Recorde aqui o texto publicado na VISÃO7 de dia 27 de outubro

Cenário virtual: Cais do Sodré. Seis e meia da tarde. Rua Nova do Carvalho sem carros estacionados. Há muita gente sentada nas diversas esplanadas onde antes passavam os automóveis. Alguns estão de copo na mão e conversam. Outros ouvem fado, depois de um recital de poesia. Há quem corte o cabelo. Uns preferem ler livros eróticos. Muitos petiscam com a chegada da noite. Mas todos se divertem e convivem.

Este cenário só será virtual até ao próximo dia 17 de novembro. Entretanto, as obras tomam conta da rua e os projetos inovadores espreitam à janela de vários edifícios.

Quando há cinco meses o telhado do prédio que fica por cima dos bares Tóquio, Jamaica e Europa ameaçou desabar sobre os (muitos) notívagos que ali se juntavam todas as madrugadas, ninguém poderia imaginar que isso impulsionaria a mudança.

Já há muito se falava da renovação do Cais do Sodré uma zona que durante décadas foi poiso de marinheiros que atracavam em Lisboa e ali procuravam diversão e sexo. Era unânime a vontade de limpar o nome daquele recanto da cidade, mas fora uma ou outra exceção, a má fama manteve-se-lhe colada. E a animação só chegava em força depois de o Bairro Alto ou a Bica, um pouco mais acima, "fecharem". E ia parar, essencialmente, ao Jamaica, ao Tóquio e ao Europa. O Music Box apareceu mais tarde, há cinco anos, mas também já arregimentou uma fileira de clientes habituais.

Desta vez a realidade é outra. Depois de arranjado o teto dos bares, agora mais arejados, e a propósito dos 40 anos do Jamaica, a Rua Nova do Carvalho fechou ao trânsito.

João Camolas, assessor do vereador José Sá Fernandes, explica que foi um juntar de vontades. De repente, a Câmara queria, os comerciantes queriam e os clientes queriam muito. No dia da reabertura dos três bares, apareceram ali grades para impedir a passagem dos carros. E ainda lá estão.

É certo que há muito quem fure o esquema e entre por ali com carros, por isso, assegura João Camolas: "O sistema de fecho da rua vai ser revisto." Pilaretes será a solução mais que provável.

Com os escapes mantidos fora da rua, houve que pensar o que fazer daquela estrada, agora um potencial a explorar. Os diversos comerciantes os mais antigos e os estreantes andam a pensar no assunto.

As esplanadas são dadas como certas, mas quanto ao chão ainda não há consenso. Pintar de uma só cor forte ou colocar um deck de madeira são hipóteses que estão em cima da mesa. Por outro lado, Gonçalo Riscado, dono do Music Box, garante que no início do mês que vem o arco da rua acabará de ser decorado pelo artista Paulo Arraiano.


ESPETÁCULOS EM ROTERDÃO
Desde o final da semana passada que o mítico clube do Cais do Sodré, Roterdão, passou a ser também sala de espetáculos. Muitos dos seus atuais clientes não sabiam que, por baixo da quase sempre lotada pista de dança, sempre existiu um espaço subaproveitado, onde funcionou, há mais de 30 anos, um restaurante grego. É nessa cave, entretanto recuperada, que assenta o projeto do novo Roterdão.

"Embora continue a ter pista de dança, a parte de cima funcionará mais como bar e a discoteca passa para a cave", explica Ana Paula Afonso, uma das sócias do espaço, em conjunto com Rui Correia. Ao contrário do que agora acontece, em que a ação só começa para lá da meia-noite, o novo Roterdão vai abrir ao final da tarde. "O objetivo é chamar as pessoas mais cedo para aqui", adianta Ana Paula. Assim, a partir de quinta-feira, a casa abre portas às seis da tarde, com um espetáculo (concertos, teatro ou pequenas produções), que pode ser repetido à noite.

Nesses dias, a entrada paga reverterá a favor do artista. Nas obras de recuperação houve o cuidado de preservar a traça original pois, como defende Ana Paula, "o objetivo era manter e não adulterar o espírito do Cais do Sodré".

Quanto à música, ouve-se na mesma rock mais ou menos alternativo, que se tornou a imagem de marca daquele bar.


