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A guerra tóxica do glifosato

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Pesticidas - Ciência inquinada - Alguns estudos concluem que o glifosato pode provocar cancro. Outros, que não. Mas a discussão parece manchada por interesses vários

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Quando a União Europeia se prepara para decidir se proíbe o glifosato, surgem os “Monsanto Papers” – documentos que revelam promiscuidades entre a gigante de biotecnologia Monsanto e os organismos que declararam o seu pesticida seguro. Por outro lado, a agência da ONU que o considerou “provavelmente cancerígeno” admitiu ter ignorado dados que podiam ter alterado essa classificação. Afinal, em quem podemos confiar?

O avanço da Ciência nem sempre é linear. 
E no caso da avaliação da segurança do glifosato, aparentemente, quanto mais se descobre, menos se sabe. O último episódio da novela do pesticida mais usado no mundo é a divulgação de dezenas de milhares de páginas de documentos internos da Monsanto – um caso batizado de Monsanto Papers – que revelam ligações demasiado estreitas entre a multinacional de biotecnologia agrícola e algumas entidades que regulam o setor, lançando dúvidas sobre um processo que deveria ser exclusivamente científico. Por exemplo, num email de abril de 2015 agora revelado, um executivo da empresa cita um inusitado desabafo de Jess Rowland, figura de topo da Agência para a Proteção do Ambiente americana (EPA, no original): “Se conseguir matar isto, mereço uma medalha.” “Isto” era uma investigação ao glifosato feito pela também americana Agência de Substâncias Tóxicas e Registo de Doenças.

Palavras insólitas – Rowland parecia estar mais a zelar pelos interesses comerciais da Monsanto, agindo como ponta de lança da empresa, do que pelo interesse público, como lhe competia enquanto funcionário de um organismo federal. O comentário de um diretor da Monsanto para os assuntos de regulação parece confirmar esta coincidência de interesses. “Não tenham grandes expectativas. Duvido que o Jess consiga matar isto”, escreveu Dan Jenkins, num email para colegas seus.

A Monsanto respondeu, entretanto, a estas revelações: sugeriu que a EPA estava apenas preocupada com a possibilidade de a Agência de Substâncias Tóxicas iniciar uma análise do zero, redundante, quando a própria EPA já estava numa fase muito adiantada do processo. Ou seja, os interesses da EPA e da Monsanto coincidiam, sim, mas por razões distintas. Fosse por que razão fosse, a verdade é que o relatório toxicológico do glifosato dessa agência, que deveria ser publicado uns meses mais tarde, nunca saiu. Alguém matou “aquilo”.

A suposta perigosidade do glifosato é uma discussão antiga. Há estudos que apontam para um lado e estudos que apontam para o outro. A Monsanto, que patenteou a substância como herbicida em 1974, garante que quatro décadas de uso generalizado e centenas de investigações científicas atestam a sua inocuidade. A maioria dos organismos oficiais concorda. Mas alguns testes, sobretudo com animais de laboratório, têm efetivamente mostrado resultados opostos, dando o pesticida como possível ou provável causador de cancro, com o linfoma não 
Hodgkin à cabeça. Foi, aliás, essa a categoria que a Agência Internacional de Investigação em Cancro (IARC, sigla internacional) lhe atribuiu, em 2015: “provavelmente cancerígeno”.

A entidade, que faz parte da ONU, foi severamente atacada por investigadores e agências reguladoras, que puseram em causa os métodos utilizados. Além disso, o facto de a IARC já ter analisado cerca de mil substâncias ou atividades diferentes, incluindo comer carnes vermelhas e trabalhar como pintor ou num salão de beleza, e só ter definitivamente absolvido uma (crapolactama, um composto aplicado na fibra de nylon), levou muitos críticos a desvalorizarem as conclusões. E, mais relevante, entretanto soube-se que a IARC poderia ter concluído que o glifosato não era cancerígeno se tivesse levado em conta um dos maiores e mais importantes estudos alguma vez feitos. Um estudo bem conhecido por quem classificou o glifosato 
– afinal, o líder dessa comissão é um dos seus autores principais.

