Visão Júnior

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«Pedro Alecrim», de António Mota

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Pedro Alecrim reparte os seus dias entre a escola, as brincadeiras com os amigos e o trabalho no campo para ajudar a família. Pedro gosta de andar na escola, embora se interrogue sobre a utilidade de algumas matérias e nem sempre aprecie o feitio de alguns professores. Os dias vão passando, com sonhos, alegrias e tristezas. A morte do pai alterará tudo. Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças e jovens.

Livro nomeado para o 2.º ciclo

À boleia da imaginação

Entrevista
António Mota

Os primeiros vencedores da iniciativa Agora o escritor és tu!, da VISÃO Júnior, continuaram a história de Pedro Alecrim e entrevistaram o seu autor, o escritor António Mota. Um encontro recheado de histórias e de muitas gargalhadas!

É tão bonito! Temos aqui gente de tão longe!», comentou, emocionado, o escritor António Mota, no início do encontro com os alunos do 6.° ano das escolas que venceram o desafio da VISÃO Júnior Agora o escritor és tu!, destinado a turmas do ensino básico.

Damaia, Figueira da Foz, Arronches e Ponte de Lima são os locais de origem das quatro turmas de alunos que continuaram, da melhor maneira, a história de Pedro Alecrim. Como prémio, visitaram a redação da revista, em Oeiras, e entrevistaram o autor do livro, António Mota. Apesar do nervosismo inicial, as brincadeiras do escritor ajudaram a descontrair toda a gente e as perguntas começaram a surgir. Raquel Bastos, 11 anos, da EB 2/3 Professor Pedro D'Orey da Cunha, Damaia, adorou descobrir como António Mota começou a escrever porque também gosta muito de inventar histórias. Já Gonçalo Matos, 11 anos, da EB 2/3 António Feijó, Ponte de Lima, vai aproveitar os conselhos do autor para passar a gostar mais de ler. Antes de lanchar com os alunos e de satisfazer os seus pedidos de autógrafos e de fotografias, o escritor pediu aos alunos para não se esquecerem de uma das suas frases preferidas: «Ler não engorda!», e arrancou mais uma gargalhada à assistência.

Como é que surgiu a personagem Pedro Alecrim?

Inês Lucas, 11 anos, Colégio de Quiaios

O que eu disser, aqui, sobre este livro pode ser tudo imaginação minha. Tudo mentiras! [risos] Hoje, posso dizer que o Pedro Alecrim surgiu de uma maneira e amanhã digo diferente. Não te acredites nos escritores, eles estão sempre a imaginar! A função do escritor é escrever um livro e, depois, cada leitor interpreta de maneira diferente.
O meu Pedro nasceu como todas as outras minhas personagens: apareceu assim. Muita gente pensa que o Pedro sou eu. Não sou, mas também sou. Também me perguntam se aquela história me aconteceu. Não, mas também sim... Em que é que ficamos? Ficamos com um livro que eu nunca pensei que tantos anos depois continuasse a ser lido.

Que livro seu é que me recomendaria, sem ser o Pedro Alecrim?

Grace Furtado, 13 anos, EB 2/3 Professor Pedro D'Orey da Cunha, Damaia

Lê Cortei as Tranças. É sobre uma menina chamada Marta que detesta estudar. Ela fez o 6.º ano e não quer estudar mais, mas a mãe tanto a massacra que ela acaba por se ir matricular. As matrículas são em junho e, num dia de muito calor, ela chega a casa e resolve tomar um duche.
Ela costumava fechar muito bem a porta, mas, desta vez, deixa-a encostada. Quando está a olhar-se ao espelho, a porta abre-se e quem é que lá está? Está lá...
[mexe a boca sem emitir sons] Esta parte que vocês não ouviram está no livro. [risos] No fundo é aquela história quando vocês perguntam: «Mãe, tu agora falas assim, mas quando tinhas a minha idade como é que eras?».
É esse exercício que faço nesse livro.

O cavaquinho é um instrumento importante no livro Pedro Alecrim. O que o levou a falar dele?

Mariana Alves, 11 anos, Colégio de Quiaios

Há coisas que eu gostava de fazer e nunca fiz bem: gostava de ser pescador, mas nunca pesquei nada; gostava de tocar viola, mas nunca toquei nada de jeito. Sempre me fascinou ver alguém a tocar cavaquinho. Se reparares, um cavaquinho é um coração que ficou mais compridinho. Aquelas quatro cordas são a vida. Inicialmente, o livro era para se chamar Partiram as Cordas ao Cavaquinho, mas não quis esse título porque nesse ano foi para primeiro-ministro um senhor chamado Cavaco Silva. [risos]

A amizade é um assunto importante no livro. Também a valoriza na sua vida?

