Era difícil ficar indiferente, e Alexandre Farto não ficou. Dali do Seixal, onde nascera em meados dos anos 80 e onde sempre vivera, via-se a cidade avançar, a "triturar o espaço", recorda, a tomar conta do que antes era campo. Viam-se cada vez mais pessoas a chegar, a ocuparem os prédios que iam crescendo, em altura e extensão. Ali era quase impossível não reagir - e Alexandre reagiu. Agora, 25 anos feitos em fevereiro, olha para trás, em busca dessas memórias, para explicar como chegou ao lugar onde está agora - o cesto de uma grua erguido a dezenas de metros de altura, para poder esculpir um rosto na parede exterior de uma torre em Sete Rios, Lisboa. É, e sempre foi, a cidade a motivá-lo; foi ela que fez nascer Vhils, o nome com que assina; foi nela que encontrou inspiração para, por todo o mundo, espalhar esse nome, e é dela a grande responsabilidade de hoje ser reconhecido como um dos melhores artistas de street art do planeta. Não admira que, cá em baixo, a vê-lo trabalhar, estejamos nós e uma equipa televisiva alemã que prepara um documentário sobre ele. Nem que, nos próximos dias, seja procurado por jornais, revistas e canais de televisão, a aproveitar esta passagem de Alexandre por Lisboa, entalada entre a sua vinda de Londres (vive entre cá e lá), uma viagem de trabalho ao México e outra a Paris, uma passagem por Aveiro, e no último dia 1 de junho, a inauguração da sua exposição na Galeria Vera Cortês, em Lisboa.

A máscara e os óculos protegem-no e tapam-lhe a cara, enquanto solta, com um martelo pneumático, estilhaços da parede. Calças de ganga e t-shirt preta, faz por passar despercebido dentro da equipa de amigos que formou para trabalhar com ele. Visto cá de baixo, quase parece uma coreografia: ora à vez, ora ao mesmo tempo, Alexandre, Duarte, Viktor e Alexander vão escavando a parede sobre o desenho de um rosto que ali fizeram há dois dias. Os braços, as roupas, o cabelo, tudo em volta se vai cobrindo do fino pó branco que se liberta do cimento. O barulho das máquinas sobrepõe-se ao ladrar dos cães da União Zoófila, mesmo ao lado desta torre do Edifício-Escola da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários Lisbonenses. Ao fim da tarde, quando o Eixo Norte-Sul se começar a encher de carros no regresso a casa, já serão muitos os automobilistas a virar a cabeça na direção daquele rosto de olhar vazio que agora os fita dali de cima, daquela parede de cimento.

Construir destruindo

Esventrar uma parede e expor-lhe as entranhas, é isso que Vhils faz. Descobre as camadas de pedra que a formam, numa referência às camadas que nos formam enquanto pessoas e que formam também uma cidade - cidade essa que ele humaniza, dando-lhe uma cara, e pondo-nos face a face com ela. "Pegar na imagem de um cidadão comum, do everyday hero, e dar-lhe espaço numa cidade, criar uma metáfora sobre o quanto uma pessoa pode cravar uma cidade como a cidade a crava a ela. Esse ciclo sempre me interessou bastante, pelo caótico da cidade e a maneira como influenciamos as coisas sem estarmos conscientes disso. Trabalhar com o caótico levou-me ao trabalho com a destruição: construir, destruindo. E naquele caminho que fazemos todos os dias, de repente, temos uma cara num prédio em que nem notávamos, que estava completamente abandonado e entregue à especulação. Um não lugar passa a ter vida, estás a pôr-lhe um foco, tem uma nova utilidade e faz as pessoas pensarem naquilo. No final, estás a tocar na vida das pessoas, porque todos nós somos feitos de uma série de cadências de eventos", afirma Alexandre Farto. Scratching the Surface - foi assim que chamou a este projeto: arranhar a superfície, perceber o que está para lá dela, eliminar as camadas de ruído que se vão formando e que nos vão afastando uns dos outros.