E é precisamente no momento mais quente e confuso desta batalha de acusações que a Comissão Europeia tem de decidir se prorroga ou não a licença de uso do glifosato no território da União.

Manifestações-choque - Monsanto Papers, uma ajuda inesperada - A revelação de emails da Monsanto está a ser um grande aliado dos ambientalistas na luta contra o glifosato

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Nós escrevemos, eles assinam

Os documentos internos que parecem atestar a proximidade entre a reguladora do Ambiente dos EUA e a Monsanto foram divulgados por ordem judicial, na sequência de um processo que opõe centenas de pessoas à multinacional, nos EUA, e que pedem indemnizações devido a problemas de saúde (incluindo cancro) alegadamente provocados pelo glifosato vendido com o nome comercial RoundUp. Este caso é, aliás, a principal razão pela qual a Monsanto tem lutado por provar que o pesticida não provoca cancro, e não tanto a possível proibição de uso na Europa – com a patente expirada, empresas chinesas tornaram-se nas principais produtoras e fornecedoras do produto. Para a multinacional americana, o mercado da UE vale cerca de 80 milhões de euros. Uma insignificância, para uma companhia que está em processo de ser adquirida pela gigante Bayer por €56 mil milhões 
(€56 000 000 000). No Velho Continente, o que está a preocupar mais a empresa é o caso que chegou agora a tribunal de um menino francês de dez anos, com malformações congénitas, que a mãe atribui ao facto de ter utilizado Glyper, um genérico do RoundUp, quando se encontrava grávida.

Independentemente das razões da Monsanto, há mais sinais de promiscuidade. Como o que transparece em setembro de 2015, durante uma teleconferência sobre o glifosato entre especialistas de várias agências mundiais (incluindo a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar, EFSA). “Já falei sobre o glifosato com a EPA. Eles sentem que alinharam a EFSA durante a teleconferência”, escreveu um quadro da empresa no dia seguinte à reunião. Não é clara a identidade do interlocutor da EPA, mas outro email volta a falar de Jess Rowland como aliado. “Jess vai reformar-se da EPA daqui a 5 ou 6 meses”, diz um memorando interno de setembro de 2015. “E ainda nos pode ser útil na defesa do glifosato.” Depois da reforma, Jess Rowland tornou-se consultor para a indústria química. Mas os seus advogados demonstraram em tribunal que, nas suas novas funções, o especialista nunca colaborou, direta ou indiretamente, com a Monsanto, nem recebeu dinheiro da empresa.

Outra questão que está a gerar insinuações é o facto de a Agência Europeia das Substâncias Químicas ter desvalorizado um estudo feito com ratos, em 2001 (quando decretou a segurança do glifosato), com a justificação de que os animais tinham sido vítimas de uma infeção viral – acontece que a primeira menção a uma infeção viral nos ratos surge num estudo patrocinado pela Monsanto, nesse mesmo ano. E a própria EFSA não sai imune. Foram encontrados num relatório de avaliação (com 4300 páginas) alguns trechos copiados ipsis verbis de um estudo patrocinado pela empresa. Um porta-voz da agência desvalorizou a polémica: “É importante sublinhar que estes são extratos e referências de estudos publicamente disponíveis submetidos pelo requerente como parte da sua obrigação, de acordo com a legislação de pesticidas, de apresentar investigação.” A EFSA diz também que este relatório de avaliação é independente do estudo que avalia o risco do glifosato (publicado na revista científica da EFSA em 2015). Ou seja, a decisão de dar o herbicida como seguro não terá dependido do relatório que inclui esses parágrafos copiados da investigação apoiada pela Monsanto.

