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Até quando vamos ter peixe?

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Há um apetite voraz por peixe. O seu consumo duplicou, a nível mundial, nos últimos 60 anos, e a tendência é continuar a crescer. Não é para menos: é riquíssimo em nutrientes essenciais. Mas a poluição, as alterações climáticas e a sobrepesca põem em risco a sobrevivência de algumas espécies. E quem está disposto a abdicar do bacalhau e da sardinha?

Sara Sá

Sara Sá

Jornalista

Célia Rodrigues tem as mãos todas estragadas. Arranhões, cicatrizes, manchas vermelhas. São o seu instrumento e usa-as nuas, sem proteção, para puxar os sacos de ostras, arrancar algas, eliminar um caranguejo intrometido. Filha mais velha de um armador de Peniche, começou a andar embarcada quando ainda mal sabia nadar. Apanhou sustos de morte, esteve dias inteiros a vomitar, fez juras de não voltar. Mas não conseguiu fugir ao destino. “A minha mãe nunca quis que eu estivesse ligada a esta vida, mas ...” conta, enquanto nos mostra a sua produção de ostras, em Setúbal. Primeiro quis ser “varredora de mares”, depois bióloga marinha. Acabou na produção animal e passou muitos anos em aquacultura. “Eu é que fazia tudo, mas trabalhava para outros.” Há quatro anos, decidiu montar a sua própria empresa, a Neptune Pearl, dedicada à criação de ostras, camarão e erva salicórnia, que vai muito bem a acompanhar.

A produção acontece em salinas abandonadas, no estuário do rio Sado. Ao todo, há 500 mil ostras a crescer, e os 200 quilos que apanha por semana quase não chegam para as encomendas. Vende para França e para a Galiza, onde fica o mercado de Vigo, líder europeu em descargas de peixe fresco, e ainda para alguns chefs nacionais. A sua ostra tem fama, porque apresenta uma boa proporção entre a quantidade de 'carne' e a de água e casca. Célia consegue uma taxa de 25% no chamado “índice de condição”. Sendo que a partir de 15% as ostras já são “consideradas especiais”, sublinha. Há o clima da Península de Setúbal, as águas favoráveis do estuário e, claro, os 'mimos de mãe' com que a produtora revira e agita os sacos ou as gaiolas com ostras mergulhadas na água, retira as algas, verifica se alguma está estragada e elimina os caranguejos invasores. Neptuno, o rafeiro alentejano que às duas da tarde se esconde do sol na casa de apoio, ajuda a afastar os ladrões.

A situação ainda não é a ideal. A produtora sonha com uma aquacultura integrada, em que no mesmo espaço se consiga produzir toda a cadeia alimentar. Com ostras, macroalgas, peixes herbívoros e peixes carnívoros. Mais fácil de dizer do que de fazer. “Demora 30 anos até percebermos como funciona uma espécie num sistema de aquacultura”, nota. Mas o caminho terá de ser esse – porque, para alimentarmos o nosso apetite, não há outro.

O alimento da moda

O consumo de peixe tem vindo a subir constantemente. No último relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), revelado na semana passada, aponta-se para um consumo anual per capita a ultrapassar os 20 quilos – o dobro do valor nos anos 60 do século passado. Ou seja, o crescimento na procura de peixe ultrapassa muito o aumento demográfico. O primeiro tem vindo a crescer a uma taxa de 3,2% ao ano, desde 1961, enquanto a população segue a um ritmo de 1,6% ao ano.

Vários fenómenos concorrem para isto. O peixe é um animal rico em vitamina A, D e B, minerais, proteínas e, no caso dos peixes de profundidade como o salmão e o atum, uma excelente fonte de ácidos gordos essenciais, como o ómega 3, que o nosso organismo não consegue sintetizar. É, por isso, obrigatório numa dieta equilibrada. Com o crescimento da classe média no continente asiático, há cada vez mais gente a procurar esta proteína de qualidade, que já representa 17% da consumida a nível mundial. A ajudar, há a má fama que vem agarrada à carne vermelha e aos enchidos, que tem desviado os consumidores. Mas como é que vamos conseguir dar de comer aos dez mil milhões de pessoas que deverão habitar na Terra em 2050?

Um estudo feito ao longo de 15 anos sobre a evolução das pescas a nível mundial, entre 1950 e 2010, revela dados “alarmantes”, classifica um grupo de cientistas num artigo publicado na revista Nature, no mês passado. No documento The Sea Around Us (“o mar à nossa volta”) diz-se que a captura de peixe tem vindo a decrescer à razão de 1,22 milhões de toneladas por ano, desde 1996 – o ano recorde no que toca às pescas. Esta avaliação é bastante mais drástica do que a feita pela FAO, que para o mesmo período aponta uma diminuição de 0,38 milhões de toneladas ao ano. Só a aquacultura tem permitido sustentar os níveis de consumo.

Quanto aos culpados, nisto estão todos de acordo: a degradação do habitat marinho devido a práticas de pesca destrutivas, a poluição industrial, alterações climáticas e urbanização das zonas costeiras. Como de costume, uns vão sofrer mais que outros. Os países mais em risco estão nas latitudes mais baixas, onde a alimentação depende muito da pesca selvagem. Curiosamente, os problemas com as reservas de peixe começaram nas regiões de latitudes mais altas, no Atlântico Noroeste, com a industrialização das pescas. A preocupação com a gestão de recursos e a introdução da aquacultura vieram permitir alguma recuperação. “Só assim temos conseguido manter o aumento da produção”, sublinha o biólogo marinho David Abecasis, do Grupo de Investigação Pesqueira da Universidade do Algarve.

