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A agonia do Sado, o rio mais seco de Portugal

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José Caria

A seca instalou-se de Norte a Sul, mas é na bacia hidrográfica do Sado que mais se faz sentir a escassez de água. Há animais e culturas ameaçadas, e o labirinto que dá acesso à água do Alqueva não ajuda

Rui Antunes

Rui Antunes

Jornalista

José Emídio já transferiu 50 ovelhas para uma espécie de quarentena. A escassez de pasto deixou-as mais débeis e teve de as isolar do rebanho: em vez de andarem à solta como as outras 150, nos 100 hectares de uma exploração agrícola colada ao Canal Caveira, no concelho de Grândola, estão a ser “alimentadas à mão”, que é como quem diz a fardos de palha e farinhas, num terreno junto à casa do agricultor. “É preciso dar-lhes de comer enquanto ainda têm força e não perdem o apetite. Há casos em que, se não as levo hoje, amanhã estão mortas.”

Desde maio, já perdeu cinco. “São muitas”, deixa escapar, resignado perante a seca que se impôs de Norte a Sul do País e, sobretudo, na região da bacia hidrográfica do Sado, onde a água baixou para níveis que não se viam desde 1995. Ao terceiro ano de fraca precipitação, José Emídio conta que a fonte que sempre usou para dar de beber às ovelhas secou em 2016 e o poço de um vizinho parou de o abastecer há meses. A solução, agora, é ir buscar água a outra fonte que serve a sua casa, um quilómetro do outro lado da estrada que em tempos foi de romaria para o Algarve. “Nunca tinha precisado de recorrer àquela água para os animais”, anuncia, em jeito de alarme, este alentejano de 67 anos, 40 de agricultura “por conta própria”.

Também não é costume manter tantas ovelhas em cuidados especiais, nem abdicar de semear pastagem porque os solos estão tão secos que não justificam o investimento. Tão-pouco é normal reduzir o ciclo do arroz, tornando-o menos rentável – ou mesmo deficitário, logo se verá em setembro –, para fintar a diminuição da quota de água destinada aos 16 hectares que cultiva no perímetro de rega da barragem de Odivelas, no concelho de Ferreira do Alentejo. 
E onde já se viu deslocar-se de manhã e à noite ao arrozal, quando no ano passado bastava controlar a cadência da água de dois em dois dias? Mas estamos em 2017, o ano da terceira primavera mais quente em Portugal desde 1931 e com recordes de temperatura máxima, durante o mês de julho, em terras do Sado como Setúbal (43º), Alcácer do Sal (44,9º) e Aljezur (40º). O clima é quem mais ordena: 18 das 60 albufeiras monitorizadas pelo Sistema Nacional de Informação dos Recursos Hídricos entraram, em agosto, abaixo dos 40% da capacidade de armazenamento; as 10 situadas na bacia hidrográfica do Sado, que abrange uma vasta área do Baixo Alentejo, constam dessa lista que mais preocupa.

O Alqueva da discórdia

O arroz é rei nas margens do Sado, mas cedo se percebeu que o rio mais seco do País, este ano, não chegaria para as encomendas de uma cultura que absorve grandes quantidades de água. O volume de metros cúbicos nas albufeiras obrigou a escolhas dos agricultores antes de semearem, em abril/maio: ou solicitavam água ao Alqueva, o que implicaria mais do que duplicar a despesa com esse bem essencial, ou teriam de ratear com os seus pares a existente no perímetro de rega a que pertencem.

Na Associação de Regantes e Beneficiários do Vale do Sado, que gere a distribuição de água a partir das barragens de Vale do Gaio e Pego do Altar, no concelho de Alcácer do Sal, os agricultores optaram por reduzir “30 a 40% da produção” e dividir a água disponível para garantir que não faltaria – e não vai faltar, garante o dirigente Gonçalo Lince, acrescentando que, excecionalmente, estão “a permitir aos agricultores abastecerem cisternas no canal do regadio para dar água ao gado”.