Finalmente, há suspeitas de que funcionários da multinacional escreveram, na sombra , parte de um grande estudo científico a advogar a segurança do glifosato. Segundo um email de final dos anos 90 escrito por um executivo da empresa, este ghostwriting (expressão usada) seria uma forma de poupar dinheiro, já que a investigação contratada a investigadores de fora custaria 250 mil dólares (hoje, €212 mil): “Uma opção seria pedir a Greim e Kier or Kirkland [cientistas externos] para porem os nomes deles no relatório, mas manteríamos os custos baixos se formos nós a escrever e eles só assinavam, por assim dizer.” O estudo em causa foi publicado no ano 2000, na revista científica Regulatory Toxicology and Pharmacology. 
O vice-presidente da Monsanto para a estratégia global, Scott Partridge, diz que houve, e há, colaboração dos cientistas da multinacional com outros investigadores, para lhes dar acesso a dados de investigação próprios. Mas, garante, é só isso. “Não há nada secreto ou escondido. O que lamento é o uso infeliz da palavra ghostwriting. É uma forma inapropriada de referir a colaboração científica que aconteceu.” A New York Medical School, universidade onde trabalha o autor principal desse estudo, já investigou o assunto e concluiu que “não há evidências” de que tenha havido ghostwriting.

O estranho caso do estudo ignorado

A Monsanto está debaixo de fogo, mas não deixou de ripostar. E o alvo é a IARC. Em tribunal, os advogados da empresa questionaram Aaron Blair, o cientista que presidiu ao processo que classificou o glifosato como “provavelmente cancerígeno”, levando-o a admitir ter ignorado um estudo crucial na avaliação. Quando lhe perguntaram se essa investigação mostrou que não havia relação entre o pesticida e o linfoma, Blair respondeu “correto”, de acordo com a agência Reuters; à questão “a conclusão seria diferente se esses dados tivessem sido considerados?”, Blair voltou a retorquir “correto”.

Esse estudo é uma revisão recente do Agricultural Health Study, uma ambiciosa investigação em curso, iniciada em 1993 (com o apoio, entre outras entidades, do Instituto Nacional de Cancro, dos EUA), sobre o uso de pesticidas e que já leva 89 mil participantes, entre agricultores e as suas famílias. Blair é um dos autores dessa pesquisa, mas não o referiu aos colegas da IARC. Do banco das testemunhas, explicou que a investigação, pronta há dois anos, não foi tida em conta porque não havia sido ainda publicada numa revista científica, e a IARC só analisava estudos publicados. Mas a justificação por ter decidido não publicar o trabalho – era “demasiado extenso” – não convenceu vários cientistas ouvidos pela Reuters. A Monsanto acusou o cientista de ter escondido deliberadamente o estudo e acusou a IARC de “vandalismo científico”, por ter ignorado dados tão relevantes. Já o diretor-executivo da autoridade europeia, a EFSA, diz que a IARC abandonou a Ciência e entrou “no domínio do lóbi”.

Os problemas com a classificação da IARC não terminam aqui. O facto de ter chegado às suas conclusões em reuniões que demoraram apenas uma semana revelou-se razão suficiente para muitos investigadores duvidarem da seriedade do processo. Além disso, o único especialista externo que participou na análise “cancerígena” da IARC, Christopher J. Portier, era colaborador assalariado da Environmental Defense Fund, uma associação antipesticidas. Mas a maior falha apontada foi a escolha dos estudos, que a Monsanto diz ter sido feita a dedo, deixando de fora investigações respeitadas e favorecendo outras, menos sólidas. Incluindo um desacreditado estudo do francês Gilles-Éric Séralini, cientista e ativista contra organismos geneticamente modificados. 
O trabalho em causa mostrara um aumento de casos de cancro em ratos alimentados com milho geneticamente modificado e glifosato da marca RoundUp, da Monsanto. Mas muitos investigadores alertaram para a pequeníssima amostra de animais (estatisticamente, deveriam ter sido usados 65 ratos por grupo, e Séralini ficou-se pelos dez) e questionaram a espécie usada, que é particularmente propensa a contrair cancro com a idade. O teste chegou a ser publicado, mas foi depois retirado pela própria revista científica, com o argumento de que os dados eram duvidosos.