Era quase impossível não reagir, já dissemos. E, para o perceber, temos mesmo que recuar a esses tempos no Seixal, quando Alexandre Farto começou a fazer tags (assinaturas de graffiti), tinha apenas dez anos. Aos 13, já grafitava a sério, na margem sul do Tejo e não demorou a integrar o coletivo Leg Crew, de Almada. Fazia letras, sobretudo, era isso que apreciava e foi assim que nasceu o nome Vhils, simplesmente por serem estas as que mais gostava de desenhar. Escapulia-se de casa à noite para ir pintar comboios e paredes, passou pelos tormentos de quem insiste em fazer graffitis, fugiu pelas ruas escuras, foi parar à esquadra uma vez, mas isso tudo só serviu para gostar cada vez mais do que fazia. E começou a olhar, com mais atenção, para as paredes que grafitava: de um lado, via os desenhos murais do pós-25 de Abril esboroarem-se até quase já não se verem, do outro, os cartazes publicitários a acumularem-se como grossas paredes sobre paredes já existentes. "Aquela atividade combativa do pós-25 de Abril não era enaltecida, apesar de fazer parte da nossa história. Aqueles resquícios das pinturas refletiam o tratamento que lhes era dado, como se esse sonho e essa utopia tivessem sido completamente esquecidos. A publicidade a ir para cima dos murais, e depois o graffiti, e a cidade a tentar limpar isso... Se escavarmos todas essas camadas sobrepostas quase conseguimos ver a história daquele lugar", nota Alexandre. "As paredes refletem a contemporaneidade; a velocidade com que essas camadas estão a fazer essa construção sempre me cativou, e interessa-me perceber como conseguir tirar da cidade uma impressão daquilo que se vive", acrescenta. Uma ideia que se aplica a Lisboa ou ao Porto, a Londres, Paris ou Xangai, cidades em cujas paredes já trabalhou. "Passar do local para o global ainda dá mais sentido ao trabalho que executo. A margem sul deu-me uma visão que depois é adaptável a qualquer espaço do mundo. A globalização, de alguma maneira, disseminou um modelo de desenvolvimento urbano, económico e social. Quando se leva este tipo de trabalho para outros pontos do mundo é uma reflexão sobre isso mesmo: a velocidade a que o desenvolvimento evolui. E depois disto ninguém sabe o que vai acontecer, todos caminhamos sem saber o que vem aí, nem aonde estamos a querer chegar."

Do graffiti nas paredes, Alexandre Farto mudou-se para o graffiti na publicidade ilegal que se acumulava nos muros, na rua. "Comecei a vê-la como uma tela, como um espaço onde podia trabalhar", conta. Descobriu que um stencil pode não ser apenas a técnica em que, através do recorte numa folha de papel ou de acetato, se aplica tinta e se deixa impresso na parede o desenho que daí resulta: "É como uma janela para ver algo que está atrás." Por isso, em vez de adicionar mais uma camada à cidade, começou a retirar, nessa espécie de escavação arqueológica. E encontrou o seu método de trabalho nas ruas.

Corrida de ratos

Alexandre Farto tinha 18 anos quando participou na organização da Visual Street Performance - VSP, no Bairro Alto, em Lisboa, uma iniciativa de street art que atraiu centenas de pessoas, em várias edições anuais. No ano seguinte, sem média para entrar numa faculdade e com uma passagem rápida pela escola AR.CO, decidiu candidatar-se, com o seu portefólio como cartão de visita, à Central Saint Martins, em Londres, e foi aceite. Aproveitou os recursos da escola, as técnicas que lhe ensinaram e desenvolveu a sua obra, integrada no mundo da street art londrina, com o apoio da galeria Pictures on Wall. Dois anos mais tarde, em 2008, estava a participar no Cans Festival, organizado por Banksy nos túneis da estação de Waterloo - e foi aí que o mundo o descobriu (Portugal incluído...). O seu trabalho (os rostos de duas mulheres, uma jovem e outra velha, a olharem em direções opostas) fez capa do jornal The Times britânico, a BBC chamou-lhe "o Banksy português", o The Telegraph batizou-o "Andy Wall-hole", o The Guardian elegeu a sua obra como uma das dez melhores de street art do mundo. Havia de se seguir o convite da Galeria Lazarides, a mais prestigiada de street art em Londres (com artistas como Banksy, JR ou Blu) e hoje passa o tempo a viajar, para responder aos muitos convites de festivais. Já são três as galerias que o representam: a lisboeta Agência de Arte Vera Cortês, onde apresentou a sua primeira exposição Even if you win the rat race, you're still a rat, em 2008, a Lazarides e, agora, a Magda Danysz, em Xangai.

"Todo o trabalho que executo na rua é uma declaração de amor-ódio ao espaço urbano. Levar isso para uma galeria também é uma carta de amor à cidade porque o meu trabalho anda à volta da influência que a cidade tem em mim", diz Alexandre, que, em espaços fechados, tem trabalhado nas paredes, mas também com outros materiais - papel, madeira, metal - sempre com essa perspetiva das camadas que se acumulam e se retiram (até nas ilustrações que fez para jornais e revistas, como a VISÃO, assinadas com as iniciais AMDF, se intuía esse conceito). Na exposição (Diorama) que se inaugura amanhã, 1 de junho, na Vera Cortês, e que se estenderá até 31 de julho, apresentará os trabalhos desenvolvidos nos últimos dois anos. Algumas das peças, em esferovite, têm quase dois metros de altura, e falam-nos, uma vez mais, da nossa relação com as cidades e como elas nos criam a identidade: de uma certa perspetiva, a representação de um conjunto de prédios transforma-se num rosto anónimo.