Já as associações que controlam as barragens de Odivelas e do Roxo, esta no concelho de Aljustrel, pediram milhões de metros cúbicos à EDIA e os responsáveis ficaram incrédulos com o teor dos e-mails que receberam, na semana passada, da empresa pública gestora do Alqueva: a torneira vai ter de fechar para um ritmo abaixo do acordado, indicava a mensagem. “Não faz sentido ter o Alqueva acima dos 70% da sua capacidade e faltar água nas outras barragens. Garantimos a água aos nossos agricultores e agora, no fim, falta”, lamenta António Parreira, indignado e preocupado com uma “decisão unilateral da EDIA”. A um mês de terminar a campanha de verão, estão em risco, além do arroz, culturas como o olival, o amendoal ou o figueiral, enfatiza.

Na ‘sua’ barragem do Roxo, porém, há mais margem para lidar com a alteração de planos do que na de Odivelas, onde a água, apesar de acumular-se em maior percentagem, já atingiu o chamado volume morto, o limite a partir do qual não chega aos canos de captação sem ser bombeada. “Não sabemos por mais quanto tempo vamos conseguir água”, admite Manuel dos Reis. “Começamos a perder o controlo”, continua o líder da associação responsável, também vereador na Câmara Municipal de Ferreira do Alentejo. Não sabe o que responder à EDIA nem o que propor aos agricultores, se regarem dia sim, dia não ou se ratearem a água que sobra. “A EDIA devia ter seis bombas em vez de duas na sua estação de Los Álamos para abastecer todo o subsistema do Alqueva. Não tendo as seis bombas, nos meses de janeiro, fevereiro e março devia ter reforçado a barragem do Alvito para 90% e já não teríamos problemas. Agora, é tarde”, insurge-se Manuel dos Reis, numa referência à barragem que faz a ligação entre a bacia hidrográfica do Guadiana, à qual pertence o Alqueva, e a bacia do Sado.

“Não pode ser, matam-me a seara”

Confrontada com as críticas, a EDIA reconhece a “dificuldade em distribuir água para todo o sistema praticamente em simultâneo”, “em períodos relativamente curtos”, e sublinha a obrigatoriedade de “fazer uma gestão diária ativa, o que implica pontualmente a redução de caudais em alguns fornecimentos para atender a outros pedidos de acordo com as necessidades mais prementes”. José Emídio, que depende da água de Odivelas para ter arroz em setembro, desconhecia esta nova ameaça, até ser informado pela VISÃO. “Não pode ser, matam-me a seara”, é a reação imediata. Depois, começa a pensar na hipótese de deixar morrer uma parte da plantação para salvar a outra. “Não tenho mais alternativas.”

Na raiz do problema está a responsabilidade de acautelar as transferências para a bacia do Sado, de modo a minimizar os efeitos da seca. As associações de regantes e a EDIA atiram a bola de um lado para o outro. No entender de Joaquim Nunes, da Associação de Agricultores do Distrito de Setúbal, “não se pode dizer a um agricultor que não há água disponível quando ali ao lado, no Alqueva, há milhões de metros cúbicos”. Se estas necessidades só se verificam em períodos excecionais, como a seca extrema e severa que assola o País, o técnico agrícola defende que deve ser o Governo a tomar as rédeas das decisões para não se cair num impasse. “Vivemos uma situação catastrófica porque os agricultores estão a envelhecer e este tipo de acidentes climatéricos levam ao abandono das terras. Como vão continuar a acontecer, e cada vez com maior frequência, é preciso antecipar soluções”, nota.

Em Ourique, mais a Sul, a barragem do Monte da Rocha “tem uma pinga de água e dá pena lá ir”, dizem-nos da Proteção Civil. A ideia de a ligar ao Alqueva permanece na gaveta. A intenção de retirar os peixes, dada a redução da massa de água, idem. “Não acredito que tenhamos água até ao final do ano se não chover”, estima Ivete Dias, técnica de ambiente na Câmara Municipal. A autarquia aderiu à campanha de sensibilização da população para poupar água, que se estende por todo o Alentejo. Não tomar banhos de imersão, lavar roupa na máquina só quando estiver cheia, evitar lavagens dos carros ou regar com o regador e não à mangueira são recomendações transmitidas nas escolas e cafés. Mas o que resolvia mesmo o problema era uma ajuda de São Pedro. “Espero que chova já em setembro”, diz Ivete Dias. “Do paredão da barragem já se veem ilhas no meio da água.”

(Artigo publicado na VISÃO 1276, de 14 de agosto de 2017)