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O regresso do abutre que se alimenta de medula óssea

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O quebra-ossos, que esteve próximo da extinção na Europa, foi avistado em Portugal pela primeira vez em mais de cem anos. Mas foi visita de médico

Ainda decorria o século XIX quando morreram os dois últimos quebra-ossos (também conhecido por abutre-barbudo) - segundo as crónicas, ambos foram abatidos pelo rei D. Carlos em 1888, na região do Guadiana. Centro e trinta anos mais tarde, um quebra-ossos voltou a estar na mira, em território nacional. Mas, mudando-se os tempos, a mira foi outra, bem mais inofensiva: um birdwatcher alemão fotografou um exemplar desta espécie no Algarve, no início deste mês, e enviou a foto para a Vulture Conservation Foundation, uma organização não-governamental dedicada aos abutres.

A ave foi entretanto identificada: trata-se de Rayo, um abutre libertado em 2014 na Andaluzia, Espanha, ao abrigo de um programa de reintrodução da espécie, que praticamente desapareceu da Europa Ocidental e Central. A Junta da Andaluzia, responsável pelo projeto, confirmou que Rayo visitou o sul de Portugal, nos dias 6 e 7 de maio, segundo os registos do emissor GPS.

Rayo, no entanto, não é o primeiro quebra-ossos a atravessar a fronteira. "Já se sabia, pelos emissores, que alguns animais tinham sobrevoado Portugal. Mas esta foi a primeira observação", diz Julieta Costa, técnica de conservação da SPEA - Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves.

Este é um bom sinal, que deixa os conservacionistas com esperança no regresso permanente destes abutres a Portugal. Mas ainda é cedo para pensar num casal a nidificar por cá. "Pode vir a nidificar no nosso território, mas não será tão proximamente. Por alguma razão a espécie ficou confinada a zonas remotas, a alguns picos, como os da Cantábria - é um animal muito sensível à perseguição humana", explica Julieta Costa.

Apesar de haver outros abutres em Portugal, como o grifo, o abutre-preto e o abutre-do-egito, este é de tal forma especializado que não concorre com mais nenhum - o quebra-ossos (uma ave que chega a atingir perto de três metros de envergadura) alimenta-se quase em exclusivo de medula óssea, altamente nutritiva. Daí o seu nome: uma das suas técnicas para partir os ossos de cabras, veados e outros animais é deixá-los cair de muito alto sobre as rochas; outras vezes pega nos ossos com o bico e bate com eles nas pedras.