No entanto, Alexandre prefere não esmiuçar os significados daquilo que cria a fim de deixar espaço à interpretação de cada um. "A conceptualização extrema do teu trabalho é a mesma coisa que estar em frente de um espelho a falar para ti próprio, e isso não me interessa", explica. Se, em tempos, chegou a trabalhar à volta de frases ou de palavras - "Lisboa, limpa por fora, podre por dentro", inscreveu numa parede; ou "It's all about make up" e "reality", escavacou - hoje, opta por deixar as palavras de fora. Mas o trabalho que faz, reconhece, "é uma crítica, de alguma maneira, política".

Lugares estéreis

Junto à torre de Sete Rios, Alexandre Farto há de subir, uma vez mais, na grua, para ser entrevistado pela jornalista da equipa de televisão alemã. Na noite seguinte chegará a Aveiro e aí deixará um rosto esculpido na Estação Ferroviária, três dias depois participará nas conferências TEDXAveiro e, a seguir, voltará a Lisboa, para, noite dentro, "marcar uma parede", na Avenida Calouste Gulbenkian, onde, depois, irá cravar mais um rosto na cidade. A agenda de Alexandre quase não tem espaços em branco ("acalmar é uma coisa que não existe hoje no meu vocabulário"), sobretudo em época de exposições. Mas é o trabalho na rua que mais o motiva, ou não viesse ele do mundo do graffiti - assume-se, aliás, como um dos seus grandes defensores. "O graffiti foi a minha escola, deu-me o ato de intervir no espaço público. Tem um potencial enorme como dinamizador cultural e como potenciador criativo, mas há um dinamismo que se destrói pela forma como é visto. O problema não é a maneira como o graffiti existe na cidade, é mais como a cidade trata o graffiti. Sempre foi visto como um intruso, como algo que deve ser limpo e combatido, quando, na realidade, faz parte dela. Pode revitalizar o lado visual de um lugar e pode, também, pôr o dedo nas feridas da cidade, chamar a atenção para os prédios devolutos, as zonas degradadas e esquecidas", defende. Contra um "espaço acetinado e cinzento em que o único ponto de cor seria a publicidade que nos vai ao bolso ou a sinalética da cidade", Alexandre intervém como sabe. Sem isso, acredita, chegaríamos "ao puro funcionalismo da cidade, quando, pelo contrário, a cidade é um sítio onde as pessoas querem viver e onde querem sentir uma identidade". E observa: "Quando não há intervenção das pessoas no espaço público, os lugares tornam-se estéreis. O espaço público deixou de ser visto como espaço de interação, de comunicação, de discussão, de enriquecimento, de diálogo."

De martelo pneumático ou martelo de aço na mão, com ácido ou borras de café, Vhils vai escavando camadas. No projeto Detritos (no qual se inclui o vídeo M.I.R.I.A.M. que realizou para a banda Orelha Negra), trabalhou com explosivos, para mostrar como um pequeno elemento consegue rebentar com uma estrutura que se tinha como sólida. "A ideia surgiu na altura em que se começou a falar da crise na Europa e em que começámos a pôr tudo em questão. Isso fez-me pensar sobre as camadas que estávamos a acumular há tantos anos e como, de repente, um elemento tão pequeno como o facto de não estarmos a crescer economicamente como devíamos nos pôs a questionar o porquê da União Europeia, a discutir e a falar de protecionismo... Num segundo, tudo salta e vem ao de cima, muito depressa passa de algo que estava esquecido, lá por baixo, para a ordem do dia."

No muro da Avenida Calouste Gulbenkian, em Lisboa, junto de um dos painéis de azulejos de João Abel Manta, as rugas de um rosto feminino vão ganhando textura, à medida que Alexandre Farto e Jucapinga (outro dos graffiters da equipa de Vhils) esculpem a imagem que ali deixaram impressa, na madrugada anterior. Os olhos de ambos denunciam as poucas horas de sono, mas as forças foram repostas com um almoço, ali meso, em pé, ao lado da grua, de bacalhau com natas do Pingo Doce, Coca-Cola e ainda uma bola de berlim com creme. Lá em cima, a tinta branca vai dando lugar ao interior do muro, mais claro. "Daqui a uns meses, a imagem começará a diluir-se mais na parede", diz Alexandre, "é disso que gosto, dessa patine que o tempo lhes dá." Ali ficará um rosto que não nos olha diretamente, mas que nos faz olhar para nós, e também em volta. Porque uma rua movimentada pode ser muito mais do que o caminho que se percorre, no trânsito, de casa para o trabalho e, outra vez, de regresso a casa. No fim de contas, tal como no princípio desta história, ali está a cidade, esse lugar onde todos vivemos, rodeados de "camadas de ruído que nos foram distanciando uns dos outros", sublinha Vhils. Escavaquemos a superfície.