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Futuro da energia 
está do lado do consumidor

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No espaço de três anos, as renováveis têm de passar a fornecer 31% da energia que Portugal consome. Um painel de especialistas explica como lá chegar e quais as principais tendências no setor energético

Maria Cruz

E se pudesse saber, ao minuto, qual o preço da eletricidade na rede? 
E se parte da energia que consome, mesmo a do carro, fosse produzida em sua casa e o resto tivesse origem em renováveis? Estes cenários podem ainda ser futuristas, mas cinco especialistas, vencedores dos prémios REN, acreditam que são o caminho do setor energético.

“A produção descentralizada de energia promove a autossuficiência e a independência do consumidor”, diz à VISÃO, Pedro Mendes, vencedor em 2010 do prémio REN – referência científica na área da energia, que distingue as melhores teses de mestrado há 22 anos, e à qual o grupo Impresa (VISÃO e Expresso) se associou em 2016.

A pressão sobre os combustíveis fósseis, a volatilidade do preço do petróleo e um investimento cada vez maior em energia limpa – cerca de 330 mil milhões de euros no ano passado, de acordo com o World Economic Forum (WEF) – ampliam o papel das renováveis. João Afonso, o primeiro vencedor do prémio REN e atual diretor da área gestão de ativos desta empresa, nota “a crescente proatividade dos consumidores” devido à produção descentralizada de renováveis. Portugal compara bem com os parceiros internacionais, ao ocupar o 11º lugar no ranking do WEF. O País já tem mais de 50% da energia a ser produzida a partir de fontes renováveis, sobretudo eólicas, e foi alimentado, em maio, por energias limpas durante quatro dias. Mas não chega: em 2020, Portugal precisa de ter 31% da energia consumida gerada a partir de renováveis, para cumprir as metas da Comissão Europeia. Atualmente, esse valor está nos 27 por cento.

Carro elétrico domina futuro

O vencedor do prémio REN deste ano, Pedro Castro, salienta o papel crescente do carro elétrico. É uma das tendências do setor e uma realidade cada vez mais próxima. A Alemanha quer proibir a venda de automóveis com motores de combustão interna (gasolina e gasóleo) a partir de 2030. Por cá, empresas como os CTT já têm uma grande parte da sua frota constituída por carros elétricos.

Outra “grande revolução a médio prazo”, antecipa Pedro Mendes, passa pelo “desenvolvimento de baterias para utilização doméstica”. Com o poder cada vez mais do lado do consumidor – ao produzir a sua própria eletricidade sem ser obrigado a vendê-la à rede –, é fundamental a eficiência energética dos equipamentos. “As aplicações e produtos permitem ao consumidor ter uma melhor perceção do seu perfil de consumo, de quais os equipamentos que mais consomem e, assim, adaptam os seus hábitos de forma a reduzir simultaneamente a fatura energética e o impacto ambiental”, explica o especialista.

A instalação de painéis fotovoltaicos e baterias, avança Pedro Castro, investigador no New R&D, seria uma solução que permitiria aos consumidores conseguirem “diminuir a sua fatura de energia e tornarem-se mais amigos do ambiente, ou seja, mais sustentáveis”. E neste sentido, acrescenta, há duas startups que vale a pena acompanhar: a BeON Energy, que desenvolve tecnologia de ponta na área da energia solar, e a Principle Power, que trabalha na área da geração eólica offshore (em mar alto), para instalar parques independentemente da profundidade. “O nosso país tem as características ideais para acolher este tipo de tecnologias”, conclui.

O poder do consumidor, 
medido em tempo real

Para Ricardo Cartaxo, investigador no R&D Nester, o destaque vai para os “contadores inteligentes, que enviam diretamente e em tempo real os consumos de energia elétrica para a empresa fornecedora. Isto permitirá uma nova abordagem de mercado, em que o preço da energia poderá variar em tempo real (em função da oferta e procura), com o utilizador a escolher ligar um equipamento (máquina de lavar, por exemplo) quando o preço for mais baixo”.

A medição em tempo real do preço da eletricidade e do consumo também são referidos por Susana Almeida de Graaf, que hoje trabalha na holandesa TenneT TSO (o equivalente à gestora da rede elétrica REN). “Os sistemas elétricos estão num momento crucial de transição, em particular para os operadores do sistema que fazem a operação da rede em tempo real”, diz a vencedora do prémio REN em 2005. No dia 10 de novembro, o diretor-geral da Energia da Comissão Europeia, Dominique Ristroi, entrega os prémios REN aos três primeiros classificados da edição de 2016, numa cerimónia no Hotel Ritz, que conta também com a presença do ministro Manuel Heitor.