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O mundo mágico dos ilustradores científicos

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Pedro Salgado, José de Paula e João Catarino

Nuno Botelho

Há uma década que fixam em imagem os cenários mais bonitos do mundo português, à moda das viagens filosóficas do século XIX. Conversa com o Grupo do Risco, com tarântulas e muita outra bicheza à mistura

Pedro: É que pelo meio disto tudo, também há tarântulas. A do Príncipe era mazinha...
João: Era maior do que a da Amazónia?
Pedro: Não, era mais magrinha. Mas à outra toda a gente fez festinhas... Esta aqui do Príncipe...
José: Ui, era a coisa mais venenosa, daquelas peludas. Tivemo-la viva dentro de um frasco de vidro, na sala da casa. Foi apanhada quando estávamos a jantar.
Pedro: Só é preciso haver alguém capaz de apanhar estes bichos. O Marco [Correia], por exemplo, é uma espécie de Crocodile Dundee...
João: É. Nós vemos uma cobra e desatamos a fugir. Ele vai no sentido contrário, atrás dela...

Isto é só um bocadinho da conversa que juntou Pedro Salgado, João Catarino e José de Paula – ilustradores científicos, os dois primeiros, fotógrafo, o último – para dizer que acontecem sempre muitas histórias destas a quem anda pelo País e pelo mundo a imprimir no papel a natureza que está à nossa volta. Sobre o camarada de ofício, o tal “Crocodilo Dundee”, acrescentam ainda que também faz censos de aves... pelo som. “Conhece-as pelo barulho que fazem.”
Eles são alguns dos felizes membros do Grupo do Risco, uma seleção nacional do desenho, que ainda recentemente, durante duas semanas, esteve praticamente imerso na ilha do Príncipe, preciosa região do mundo livre de stresse. E que chegou aqui mais de 20 anos depois de o mentor do Grupo, Pedro Salgado, ter sonhado inscrever a disciplina de desenho nos cursos de biologia (hoje, decorrem já negociações para criar um mestrado em imagem científica).
Há quase dez anos foi quando surgiu a primeira expedição, a querer seguir os passos da Casa do Risco, essa instituição que no século XIX fez de Portugal um pioneiro na matéria, e onde chegaram a estar quase 20 desenhadores a ilustrar os espécimes enviados das colónias. O seu criador, Domingos Vandelli, acreditava que “as viagens eram uma forma de ampliar as coleções científicas portuguesas, assim como de desenvolver o estudo na área das ciências naturais”.

Trabalho de campo em São Tomé e Príncipe

Trabalho de campo em São Tomé e Príncipe

No princípio era a viagem
O lema do Grupo do Risco é mais ou menos o mesmo. “Acrescentámos-lhe a fotografia porque é um avanço dos tempos. Se à época já existisse, certamente também seria usada”, concordam. São também pioneiros à sua maneira: hoje em dia, ao mesmo nível de registo, só os Urban Sketchers, um coletivo de autores que também desenham em diários gráficos aquilo que observam, mas com foco nas cidades.
Tudo começou, então, com uma pequena expedição de sete pessoas, sem grande ambição, conta Pedro Salgado: “Convidei cinco ou seis alunos meus, os melhores daquele ano e do ano anterior, para fazer o exercício de estar bastante tempo num local e assim conseguir absorver o ambiente – em vez de optar por uma visita e voltar ao fim da tarde.” Foram às Berlengas – e, por inspiração num autor que todos admiram (Keith Brookie, um ilustrador da natureza que passa semanas e meses em falésias a desenhar aves), ficaram a pensar em organizar-se num esquema semelhante. “Logo concluímos: era isto que gostávamos de fazer.” Nesse primeiro grupo já estavam Pedro Salgado, 56 anos e José de Paula, 57, que foram colegas de faculdade, num dos últimos cursos de biologia ainda ministrados na Escola Politécnica. João Catarino, 51, cuja formação de base é belas-artes, só se juntou ao grupo mais tarde, como aluno de Pedro. “O pai dele, que foi meu professor [o ilustre Fernando Catarino, que foi também diretor do Jardim Botânico, onde nos encontramos], dizia muitas vezes: ‘Tenho um filho em artes, e faz uns desenhos porreiros’”, recorda.
Muitos outros se foram juntando, das mais diversas áreas. Em comum, partilham o gosto de viajar para desenhar – daí que, inicialmente, se tenham chamado Viagens e Riscos Associados. O resultado da expedição inicial às Berlengas ainda chegou a ser transformado numa exposição, e saiu na imprensa de Peniche – mas rapidamente concluíram que corriam sérios riscos de serem confundidos com uma agência de viagens.
Mudaram o nome e decidiram que, uma vez por ano, se haveriam de organizar e ir 15 dias para o laréu – como quem diz!, que eles vão trabalhar. O grupo cresceu, diversificou-se, as coisas foram ficando afinadas – com o objetivo em mente de um dia não serem eles a financiar as expedições e poderem ceder os direitos de autor a quem interessasse este tipo de trabalho, a troco das questões logísticas. Tem sido assim ao longo de já quase dez anos, com a regularidade possível.

