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«Missão Impossível», de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada

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pedro

"O jantar estava ótimo, mas Rodrigo já tinha comido tudo, sentia-se empanturrado e gostaria de se levantar da mesa. O problema era ser visita naquela quinta de Freixo de Espada à Cinta que pertencia a uns amigos dos pais. Ainda lançou um olhar à mãe, a ver se lhe dava ordem de marcha, só que ela, ocupada com a papa do irmão mais novo, não captou a mensagem. Quanto ao pai, conversava animadamente com os donos da casa sobre um tal Jorge Álvares que nascera ali na terra, há 500 anos, e tinha uma estátua no largo principal. Todos pareciam admirá-lo imenso e não se cansavam de repetir frases do tipo: «Devia ser um homem extraordinário, porque partiu pobre, de mãos a abanar, e conseguiu fazer fortuna.» «Extraordinário e corajoso.” É a vida deste homem que nos vai levar a conhcer lendas e costumes do oriente.

Livro nomeado para o 2.º ciclo

À conversa com Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada

Entrevistas

Foi na sala de trabalho onde escrevem as Aventuras que as duas escritoras receberam os três leitores, escolhidos entre todos os que nos enviaram perguntas. Os nossos «repórteres» descobriram, por exemplo, que os protagonistas de Uma Aventura existiram mesmo

Como surgiu o nome Uma Aventura?
Nuno Miguel Martins Gonçalves, 6.º ano, EB1-2-3 António Sena Faria de Vasconcelos, Castelo Branco

Isabel Alçada (IA): Quando escrevemos o primeiro livro, pensámos que tínhamos que dar uma ideia de que era uma história com ação e mistério. E achámos que Uma Aventura resumia muito bem essa ideia.

O que escrevem primeiro?, o título ou a história?
Camila Coelho, 11 anos, Leiria Ana Maria Magalhães

(AMM): Geralmente é a história. Depois, no fim, é que se vê qual é o título mais apropriado.

Qual foi a vossa inspiração para criar esta coleção?
Juliana Rocha, 11 anos, e Joana Rocha, 8 anos

IA: Inspirámo-nos, em primeiro lugar, nos alunos que tínhamos quando dávamos aulas, ao 5.º e ao 6.º ano. E procuramos inspirar-nos também na vida dos nossos dias.
Gostamos que as histórias transmitam algo útil e bom. O que é mau, como a ação dos bandidos, é sempre castigado.

Que livro interpretariam na vida real?
Sofia Lopes, 10 anos, Colégio Moderno de S. José, Vila Real

IA: Alguns livros foram inspirados em situações que vivemos quando éramos mais novas. Por exemplo, Uma Aventura no Bosque é na serra de Sintra, onde eu, as minhas irmãs, amigos e primos vivemos muitas peripécias. Atualmente, não gostaríamos de as interpretar porque já não temos idade.

AMM: Quase tudo o que está em Uma Aventura nas Férias de Natal, aconteceu comigo, na quinta dos meus avós. E na Aventura em Timor, há coisas que nos aconteceram às duas.
Por exemplo, andar num pequeno avião de seis lugares. Eu tenho medo de voar. E, na primeira vez que entrámos no avião, cheirou-me a queimado.
Mas não tive coragem de dizer a ninguém. Passado um bocadinho, o piloto desligou o motor e diz «curto-circuito». Depois, ao sobrevoar as praias, a Isabel estava nas calmas mas eu olhava lá para baixo e pensava: «Olha, se o avião cai, caímos diretas na boca de um crocodilo.»

As personagens de Uma Aventura são inventadas ou são verdadeiras?
Manuel Guilherme de Oliveira, 10 anos, 5.º ano, Escola EB2-3 D. Pedro II, Moita

IA: São todas verdadeiras.
As gémeas eram nossas alunas e tinham um cão como o Caracol. O Pedro era muito participativo.
O Chico era bom desportista e colega, um rapaz forte que ajudava os mais fracos. E o João tinha um pastor alemão que, de vez em quando, entrava lá na escola e deixava todos aterrados. Uma cena que entrou no nosso primeiro livro, Uma Aventura na Cidade.

Quantos países visitaram juntas?
Alice Le Coustumer, 9 anos, Lycée International St.Germain-en-Laye, França

AMM: Todos menos o Egito. Em alguns casos, o meu marido acompanhou-nos. Como na viagem ao deserto: era num país muçulmano e não era aconselhável duas mulheres viajarem sozinhas.

IA: Para Uma Aventura na Amazónia, fizemos uma viagem fabulosa.
Observámos peixes imensos, estivemos ao pé de golfinhos que nadam no meio das pessoas, vimos um hotel feito em estacas em plena selva amazónica, convivemos com os habitantes.

AMM: E tomámos um banho o rio Amazonas, apesar de eu ter medo das piranhas. Mas apareceu uma mãe com três filhos pequenos na praia, e começaram todos a preparar-se para ir tomar banho. Eu fui lá perguntar-lhes: Não há piranhas? «Tem sim.» E não há perigo? «Não, porque as piranhas só atacam se houver sangue.
Se as senhoras não têm feridas, podem nadar.» Ela atirou-se logo para dentro de água. Eu, como tenho o mau costume de roer as peles das unhas, comecei logo a ver se tinha sangue.

Encontraram muitas marcas dos portugueses em Timor?
Jorge Diogo, 12 anos, Santa Comba Dão

AMM: Sim. Houve um rapaz da vossa idade que veio a correr, entregou uma folha embrulhada e fugiu. Era uma bandeira portuguesa que ele desenhara e onde escrevera, em inglês, I love Portugal. Isto enterneceu-nos muitíssimo.

