega concerto em Timor e honrar esse amor deles à música.

 

Li Uma Aventura no Pulo do Lobo e gostei muito. Depois de ler o livro, fui visitar Mértola e o Pulo do Lobo. Porque fizeram uma história em pleno Alentejo?

Francisco Duarte Gil

AMM: Na mesma semana, recebemos três cartas de leitores de sítios completamente diferentes do país, a proporem uma aventura no Pulo do Lobo. Não conhecíamos o lugar mas achámos que, se tanta gente dá esta sugestão, se calhar é giro. Então resolvemos ir  lá conhecer e ver se o Pulo do Lobo se adaptava a uma aventura. Considerámos que sim.

 

E porque é que escolheram a ilha de Timor para outra aventura?

Iva Matos, 9 anos, Guimarães

IA: Já tínhamos sido várias vezes desafiadas por pessoas de Timor para aí escrever uma aventura. Não tivemos oportunidade antes para viajar até lá, pois é longe e a  pesquisa exige tempo para compreender os hábitos dos habitantes. Dessa vez, conseguimos corresponder a esse desafio.

AMM: Vejam só a época em que a gente vive. Para lá chegar, demora-se 24 horas a voar. E nós achamos: "Eh, tanto tempo..." Mas, ao ler coisas escritas pelos nossos antepassados que iam para Timor, vimos que demorava um ano a navegar até lá. Tornámo-nos muito impacientes no século XXI... 

 

Antes de considerarem o livro concluído, costumam lê-lo a alguém em especial?

Turma 5º D, Escola Básica e Secundária Ferreira de Castro, Oliveira de Azeméis.

AMM: Agora, não. Nós próprias é que lemos o livro até ao fim, a ver se está tudo certo. Porque, às vezes, pode haver algo errado: dissemos que a casa não tinha janelas do lado esquerdo, e depois alguém saí pelas janelas do lado esquerdo. Há sempre pormenores a serem afinados.

O que fazem nos tempos livres?

Simão Bento

IA: Nós gostamos muito de ler. Somos leitoras ávidas, andamos sempre à procura de livros, de autores que já conhecemos, de autores que não conhecemos. Mas gostamos de muitas outras coisas: gostamos de música, de estar com a família, de passear. Pessoalmente, gosto muito de fazer jardinagem. Nunca nos aborrecermos por não ter o que fazer. O nosso problema é que o tempo é sempre pouco. Tanto uma como outra, quando acordamos pensamos logo em sete ou oito coisas para fazer.

AMM: Eu também gosto muito de ir à praia. Mas tenho um problema: o meu marido detesta. Então, temos que negociar: uns dias de praia, uns dias de campo, uns dias de praia, uns dias noutra cidade.

IA: Também gostamos de teatro e vamos muito a concertos. Aproveitamos bem o tempo.

Que livros gostavam de ler durante a adolescência?

8º ano, turma A, Agrupamento de Escolas Professor Egas Moniz

IA: Quando tínhamos a idade das personagens de Uma Aventura, líamos histórias deste género. Depois, tanto uma como a outra começámos a gostar de histórias policiais. E, a certa altura, começamos a apreciar todo o tipo de romances, contos, poesia, artigos de divulgação cientifica... E gostamos também de ler livros de historiadores que nos contam as suas conclusões quando investigam uma certa época.

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Ao escrever, sentem-se mais jovens? 

Ana Margarida Batista Guedes, 12 anos, Eb2-3 do Peso da Régua

AMM: Ao escrever, a minha cabeça e a da Isabel têm de funcionar como se tivéssemos a idade dos leitores. `As vezes, até nos obrigamos a refazer os textos: deixa cá ver se esta é o tipo de frase que é entendida e que agrada a quem tem 10, 11, 12 anos. Isso obriga-nos a pôr o cérebro a funcionar.