Quando o assunto é peixe, os portugueses põem-se em sentido. Estamos no topo da lista de consumidores, a nível mundial (aparecemos em terceiro, quarto ou quinto lugar, consoante o organismo que faz a avaliação e a metodologia usada), mas estamos quase totalmente dependentes. “Se contássemos só com a produção própria – pescas e aquacultura –, ficaríamos todos os anos sem peixe por volta do dia 30 de março”, diz David Abecasis.

Dois anos para 'fazer' uma dourada

O pequeno trator aproxima-se do tanque de uma antiga salina e vai largando uma nuvem de poeira. Milhares de bocas vêm à superfície. Os peixes reconhecem o barulho e estão habituados à rotina. Todos os dias, de manhã e ao final do dia, são alimentados com ração. A máquina anda à volta do tanque, obrigando douradas e robalos a ir à caça da comida. Por cima dos reservatórios, uma rede protege-os do ataque de corvos marinhos – chegam a devorar 30% da produção. Ou até a dizimar todos os peixes, quando os que escapam ao ataque entram em stresse, fogem e acabam por morrer de asfixia.

Como o Sol já vai alto, só aparecem douradas, um bicho que está sempre pronto a comer. É omnívoro e tudo lhe serve. Já o robalo, carnívoro, prefere a noite para se alimentar. Edo Alexandre, dono e gestor da exploração, obriga os peixes a andar de um lado para o outro para “ganharem músculo”. Gasta mais dinheiro em gasolina, mas a sua aposta é na qualidade. E quem lhe compra valoriza. Vende a dourada a sete euros o quilo e o robalo a mais meio euro (o preço é definido em função do valor da dourada). Mantém um regime semi-intensivo, o mais comum em Portugal, onde os animais são alimentados a ração, mas também beneficiam dos bivalves e outros animais pequenos misturados na água do Sado que enche os 27 tanques. Ao todo, vivem ali 320 mil peixes. Chegam com 10 gramas, vindos das maternidades, e saem com 400 – o chamado 'tamanho dose' – ao fim de um ano e meio, dois anos. Às vezes, deixa-os ficar até ao quilo e meio, e aí são quatro anos de estadia. “As pessoas costumam pensar que isto aqui é como nos aviários. Que se faz um frango em meia dúzia de meses”, desabafa o presidente da Associação Portuguesa de Aquacultura, Fernando Gonçalves. Outra ideia feita que se esforça por destruir é a de que vai tudo corrido a antibióticos. “Agora o que se faz é prevenção. Reduzem-se as densidades, o stresse a que os animais estão sujeitos, e vacinam-se. Quando aqui chegam estão protegidos contra as doenças da infância”, conta Edo Alexandre. Mesmo assim, admite, “ainda vai demorar muito até os consumidores deixarem de associar os antibióticos à aquacultura”.

Em Portugal, só há duas explorações a funcionar em regime intensivo: uma em Sines e outra na Madeira. Neste tipo de explorações, em jaulas, há uma grande concentração de peixes, e em alguns casos aumenta-se a temperatura da água para acelerar o crescimento (abaixo dos 12ºC, douradas e robalos deixam de comer e perdem peso). Na Europa, o campeão da produção intensiva é a Grécia. Vem daqui boa parte do que se encontra à venda nos hipermercados. O outro grande fornecedor é a Turquia. Mas a aquacultura não pode ser a única solução, até porque as rações são feitas à base de outros peixes. Para produzir um quilo de dourada, gasta-se um quilo e meio de ração seca, o que pode equivaler a quase cinco quilos de peixe húmido. “Se estivermos a pensar só em peixes carnívoros, não resolve. O objetivo deverá ser encontrar uma espécie herbívora com um sabor que agrade aos consumidores”, defende o investigador do Centro de Ciências do Mar, Adelino Canário.

“Com uma gestão adequada, conseguiríamos os 160 milhões de toneladas que consumimos anualmente só com peixe selvagem”, garante o biólogo David Abecasis. A Europa começa a dar alguns passos importantes neste sentido. A par da definição dos tamanhos mínimos de captura, para assegurar que o animal chega à fase adulta e se reproduz (conseguindo fazer o dito recrutamento), há as interdições à pesca quando os stocks estão mais fragilizados e ainda a definição de quotas de pesca. Para breve está a proibição de atirar peixe fora. “Na pescaria do camarão, 80% do que é apanhado é lançado à água”, exemplifica David Abecasis.

O professor da Universidade do Algarve, Jorge Gonçalves, admite a dificuldade em controlar o processo. “Portugal até está bem organizado. Todo o peixe vai parar à Docapesca, que contabiliza tudo o que é pescado. Atingido o limite da quota, deixa de ser possível vender. Mas noutros países, mesmo europeus, não é bem assim.” E depois de termos posto em risco os grandes carnívoros, como o atum e o bacalhau, de estarmos e dar cabo dos robalos, poderemos estar a comprometer a nossa cultura gastronómica – e abdicar dos nutrientes essenciais que o peixe nos dá. “A própria indústria da pesca vai ter de se autorregular, ou perdemos todos.”

NOTA: Artigo publicado na VISÃO Verde 1219. Por erro gráfico, o texto foi publicado truncado na edição impressa, pelo que aqui foi reproduzido, na íntegra, na sua versão integral