Visão Júnior

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Quando Vasco da Gama chegou à Índia

Visão Júnior

Ilustração de Roque Gameiro

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Um dia que mudou a História: há 519 anos, Vasco da Gama e os seus companheiros não viajaram pelo Espaço, mas… descobriram que havia outras galáxias no nosso Mundo

No final do século XV não havia GPS, nem telemóvel, nem rádio. Nem sequer motores! Os exploradores viajavam à vela em naves de madeira, tão apertados que mal tinham espaço para se deitarem a dormir. Vomitavam no meio do cocó e do chichi e morriam de escorbuto, por falta de alimentos frescos. E tinham medo de encontrar monstros marinhos e homens com a cara na barriga.

Foi nestas condições assustadoras que os navegadores portugueses do século XV começaram a explorar o mundo desconhecido, começando pelas ilhas atlânticas e pela costa africana. Sabia-se que existia, lá muito, muito longe, um lugar chamado Índia, de onde vinham, às costas de camelos, através de desertos medonhos, as muito cobiçadas especiarias (pimenta, canela, noz moscada…), que quando cá chegavam eram vendida caríssimas. Foi então que o rei português D. João II decidiu procurar um caminho que conduzisse à Índia por mar, de forma as que pudéssemos ir lá buscar diretamente esses produtos e vendê-los na Europa com grande lucro. Foi já no tempo do novo rei, D. Manuel I, que a expedição se realizou. O comando foi entregue a Vasco da Gama (que parecia velhote porque usava umas grandes barbas, mas só tinha 28 anos).

A esquadra, de três naus e uma caravela, partiu do Tejo a 8 de julho de 1497. Fez escalas nas ilhas Canárias e de Cabo Verde e deu depois uma grande volta pelo oceano assustador, para se virar a seguir para Oriente e contornar o cabo da Boa Esperança, no sul da África.

A armada de Vasco da Gama era composta por três naus e uma caravela de carga

A armada de Vasco da Gama era composta por três naus e uma caravela de carga

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Outra galáxia

Depois de terem deixado a região do Cabo, ancoraram junto da foz de um rio onde lhes apareceram mulheres e homens elegantes e de um negro brilhante, ostentando lanças e punhais de ferro com cabos de marfim e adornos de cobre na cabeça. A troca de calças e barretes de pano por cobre correu muito bem e fizeram-se amizades. Não admira que os navegantes tenham chamado ao sítio Terra da Boa Gente.

Os aventureiros entraram a seguir em águas desconhecidas dos europeus, descobrindo com espanto que na costa oriental da África havia «cidades de pedra», muito mais civilizadas do que os lugarejos da costa atlântica. Nem queriam acreditar! Estavam em pleno mundo das Mil e Uma Noites, que a nós até nos faz lembrar o das Star Wars! Eram como astronautas que tivessem contactado com outra galáxia.

Vasco e os seus viveram ali imensas aventuras, até encontrarem um piloto conhecedor das monções (ventos que sopram metade do ano num sentido e outra metade no outro), que os conduziu em segurança à Índia.

Um dos estados da costa ocidental da Índia, Kozhikkod (a que os portugueses chamaram Calecute), era governado por um samutri, título aportuguesado para «samorim». Este era aliado dos árabes, que dominavam o comércio marítimo da zona.

No dia 20 de maio de 1498, quando a esquadra chegou a Calecute, Gama mandou desembarcar um marinheiro para explorar o sítio. De repente apareceu um mouro que perguntou ao explorador: «Al diablo que te doo; quem te trouxe acá?». Estava quase a falar em português!A presença ali, tão longe, de alguém que articulava sons familiares depressa haveria de esclarecer-se: era um mouro de Tunes, dos muitos que circulavam dentro do Império Otomano, que ia desde o Norte de África até às portas da Índia. Os portugueses ficaram um bocado baralhados!

Gama perante o samorim de Calecute

Gama perante o samorim de Calecute

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Grandes aventuras

Não há aqui espaço para contar as aventuras vividas por estes portugueses em Calecute, o que é pena. A princípio foram bem recebido, mas depois o samorim e os árabes começaram a persegui-los.

Por fim, foram autorizados a ocupar um edifício para fazerem as trocas dos produtos que levavam por especiarias. Um português chamado Dias foi levar uns presentes ao samorim. Só que este ficou furioso por achar que as ofertas valiam pouco, e prendeu Dias. Ao saber disso, Vasco reteve a bordo da sua nau uns vinte indianos que ali estavam de visita. O samorim mandou então libertar Dias e escreveu uma carta a Gama na qual dizia aceitar fazer comércio com o rei de Portugal. Mas Vasco não se deu por satisfeito, pois faltava-lhe recuperar as mercadorias desembarcadas, e por isso enviou a terra seis dos reféns, com a mensagem de que os outros só seriam libertados em troca das mercadorias. Como estas não chegassem, decidiu voltar para Portugal, trazendo os reféns.

O regresso fez-se sem grandes problemas, e as naves aterraram na base (perdão, entraram no Tejo) dois anos depois da partida, com apenas 65 sobreviventes dos 170 expedicionários iniciais.

Estava inaugurada a primeira era de globalização. A História do Mundo entrava numa nova fase. Ainda não «espacial», mas já muito «especial».

Ilustrações de Roque Gameiro e Veloso Salgado