IA: Quando éramos mais novas, éramos bastante aventureiras. E, muitas vezes, conseguimos lembrar-nos de situações que vivemos nessa altura. Uma vez, estávamos a escrever uma história em que as nossas personagens tinham que ir ao telhado. Eu lembrava-me muito bem de como é que tinha posto os pés no telhado para conseguir não cair lá em baixo. Claro que a minha mãe, nessa altura, não sabia que eu estava no telhado. Há pouco tempo, os meus netos quiseram ir ao telhado da minha casa, e o avô disse: "Nem pensar." Mas eu disse-lhes: no verão, eu levo-os ao telhado e explico como e que devem pôr os pés para não cair.

 

A História de Portugal parece ser um elemento fundamental na escrita da maioria dos vossos livros. Porquê?

Guilherme, 9 anos

AMM: Fomos ambas professoras de português e de história de Portugal. Se calhar, se fosse professora de ciências, puxava mais por temas científicos. Mas eu gosto imenso de história e qualquer professor dessa disciplina gostaria de ter uma máquina de viajar no tempo, para pegar nos alunos e ir ver o que aconteceu, em vez de estar só a contar.

 

Com quem gostariam de passar uma tarde a conversar?

Turmas do 8º C e 8º D, Escola EB23/S Josefa de Óbidos

IA: Nós somos muito conversadoras e gostamos de conversar com pessoas de várias idades. Quando vamos às escolas falar com os alunos, é sempre um grande prazer. Mas também gostamos de falar com pessoas da nossa idade, com pessoas mais velhas. Temos gosto por comunicar com todo o tipo de seres humanos.

 

Dos muitos países que visitaram, qual foi o vosso preferido?

Catarina Ferreira, 14 anos, Maia

IA: Não sei. Todos os países têm um grande encanto, se formos lá com a ideia de os conhecer mais profundamente, de contactar com as pessoas, de perceber o que é que há de interessante.

AMM: A Amazónia foi uma experiencia fantástica, diferente de todos os outros sítios no mundo. Cabo Verde também foi uma viagem giríssima. Eu repetiria todas as nossas viagens menos uma: a que fizemos ao deserto. Houve um momento em que achei que nos iríamos perder no deserto do Sara. 

IA: Sim, porque não se viam nem carros nem gente nem nada. Eram quilómetros e quilómetros... E, de repente, lembrámo-nos: "Se o carro parar aqui, nunca mais nos encontram." Até porque nos tinham contado que o jeep de um viajante francês se tinha perdido e que ele nunca mais tinha sido encontrado. Foi uma sensação inquietante.

AMM: O meu marido é que ia a conduzir o carro onde íamos os três. Só quando chegamos ao oásis, é que confessámos todos o que nos tinha passado pela cabeça: "E se o carro avaria, quando é que passará alguém que nos salve? E se houver uma tempestade de areia, e desaparecemos engolidos  pelo deserto? Mas quem é que nos mandou vir para aqui?" Foi uma recordação forte mas, ao deserto, eu só volto obrigada.  

Biografia

Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada nasceram em Lisboa. A primeira tem 65 anos, foi a primeira de cinco irmãos, e durante muito tempo não soube qual era a sua vocação. Estudou filosofia, casou aos 21 anos, e descobriu que queria ser professora por acaso, quando deu aulas em Moçambique. A segunda, Isabel Alçada, tem 61 anos, é a primeira de três irmãos, também estudou filosofia e foi igualmente professora de Português e História no 2º ciclo. Entre 2009 e 2011, foi Ministra da Educação. Em 1976, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada conheceram-se à porta da Escola Fernando Pessoa e tornaram-se amigas, pois tinham muitas coisas em comum: infâncias felizes, com muitos primos, brincadeiras e actividades extra-curriculares. Seis anos depois, escreveram o seu primeiro livro a quatro mãos: Uma Aventura na Cidade. A coleção já soma 53 aventuras. E originou uma série de televisão e um filme. Mas as autoras escreveram muitos outros livros, alguns sobre história de Portugal. "Adoramos o que fazemos", dizem elas.

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