Eliana Peixinho, 11 anos, Colégio de Quiaios

Sempre fui muito sensível a essa história da amizade. Quando as pessoas dizem que têm muitos amigos, desconfio. Se tiverem um amigo durante a vossa vida, deem-se por felizes. Há pessoas que pensamos serem nossas amigas, mas, na hora da verdade, não nos ajudam, têm sempre muitos compromissos. Outra coisa que aparece no livro é aquela ideia de que quando olhamos para alguém gostamos dela ou não. Às vezes, temos de conhecer melhor as pessoas, e só as conhecemos melhor se convivermos com elas. Todo o ser humano tem dentro um coração.

Onde é que se inspira para escrever as suas histórias?

Gonçalo Matos, 11 anos, EB 2/3 António Feijó, Ponte de Lima

É muito difícil dizer como é que as coisas nascem. Custa-me imenso escrever a primeira frase e nunca sei o que vai acontecer a seguir.
Sou o primeiro leitor daquilo que escrevo. Se calhar, o meu próximo livro vai começar com um rapaz que vi num comboio com um papel na testa que dizia: «Saio em Espinho».
Ele passou a viagem a dormir e, quando chegámos a Espinho, as mulheres todas da carruagem chamaram-no. [risos]

Quando escreveu este livro achou que ele se ia manter tão atual nesta altura de crise?

Luísa Costa, 11 anos, EB 2/3 António Feijó, Ponte de Lima

Quando escrevo só estou preocupado em encontrar a palavra que me falta. Escrevo muito devagar.
Há pessoas que escrevem muito depressa, mas eu não consigo.
Sou mesmo um atadinho! [risos] Quando estou a inventar, estou noutro mundo. Apesar de ter uma janela com dois metros, o meu computador está virado contra a parede.
Quando o ligo, entro no mundo da minha imaginação. De modo que não estou a pensar em nada dessas coisas da crise.

Com que idade é que começou a escrever?

Ana Trindade, 11 anos, EB 2/3 Nossa Senhora da Luz, Arronches

Acho que tudo começou quando eu tinha 8 anos. Fui escritor no dia em que dobrei uma folha de papel para fazer um pequeno livro. Nesse livrinho, que trazia sempre no bolso, escrevia tudo o que me passava pela cabeça. Quando acabava um livro, fazia outro, mas hoje não sei onde estão. Foi a partir dessa altura que comecei a ser escritor. Sempre senti que era diferente dos outros. Não gostava de jogar futebol, mas jogava. Eu queria era ler e escrever.

Qual o livro de que se orgulha mais de ter escrito?

Jéssica Rodrigues, 11 anos, Colégio de Quiaios

Já fizeste algum bolo com a tua mãe? Quando faz um bolo, ela só quer que ele fique muito bem. Depois, come-se o bolo e o que é que se faz a seguir? Pensa-se no próximo bolo. Comigo é o mesmo. Quando estou a escrever um livro quero que saia o melhor possível. Depois, o tempo passa e eu esqueço tudo.
Se fizesse agora um teste sobre o Pedro Alecrim tirava negativa, vocês sabem mais do que eu! Mas há personagens que não esqueço, como o Pedro, a Marta... Gosto muito da Marta, do livro Cortei as Tranças, e gosto muito d'A Casa das Bengalas, um livro que acabei de escrever a chorar. Mesmo a chorar, e foi uma coisa que eu inventei! Vocês não vão para escritores que eles são meios doidos... [risos]

O que diria a um jovem que não se sente motivado para a leitura?

Sara Rosa, 11 anos, EB 2/3 Professor Pedro D'Orey da Cunha, Damaia

Daria o seguinte conselho: «Por favor, não digas que não gostas de ler.
Eu percebo que te sintas desmotivado, mas tens que encontrar o teu livro. Tu podes não gostar daquele livro, mas isso não quer dizer que não gostes de nenhum.» Eu tinha uma namorada, agora já não gosto dela, então não vou gostar de mais ninguém? Não, há tanta gente de quem podemos gostar.
O importante é encontrares um livro de que gostes. Se não gostas daquele tens nas mãos, põe-no de lado e vai à procura de outro.

Texto: Vânia Fonseca Maia

In VISÃO Júnior, sábado 1 de Fev de 2014

A aluna da escola Pedro D Orey da Cunha, Damaia, dá a sua opinião sobre o livro de António Mota, vê aqui

A Rádio Miúdos esteve à conversa com o escritor António Mota. Ouve a entrevista aqui