Estão sempre de acordo? Não se chateiam?
Catarina Ferreira, 14 anos, Maia

AMM: Se eu disser: Isabel, vamos fazer uma aventura na gruta. Ela diz logo: «E vamos pôr morcegos na gruta?» Eu podia trabalhar com outra colega que dissesse: «Ai na gruta, não quero, vamos antes fazer outra coisa.» E nunca mais nos entendíamos. Nós temos ideias que combinam.

Em Timor, há mesmo um pó que torna as pessoas invisíveis?
Matita

AMM: Segundo a tradição timorense, a ilha tinha povos de várias origens.

E havia tribos que tinham um pó que punham na cabeça, quando iam atacar uma tribo inimiga, com a ideia de que podiam chegar de surpresa sem que o inimigo as visse. Há lá umas casas sagradas, chamadas lulik, onde eles têm esse pozinho dentro de frasquinhos.
Não nos deram nenhum, portanto a gente não experimentou.

Existe alguma palavra que não gostem de usar na escrita?
Margarida Cardoso

IA: Não gostamos de palavrões. Sabemos que são usados pelas pessoas mas nas nossas histórias não entram. Achamos que é uma agressão inútil.

É verdade que, para escreverem Uma Aventura na Ilha Deserta, visitaram ilhas desertas?
Gonçalo

AMM: Sim, visitámos umas ilhas desertas na Tailândia, onde até é proibido dormir. Podemos ir lá num barco conduzido por tailandeses, podemos ir à praia e fazer piqueniques.
Mas não podemos entrar no interior, porque esta é uma reserva natural.

O que é, para vós, uma grande aventura?
Daniela Santos Diniz, 14 anos, Escola EB 23/S Josefa de Óbidos

IA: Na vida real, uma aventura é sempre algo que nos traz emoção, nos surpreende, e de que não sabemos qual é o desfecho.
Nas nossas Aventuras, é uma história bem construída, com lógica, em que há emoção, perigo e surpresa, e onde se descobrem coisas novas.

Como é escrever em parceria?
Júlia Fortes Pires, EB1-2-3 António Sena Faria de Vasconcelos, Castelo Branco

AMM: Nem todas as parcerias funcionam da mesma maneira. No nosso caso, fazemos a pesquisa juntas. Depois, sentamo-nos à mesa, fazemos um plano de trabalho, e cada uma vai dizendo frases que vamos registando. No dia seguinte, lemos o que escrevemos na véspera.
Se nos parecer bem, fica. Se não nos parecer bem, deitamos fora e recomeçamos.

Se pudessem fazer algo para mudar o mundo, o que fariam? Daniela Diniz, 14 anos, Escola EB 23/S Josefa de Óbidos

IA: Eu tentava que as pessoas todas se entendessem melhor e se apoiassem mutuamente.
Que houvesse mais solidariedade.

AMM: Se fosse por artes mágicas, eu acabava com todas as doenças e com a maldade.

Que livro estão a escrever agora?
Manuel Guilherme de Oliveira, 10 anos, Escola EB-2-3 Dom Pedro II, Moita

AMM: Acabámos de escrever Uma Aventura no Sítio Errado, que sairá em 2012. E estamos a escrever Uma Viagem no Tempo ao Império Romano, que se vai chamar Em Roma, sê romano.

Porque decidiriam escrever para jovens e não para adultos?
Catarina Ferreira, 14 anos, Maia

IA: Começámos a escrever para os nossos alunos e sentimos que tínhamos essa vocação de comunicar com os mais novos. Como os livros começaram a ter muitos leitores, isso encorajou-nos a aprofundar essa linha de trabalho.

AMM: Eu sou a mais velha de cinco irmãos, e, desde pequena, inventava histórias para entreter os meus irmãos. Ainda era criança e já escrevia para crianças mais pequenas do que eu.

Se pudessem escolher outra profissão, qual seria?
Daniela Santos Diniz, 14 anos, Escola EB 23/S Josefa de Óbidos

AMM: Talvez jornalista. Ser escritora é um passatempo, nós somos professoras.

IA: Eu quis ser aviadora. Mas não tirei o brevet, a carta de condução de avião. Agora até estou contente de não ser aviadora, porque a idade não me deixaria voar.
Mas posso continuar a trabalhar nesta profissão, que adoro.

Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada nasceram em Lisboa. A primeira tem 65 anos, foi a primeira de cinco irmãos, e durante muito tempo não soube qual era a sua vocação. Estudou filosofia, casou aos 21 anos, e descobriu que queria ser professora por acaso, quando deu aulas em Moçambique. A segunda, Isabel Alçada, tem 61 anos, é a primeira de três irmãos, também estudou filosofia e foi igualmente professora de Português e História no 2º ciclo. Entre 2009 e 2011, foi Ministra da Educação. Em 1976, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada conheceram-se à porta da Escola Fernando Pessoa e tornaram-se amigas, pois tinham muito em comum: infâncias felizes, com muitos primos, brincadeiras e atividades extracurriculares.
Seis anos depois, escreveram o seu primeiro livro a quatro mãos: 'Uma Aventura na Cidade'. A coleção já soma 53 aventuras. E originou uma série de televisão e um filme. Mas as autoras escreveram muitos outros livros, alguns deles sobre história de Portugal.
«Adoramos o que fazemos», dizem.

Texto: Sílvia Souto Cunha
In VISÃO Júnior, quinta 1 de Dez de 2011