Aos Quiosques de Refresco pode-se aplicar uma espécie de adágio "inauguração molhada, negócio abençoado". Ao meio-dia, já uma dezena de pessoas tinha parado no quiosque cor-de-rosa do Jardim do Príncipe Real. Saudoso, um homem, na casa dos 60, comenta: "Quando era miúdo vinha aqui comprar cigarros avulso." Flávia, fardada com o avental desenhado pelo estilista Filipe Faísca, vai servindo os cafés e capuccinos na manhã ventosa de aguaceiros fortes. Um deles a João Botelho, realizador de A Corte do Norte, em exibição nos cinemas.

Numa época em que empresas como, por exemplo, a norte-americana Starbucks, apostam implantar-se em Portugal dentro dos centros comerciais, o projecto de Catarina Portas, 40 anos, empresária e jornalista, e de João Regal, 34 anos, arquitecto e sócio-gerente da loja gourmet Deli Delux, em Lisboa, é um verdadeiro incentivo à locomoção e ao convívio social ao ar livre. Os renovados quiosques do Largo de Camões, do Príncipe Real e da Praça das Flores, em Lisboa, são pontos de encontro onde nos sentimos acompanhados pela tradição, "são propositados para os lisboetas", afirma Catarina. Após ganhar, em hasta pública, o concurso para a exploração das estruturas centenárias completamente abandonadas e degradadas, Catarina começou a estruturar "como devolvê-las à cidade?". A solução passou pelo quiosque do Príncipe Real receber janelas de guilhotina em madeira, pedras de lioz e avivar o cor-de-rosa original; nas Flores, a fórmica interior ficou forrada a mármore branco e o chapéu ganhou cor beringela; no Camões, o quiosque vindo do Jardim das Amoreiras aterrou de grua após um mês em estaleiro e a sua cúpula original foi integralmente recuperada, tendo também uma base nova em serralharia, semelhante à que terá tido na origem. Todos ganharam iluminação.

"É preciso pouca coisa para melhorar a cidade, os quiosques são um desses pequenos gestos", resultantes de um investimento de 120 mil euros (repartidos pela restauração e pelo equipamento interior feito por medida), esclarece a empresária.

Para oferecer nada melhor do que "receitas do século XIX" recuperando os "sabores lisboetas ", como lhes chama Catarina, dos refrescos e das sandes. Assim, não estarão à venda nem cerveja nem refrigerantes. Às receitas originais dos refrescos, Catarina e João com a ajuda de Daniel Roldão (da Fábrica do Rebuçado, Portalegre) retiraram açúcar, "há cem anos consumiam-se muito menos produtos com açúcar, mas os que o tinham era em demasia", conta Catarina, que depois das provas permanecia... enjoada.

Agora da lista fazem parte limonada, mazagran (refresco de café), orchata (à base de amêndoa), chá gelado (à base de chá de jasmim), capilé (xarope natural à base de folha de avenca), groselha (xarope natural), leite perfumado (fervido com canela e limão, servido muito gelado), ginjinha, Licor Beirão, vinho do Porto, amêndoa amarga, moscatel de Setúbal. E no meio das fatias de pão, condutos à base de bacalhau, sardinha, azeitona, torresmo e marmelada.

Além de toda a imagem simples e discreta, assinada por Ricardo Mealha da RMAC/BBDO, houve uma preocupação ecológica na escolha dos materiais. Os copos são 100% de amido de milho (substituto do plástico), o que significa que vão directamente para o lixo orgânico (em compostagem demorarão 180 dias a desaparecer).

É reconfortante ver as pessoas aproximarem-se do quiosque? "Na verdade, sinto uma certa alegria por estas peças do urbanismo serem novamente dos lisboetas", responde a proprietária enquanto bebe um capuccino quente.

O horário alargado (ver caixa) é uma das maisvalias destes espaços. Na opinião de Catarina, "uma coisa no meio da rua é para estar sempre aberta". Já há 140 anos, o Elegante, no Rossio, baptizado pelo povo de "Bóia" funcionava como uma espécie de salvamento com uma bebida fresca ou um café.

EM MARCHA

Lisboa terá até ao final de Setembro cerca de 30 quiosques e outros estabelecimentos de restauração a partir de concursos lançados pela autarquia.

Miradouro do Monte Agudo, Avenida da Liberdade, Parque Eduardo VII, Eucaliptal de Benfica e os jardins de Botto Machado, da Estrela, das Francesinhas, do Torel e das Amoreiras serão alguns dos locais contemplados por estruturas novas ou requalificadas.