PENSÃO AMOR SEM MARINHEIROS
Há um ano, a imobiliária Mainside, que se dedica à promoção e reabilitação de imóveis, comprou o prédio pombalino por cima do Roterdão. José Queirós de Carvalho, "o engenheiro", como é conhecido no meio, começou a limpar os cantos àquela casa, uma antiga pensão, que servia de divertimento aos ditos marinheiros estrangeiros que passavam umas horinhas em Lisboa.

Com currículo firmado através da recuperação da LX Factory, José Queirós de Carvalho decidiu apostar na reabilitação do Cais do Sodré. Sem desvirtuar a sua história. Daí o nome que deu ao seu edifício e daí o conceito que lhe vai aplicar. Pelos cinco andares da Pensão Amor, que se sobem por uma escada decorada com grafittis eróticos, alugam-se quartos single, duplos ou triplos (de €150 a €375), mas a empresas. "A minha ideia é que as pessoas reajam umas com as outras, fazendo parte da transformação", diz o engenheiro.

Para servir esses hóspedes mais ou menos permanentes, haverá uma zona comum, com serviço integrado e também aberta a "estranhos", pela Rua do Alecrim ou pela Nova do Carvalho.

O ambiente decadente de um cabaret é bem visível na decoração escolhida. Não há um sofá ou cadeira igual, mas estão todos forrados de veludo brilhante, as paredes, revestidas a tecido vermelho, enchem-se de fotografias de época, pelo meio dos dourados e dos candeeiros que predominam. A rematar, um piano. Nesta zona funcionará o bar, com uma cevicheria peruana. Mais adiante, existe uma biblioteca erótica, com livros sobre sexo e amor, onde se pode consultar ou comprar.

O cabeleireiro Facto deixou Santa Apolónia para abrir, num cantinho desta pensão, a sua versão low cost, que ficará alojada ao lado da sala do varão. Na sobreloja, existe um espaço clandestino, com um pé-direito que não ultrapassa os dois metros. "Aqui há mais conforto, é uma sala mais cosy", resume o proprietário. A casa de banho dos homens não é aconselhável a menores...


POVO COM PETISCOS
Por baixo da Pensão Amor vão inaugurar mais dois bares, que funcionam de forma independente. O Povo pertence aos mesmos donos do Music Box. "Já há muito que desejávamos abrir um local complementar ao que tínhamos e queríamos que fosse no Cais do Sodré, porque acreditamos no potencial desta área", diz Gonçalo Riscado.

Para isso inspirou-se nas típicas tascas lisboetas, recriando esse ambiente. Estarão também abertos a partir das seis da tarde e, depois de janeiro, até servirão almoços.

Haverá petiscos caraterísticos, como salada de polvo, peixinhos da horta ou ovos verdes.

A decoração será simples e funcional, com grande visibilidade para a rua e a esplanada. A porta estará sempre aberta, sem restrições de entrada.

O conteúdo será o melhor ingrediente do Povo. É por isso que existirá um artista residente com preferência por fadistas da nova geração, mas não só que muda todos os meses. Durante esses 30 dias, o artista fará diferentes espetáculos, que também incluirão convidados. No final da residência, gravará um disco-maqueta, vendido posteriormente no bar.


O REGRESSO DA VELHA SENHORA
O empresário da noite conhecido como Mikas, dono da Bicaense e do Clube Ferroviário, também se estreará na zona, como inquilino da Pensão Amor. Inspirado na vivência do Cais do Sodré, o Bar da Velha Senhora prestará homenagem a uma prostituta do tempo dos corpetes, que veio da província rumo a Lisboa, despertando para as potencialidades do seu corpo.

Mikas quer montar "um espaço que seja um cabaret contemporâneo, sem preconceitos, aberto a toda a gente", explica. Está pensado para receber espetáculos, sem interferir com o que já existe na zona. Como a área do bar não é grande, será mais adequados a one man shows.

A ideia é ir construindo a definição da Velha Senhora, com base em "comidinhas" portuguesas dando-lhe um toque especial, para saírem a partir do final da tarde. Hora em que o novo Cais do Sodré passará a estar ao rubro.