Nada escapou à atenção dos fotógrafos e ilustradores

Nada escapou à atenção dos fotógrafos e ilustradores

Ao ritmo da natureza
Duas mãos-cheias de expedições já lá vão. Douro Internacional, ria Formosa, Vale do Sabor, Floresta Laurissilva, Caramulo... Em Portugal, as câmaras municipais são as mais interessadas neste tipo de trabalho – “e portanto ficamos mais ou menos acampados em escolas primárias, nos bombeiros...”, contam. Aventuras do ofício, a juntar a outras coisas típicas de quem faz saídas de campo. “A maioria das vezes não comemos a horas, e também há constipações, maus colchões...”, comenta João Catarino. “É preciso espírito de sacrifício”, concorda José de Paula. Mas Pedro Salgado acrescenta: “... e só assim é que tem graça.”
Na Madeira, por exemplo, conheceram os quartéis de bombeiros da costa norte toda. Ficavam muitas vezes todos juntos, homens e mulheres na mesma camarata, numa orquestra de ressonanços. “É a maneira de conseguirmos o tempo do desenho. O nosso dia a dia é demasiado acelerado, vivemos desfasados dos ritmos da natureza...”, comenta João Catarino, a lembrar todas aqueles momentos em que parece não se passar nada, a não ser folhagem a abanar com o vento. “E depois, devagarinho, começam a aproximar-se insetos, ou répteis, e depois há uma ave que pousa e depois há até uma tartaruga que passa à frente...” São rotinas da natureza, que só acontecem quando se está em silêncio durante muito tempo – e não se tem isso na cidade.
Em outros momentos, propuseram-se a salvar, no papel, paisagens que vão desaparecer – foi assim no Vale do Sabor. Em outros locais, preocuparam-se em apontar espécies relevantes e pouco conhecidas. Até que chegaram à Amazónia, em 2010.
Pedro Salgado tinha lá estado pela primeira vez em 2000, ano em que se estreara a dar aulas na Faculdade de Belas-Artes – e claro que prometeu a si mesmo que havia de voltar. Entre amigos e alunos, lá arranjou as 25 pessoas que cabem num dos barcos que percorrem a floresta com a maior biodiversidade do planeta, sem apoios financeiros nem nada (alguns deles ainda estiveram a pagar a brincadeira durante algum tempo). Seguiu-se uma exposição, o livro do catálogo, vários meses com o trabalho à vista de todos, no Pavilhão do Conhecimento. A partir daí foi tudo mais fácil. “Já tínhamos obra para mostrar.”
E no entretanto há sempre lugar para a troca de técnicas. Cada um vai vendo como o outro faz, que materiais usa – além, claro, dos ganhos em conhecimentos sobre a natureza. Aconteceu com João Catarino, por exemplo, cuja formação é de artes, que no Príncipe quase se convenceu ter descoberto um tipo de peixe diferente. “Para mim, no mínimo, era uma espécie rara. Mal comecei a descrever, foi uma risada geral: era um choco.” Já as aves endémicas fizeram Marco Correia desaparecer várias vezes: conseguiu ver 15, num total de 19, nas duas semanas que estiveram na região autónoma de São Tomé. Nesta última expedição foi também Pedro Mendes, ilustrador e professor de aguarela, que não pôde comparecer a este encontro porque estava a acabar desenhos do Bambi para um livro infantil. E, claro, Luís Quinta, um dos mais conceituados nomes da fotografia de natureza em Portugal.
Oiçamos agora José de Paula, fotógrafo, professor de biologia marinha, colaborador regular de universidades em África (sobretudo Moçambique). “Gosto muito da paisagem, mas sobretudo de enquadrar as atividades humanas na natureza”, explica, antes de fazer a sua declaração de interesses e discordar que a fotografia tenha uma visão imediatista, porque o momento e o ângulo em que se fotografam também são opções que se fazem.