Com a ciência inquinada por acusações de manipulação de ambos os lados, a renovação da licença do glifosato na UE por mais dez anos não podia vir em pior altura. Mas, até ao fim do ano, terá mesmo de haver uma decisão. Já deveria ter sido tomada no início de 2016 – na altura, o impasse nas negociações (a França liderou a oposição ao herbicida) prorrogou o prazo para dezembro de 2017. Não é certo o desfecho. Com tantas contrainformações, seria natural que se aplicasse o princípio da precaução, não fossem os custos tão elevados: não há uma alternativa economicamente viável ao glifosato.

Portugal, onde 12 autarquias já não usam o pesticida nos seus espaços verdes, não tem uma posição clara (na votação do ano passado, absteve-se). Questionado pela VISÃO, o Ministério da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural diz que “está a analisar as mais recentes informações” e que “decidirá o seu sentido de voto em função desta análise”. Resta saber se as mais “recentes informações” ajudam ou dificultam a decisão.

Vítima do pesticida? - A triste história de Théo Grataloup - O menino francês tem uma malformação que já o fez submeter-se a 52 cirurgias. Os pais (na foto) culpam o glifosato e processaram a Monsanto

Vítima do pesticida? - A triste história de Théo Grataloup - O menino francês tem uma malformação que já o fez submeter-se a 52 cirurgias. Os pais (na foto) culpam o glifosato e processaram a Monsanto

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O imbróglio de Macron

O Presidente francês prometeu votar contra a renovação por dez anos do glifosato, piscando o olho aos ambientalistas. Mas os agricultores entraram em pânico: estimam-se perdas de quase mil milhões de euros

O anúncio caiu como uma bomba: a 22 de setembro, duas semanas antes das reuniões de especialistas europeus sobre o futuro do glifosato na UE, França avisou que ia votar contra o prolongamento da licença do pesticida por mais dez anos. 
A decisão é estranha, atendendo a que dois em cada três agricultores gauleses aplicam glifosato, e que as perdas para a agricultura se calculam em €976 milhões por ano. Emmanuel Macron enfrenta, assim, um dos mais poderosos setores de França.

Por outro lado, ganha o apoio da esquerda ambientalista, liderada pelo seu ministro da Transição Ecológica e Solidária, o popular ativista Nicolas Hulot, que valerá cerca de 15% do eleitorado.

Dez, não. Mas sete...

Não parece haver solução que agrade a ambas as partes 
– agricultores e ambientalistas estão em polos opostos. A declaração taxativa do governo francês parece ceder às exigências dos “verdes”, mas, em política, há que ler nas entrelinhas. A decisão é de votar contra o prolongamento por dez anos. E se alguém puser em cima da mesa uma renovação mais curta, ou um período de adaptação?

Aparentemente, é assim que Macron pensa salvar a face. Após uma grande manifestação de agricultores contra a anunciada posição gaulesa, o ministro da Agricultura, admitiu que o governo apoiaria um prolongamento de cinco a sete anos. Mas o ideal para o Presidente seria que o voto francês não fosse decisivo. Dessa forma, até poderia votar contra qualquer proposta, mantendo a promessa, mas sem consequências práticas que afetassem os agricultores.

Este debate acontece num momento em que os grupos antiglifosato ganham um novo aliado: os pais de Théo Grataloup, um rapaz de dez anos com graves problemas de saúde, são os primeiros, em França, a processar a Monsanto, acusando um derivado do RoundUp de ter provocado as doenças do filho.

(Artigo publicado na VISÃO 1284, de 12 de outubro de 2017)