Luis Quinta em ação

Luis Quinta em ação

Na África que foi nossa
Em 2015, o grupo rumou a Marrocos, uma viagem que já contou com o apoio do Instituto Camões. Começaram pelo Norte e, depois da vila de Alcácer-Ceguer, seguiram para Arzila, Mazagão, Safi, Mogadouro, passando pelo Forte da Terra do Diabo, e depois procuraram o contraponto, pelo interior, até Marraquexe, para também ficarem a conhecer o outro lado da História.
“Por exemplo, fomos às planícies de Alcácer-Quibir, onde se deu a batalha, e que hoje são campos de lavoura. A primeira coisa que nos mostraram foi uma pedrinha que simboliza o sítio onde D. Sebastião foi decapitado. Não só não desapareceu no nevoeiro como está escrito nos livros de História marroquinos que o resto do corpo foi entregue aos portugueses, em Ceuta, para ser enterrado”, continua José de Paula, aquele que os companheiros já consideram mais africano que português – e que chegou a ver a batalha em miniatura, numa mesa gigante do palácio marroquino que em tempos foi de Malcolm Forbes. Esse mesmo, o editor da revista que todos os anos elenca os milionários do mundo, e um apaixonado por modelismo. “O que eu achei graça foi ter tempo para parar na planície a imaginar os acontecimentos.” Ao que Pedro Salgado acrescenta: “E há também um eucalipto enorme, a crescer ao lado do D. Sebastião. É a única árvore que ali está.”

Mundo de aventuras
Já no Príncipe foi diferente, porque quem os convidou conhecia o trabalho que tinham feito sobre a Floresta Laurissilva – falamos do biólogo António Domingos Abreu, que tinha responsabilidade sobre a reserva da Biosfera na Madeira e que hoje conduz o Príncipe Trust, organização sem fins lucrativos para a conservação da natureza – e os deixou completamente à vontade. O que encontraram foi um reino absolutamente vegetal, um paraíso para botânicos, uma floresta próxima do seu estado original, que reocupou as antigas roças. O que se seguiu, como mostram algumas das fotografias nestas páginas, é que a desenhar também se aprende, porque nos obriga a observar ao pormenor.
A nossa conversa está a acabar: estamos na porta do Jardim Botânico, perto da árvore cheia de riscos e texturas e raízes entrelaçadas, a mítica Phicus Macrophyla, uma prima da figueira, momento em que revelam que também mantêm um tipo de expedição de longo curso na serra da Arrábida, em vários momentos do ano. E que sonham ainda retratar os Açores, tal como Moçambique, Cabo Verde e até Timor.
Como resume Pedro Salgado: “Antigamente, ia-se desenhar o desconhecido. Agora, vamos para mostrar o que está, ou pode estar, em risco de desaparecer.”